Desabafo sobre uma amiga

Por Kaká Simurro

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Tenho uma amiga precisando de ajuda, mas não sei mais como ajudá-la.

Ela está com um cara há muitos anos e não consegue perceber o grande pilantra que ele é. Ele faz a banca de bom moço, mas qualquer um que presta um pouco mais de atenção percebe que ele é uma péssima pessoa.

Um pessoa completamente dissimulada, ele não faz nada que promete para ela, mas quando ela vai reclamar, ele a manipula prometendo mais um monte de coisa que nem ela acredita que irá cumprir.

Ele é violento! Acha que tudo se resolve na agressão física e chama os amigos pra descer porrada em quem o incomodar. Se um dia ela o incomodar, porrada nela também!

Ele é interesseiro, só pensa em dinheiro e gostaria mesmo que pessoas que não tem a mesma grana que ele parassem de importuná-lo.

Já a traiu várias vezes, mas ele é bom em apagar “os rastros” (faz amizade com as pessoas certas). Eu já mostrei fotos, evidências, provas concretas do canalha que ele é, mas ela pediu pra eu parar de me meter na relação dos dois.

Uma vez em uma conversa ela deixou escapar que não considera ele o cara ideal, mas acha que nunca vai encontrar alguém realmente bom e por isso deixa do jeito que está, mas a verdade é que ela nunca parou para olhar para os outros e ver de fato quais opções existem por aí.

Ontem eles tiveram uma DR, e como já era de se esperar, eles decidiram que vão continuar juntos. Não consigo mais assistir essa relação doentia. Prefiro me afastar.

Ela: sociedade paulista
Ele: Governador Geraldo Alckmin

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Cinco mitos sobre a questão de Israel

“As guerras dizem que ocorrem por nobres razões: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da civilização ou a vontade de Deus. Nenhuma tem a honestidade de confessar: ‘Eu mato para roubar’”.

– Eduardo Galeano

Conversar sobre Israel e Palestina ultimamente tem sido muito chato. Três semanas de ocupação, 53 soldados israelenses e 1.200 palestinos mortos depois, ainda é difícil participar de uma conversa sobre o assunto sem esbarrar em algum clichê que acaba com a conversa prematuramente. Pior: Ainda é impossível falar sobre o assunto sem ofender alguém.

Enquanto pisamos em ovos para não ofender nossos amigos, enquanto as nações unidas pisam em ovos para não ofender os EUA, a pilha de corpos cresce (Especialmente do lado palestino. Não vou fingir imparcialidade) e questões essenciais não estão sendo discutidas por causa de mitos, tabus ou pré-conceitos.

Sem intenção de esclarecer décadas de conflito em um texto de poucas páginas, procurarei pelo menos enumerar alguns desses mitos na esperança de elevar um pouco o nível do debate.

Abaixo enumero os cinco maiores mitos, e porque os considero falaciosos:

MITO 1 – ISRAEL ESTÁ APENAS REAGINDO A UMA OFENSIVA DO HAMAS. SE O HAMAS PARASSE OS ATAQUES, HAVERIA PAZ NA REGIÃO

O argumento predominante entre os que defendem as ações de Israel em Gaza costuma ser o de que o Governo Israelense quer paz, está apenas defendendo seu povo do Hamas.  “Se o extremismo do Hamas não ameaçasse a população israelense, a paz reinaria.” Alguém provavelmente te encaminhou esse vídeo nas ultimas semanas:

https://www.youtube.com/watch?v=daLF1AFs5AM

Esse argumento exige certa amnésia da parte das pessoas, pois uma rápida busca no Google vai confirmar que, na guerra ou na “paz”, Israel está constantemente se expandindo sobre território palestino.

Israel tem se expandido desde a guerra da independência (1948) . Essa expansão tem se dado alternadamente por meio de ocupações militares (como a que está acontecendo agora) e invasão de colonos (durante os períodos de paz). Com ou sem o pretexto da autodefesa, Israel continua avançando, e basta uma rápida olhada em um mapa para verificar a violência dessa expansão:

MAPA PALESTINA

(clique na imagem para expandir)

Para explicar como funciona a ocupação de território palestino por colonos: Resumidamente, é como se você acordasse um dia e uma imensa porção do terreno de sua casa tivesse sido simplesmente cercada por um fazendeiro estrangeiro, que começou a construir um muro em volta. Só que esse invasor não é considerado um criminoso, ele é protegido pelo exército e ganha automaticamente direito a aquela terra, como se ela nunca tivesse sido sua.

A imensa maioria da expansão de Israel, que você pode ver acima, se deu dessa forma. Não por conflitos militares. Não por reação a um ataque, seja ele do Hamas, do Fatah ou de qualquer célula terrorista independente.

Como essa expansão é extra-oficial, é incentivada e financiada, mas não é organizada pelas autoridades israelenses, o território palestino foi basicamente estilhaçado. A palestina virou uma série de faixas de terra intercaladas por corredores e muros de Israel.

Para visitar sua família em outra região de Gaza, um palestino precisa às vezes passar por dois ou três controles de fronteira. Com os passaportes sempre vencidos (já que eles são concedidos pelo governo israelense), nada resta para um palestino a não ser contar com a boa vontade de alguém do exército, ou então se resignar ao pequeno espaço que lhe foi conferido. Como uma pequena prisão. Como um gueto.

Outra conseqüência desse recorte desordenado de territórios é a interrupção de serviços básicos, como água e eletricidade. Mesmo saneamento básico muitas vezes é negado aos habitantes dessa região, onde se passa fome, se morre de epidemias, onde falta escola, hospital e o mínimo necessário para que o povo palestino viva com dignidade. Não estamos falando de dois países e uma fronteira tensa: Estamos falando de um país e alguns guetos ilhados e separados dentro desse território.

Aos interessados em entender mais sobre o assunto, recomendo como introdução o vídeo abaixo (infelizmente não tem legendas):

https://www.youtube.com/watch?v=eCo4MHM72e8

Ao que tudo indica, o que o governo israelense espera é que o povo palestino aceite passivamente uma expansão que acabará em poucos anos com o que restou de seu território.

Note que sobre essa ótica, as atuais agressões palestinas contra Israel – não estou emitindo juízo de valor aqui – não são ataques contra a cultura judaica ou contra o povo judeu, mas reações a uma lenta e contínua invasão israelense.

É claro que depois de tantos anos, existe anti-semitismo. É claro que existe uma questão religiosa. Mas esse não é o ponto principal. Nunca foi. No fim das contas, o que importa é a terra.

Claro que o governo israelense não vai convencer seu povo a apoiar suas ações se contar essa história. Para que apenas sua versão seja contada, temos cada vez mais visto censura à imprensa e controle da informação que entra e sai daquela região. A reportagem abaixo relaciona diversos casos de censura a jornalistas nas ultimas semanas:

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/07/jornalistas-gaza/

Na dúvida, meu amigo. Questione.

MITO 2 – ISRAEL É UMA NAÇÃO TIRANA QUE REJEITA UNILATERALMENTE O ISLAMISMO

Esse mito está entrando na moda agora, depois de centenas de fotos de crianças palestinas mortas invadiram a rede e fizeram Israel perder a guerra de “relações públicas”. Muita calma nessa hora. Nada pior para qualquer debate do que maniqueísmos, simplificações superficiais sobre o “bonzinho” e o “malvado” da história.

Justiça seja feita, assim que foi constituída (mais precisamente em 1948), Israel foi atacada violentamente pelos países árabes (Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, etc) em seu entorno, que rejeitaram a imposição arbitrária do governo britânico à criação do estado judaico. Foi uma guerra violenta, onde 1% da população do recém constituído país morreu.

Essa ameaça original plantou as sementes do que se tornou hoje o nacionalismo israelense e a cultura da ameaça externa que norteia – e procura justificar – suas ações.

Nos anos seguintes Israel se recusou (na maior parte do tempo) a negociar com a OLP (liderada por Yasser Arafat, filiado ao Fatah) devido aos atos terroristas que ocorriam ocasionalmente, mas isso aparentemente se mostrou um erro. Em 2006, a flor em uma mão e fuzil na outra de Arafat foram substituidos pelo lança torpedos do Hamas e a paz nunca pareceu tão distante para Israel.

O Hamas, diferente do Fatah, não aceita a existencia de dois estados distintos: Ela quer o fim de Israel. Dentro do Hamas existem discursos mais moderados – que clamam pela criação de um estado unico e democrático (o que não seria um má idéia, se eles forem capazes de respeitar isso) – e discursos mais extremos e antissemitas, é claro.

Esses discursos só ganharam voz – e espaço – entre os Palestinos depois de décadas de violência e expansionismo. A história de repete, e da mesma forma que os EUA criaram seus próprios monstros em Bin Laden e Saddan Husseim, o Hamas é o pequeno monstro de Frankenstein criado pela truculência do governo Israelita ao longo das ultimas décadas, pela vista grossa (e até incentivo) feito à expansão dos colonos sobre território palestino. O pequeno grupo extremista se tornou a ultima linha de defesa de um povo sitiado e desesperado.

As lideranças do Hamas já declararam abertamente a intenção de destruir israel, já clamaram pela morte do povo judeu. Isso é fato. É evidente que Israel está colhendo o que plantou nas ultimas décadas, e também é evidente que está conduzindo o problema de forma desastrada hoje, mas não podemos simplesmente ignorar esse contraponto. Para entender um pouco mais o lado israelita, sugiro esses dois excelentes textos sobre o assunto:

http://www.samharris.org/blog/item/why-dont-i-criticize-israel/

http://www.huffingtonpost.com/ali-a-rizvi/picking-a-side-in-israel-palestine_b_5602701.html

Israel tem o poder para matar 100% da população palestina em uma semana, se realmente quiser. Se isso não está sendo feito, é porque não há uma INTENÇÃO de fazê-lo. A liderança do Hamas, por outro lado, já declarou abertamente que faria isso se pudesse, e quando alguém declara suas intenções de cometer genocídio, devemos prestar atenção. Então devemos ser cuidadosos, pois avaliar a questão ignorando o lado de Israel é um erro tão grande quanto defender Israel incondicionalmente.

Acalmados os ânimos, vamos pensar juntos… goste ou não disso, Israel tem que lidar com o Hamas, e não é possível destruí-lo sem destruir Gaza. A cada missil lançado sobre Gaza, o Hamas ganha mais apoio, seu discurso de ódio é mais fortalecido. Imagine-se chegando em casa e descobrindo sua família inteira morta por um bombardeio, enquanto jantava, ou dormia, ou coisa que o valha. Você não se tornaria um extremista da noite para o dia?

Ao menos que a idéia de um estado único (defendida por muitos) vá pra frente, Israel sempre precisará guardar suas fronteiras com atenção, sempre deverá olhar por cima do ombro no que concerne seus vizinhos.

A paz não será obtida por meio de mísseis, a unica alternativa se seguirmos nessa direção será o exterminio completo da população palestina.

Ninguém em sã consciência condenaria Israel por querer proteger suas fronteiras, especialmente com um inimigo como o Hamas batendo na sua porta. Condenar a expansão constante dos colonos israelenses sobre Gaza, condenar o bombardeio incessante que ceifa milhares de vidas inocentes, isso já é outra história.

MITO 3 – EXISTE UM POVO QUE DEVE OCUPAR AQUELA TERRA POR DIREITO HISTÓRICO

Não existe um “dono original” para nenhuma terra do mundo. A humanidade surgiu na África, próxima à região onde hoje fica a Etiópia, e desde então tem se expandido por todo o Globo, ocupando regiões, batalhando entre si por terra. Se regredirmos a história da região onde hoje fica Israel, a Palestina, a Jordânia e o Líbano, poderemos contar centenas e centenas de “povos originais” que poderiam clamar para si o direito por aquela terra.

Filisteus, Turcos otomanos, Árabes, Britânicos, Hebreus, Egípcios e Cruzados vindos da Europa. Dezenas de povos clamaram aquela terra para si ao longo dos últimos séculos. O vídeo abaixo mostra um pouco da complicada história dessa sangrenta região, e revela como qualquer simplificação sobre um “dono por direito” dela é falaciosa:

http://blog.ninapaley.com/2012/10/01/this-land-is-mine/

Discutir quem é o dono original daquela região é inútil. Existem israelenses. Existem palestinos. Ao menos que alguém tenha um plano excelente para criar um novo continente do nada e remover toda uma população para ele, teremos que lidar com esse fato e encontrar um lugar para todas essas pessoas viverem.

Na minha opinião esse lugar deve ser um estado. Único. Laico. Democrático. Isso devia ter sido articulado a 60 anos atrás, e esta a cada dia mais dificil, mas talvez seja a única alternativa a essa altura do campeonato, já que recuar Israel para as fronteiras originais de 1947 parece fora de questão.

MITO 4 – TODO JUDEU APOIA A POLÍTICA DE ISRAEL. QUEM VAI CONTRA ISRAEL FAZ ISSO POR SER ANTISSEMITA.

Poucas coisas matam uma conversa tão rápido quanto uma acusação de racismo. E quando não há argumentos, a forma mais rápida de acabar com uma conversa é desqualificar o interlocutor.

Pra começo de história, a ocupação em Gaza não é consenso nem mesmo entre os israelenses, como às vezes se pensa por aí. Entre a população de Israel, sobretudo entre os jovens, um movimento de resistência cada vez maior tem florescido.

Ainda sem tradução, esse lindo manifesto do grupo “Boycott from Within” deixa claro que muitos israelenses consideram o que seu governo está fazendo um verdadeiro massacre:

http://boycottisrael.info/content/citizens-israel-charge-israel-genocide

Acompanhamos manifestações em Tel Aviv na semana passada que reuniram quase 10.000 pessoas:

Protestos Tel Aviv

http://www.haaretz.com/news/national/1.607311

A todo o momento nascem novos grupos de judeus solidários aos palestinos e contrários à opressão do estado israelense em Gaza, como os Combatentes pela Paz, o Rompendo o Silêncio (formada por ex-soldados israelenses) e o Voz Judaica pela Paz, cuja página do Facebook tem sido uma excelente fonte de informação nas ultimas semanas:

https://www.facebook.com/JewishVoiceforPeace?fref=ts

Em março desse ano um grupo de 60 jovens israelenses se recusou a cumprir o serviço militar obrigatório do país, alegando que “preferem ir para a prisão a servir a um exército que comete crimes”.

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/jovens-de-israel-recusam-exercito-melhor-ir-para-a-prisao,0ef0e57639ca4410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Recomendo que todos assistam a declaração do grupo “Young Jewish and Proud” onde a juventude israelense faz um apelo aos jovens judeus de todo o mundo para que se orgulhem de sua herança e de sua história, mas que levantem sua voz contra as atrocidades que o governo israelense está cometendo:

https://www.youtube.com/watch?v=BAV-3-AqP9M

Por fim, gostaria de citar o Dr. Norman Finkelstein, judeu, um dos maiores estudiosos na questão palestina, cuja familia toda (inclusive os pais) estiveram em campos de concentração na segunda guerra. Recomendo fortemente essa palestra dele (abaixo o link para a primeira parte, com legendas):

Falar contra a atual política externa de Israel não é racismo, não é rejeição à cultura judaica, ao povo judeu ou coisa que o valha. É uma questão de lógica, e bom senso, e pessoas de qualquer religião ou nacionalidade deveriam poder fazer isso sem sentir que estão ofendendo qualquer um.

Por outro lado, as ações de Israel não podem nunca justificar anti-semitismo ou rejeição ao povo e cultura judaicos. São ações de um governo, movidas por interesses econômicos, e que não devem representar a máxima expressão de um povo nesse mundo. Nunca. Eu temo que as ações de Israel acabem despertando nas pessoas um preconceito destrutivo, da mesma maneira que os EUA de George Bush despertaram no mundo um anti-americanismo que nunca levou a lugar nenhum.

Existe, especialmente na juventude israelense, uma crescente clareza de idéias e intenção de paz. Ainda é uma minoria, é verdade, mas apenas o debate e a reflexão provocarão mudança.  Acredito que nessas pessoas, nesses jovens, reside a maior esperança de uma solução a esse conflito. Israel vai ter que mudar de dentro pra fora.

MITO 5 – ISRAEL NÃO ESTÁ FAZENDO NADA ERRADO. GUERRA É GUERRA E ELES SIMPLESMENTE SE PREPARARAM MELHOR.

De um lado, temos uma nação pequena, porém militarmente poderosa, apoiada pelo país mais rico e militarmente desenvolvido do mundo, dotado de poder de voto na ONU.

Do outro, um território que não é sequer reconhecido como membro das Nações Unidas (apenas estado observador), portanto não pode garantir sua soberania nacional perante os demais países. Tecnicamente, nem mesmo é um país.

É lugar comum afirmar que a única solução possível para o conflito entre Israel e Palestina é um acordo que garanta a soberania dos dois territórios. É lugar comum afirmar que tem gente morrendo dos dois lados, que a guerra prejudica a todos, que a paz é tão urgente e necessária em nome de um lado, quanto do outro.

O problema é que existe uma desproporção tão imensa entre os dois poderes aqui discutidos, que não se pode chamar o que está ocorrendo de guerra, e sim de massacre.

A tabela abaixo relaciona as casualidades civis no conflito entre Israel e Palestina entre 1987 e 2010 e mostrará melhor o que estou dizendo:

CASUALIDADES ISRAEL X PALESTINA

(clique na imagem para expandir)

O Hamas realmente usa a população de escudo, dispara mísseis de escolas, hospitais, etc. Mas bombardear esses hospitais e escolas em retorno não é um caminho razoável, não é uma tática justificável.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/o-ataque-covarde-contra-4-meninos-palestinos-numa-praia-de-gaza.html

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/israel-bombardeia-escola-usada-como-abrigo-da-onu-em-gaza,4ab5c008cfd57410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html

http://www.reuters.com/article/2014/07/30/us-mideast-gaza-idUSKBN0FV04A20140730

Estatistícas mostram que uma criança palestina é morta pelo exército israelense a cada 3 dias nos ultimos 13 anos:

http://www.globalresearch.ca/one-palestinian-child-has-been-killed-by-israel-every-3-days-for-the-past-13-years-2/5389498

É claro que o governo israelense não quer, ativamente, massacrar crianças (algo, diga-se de passagem, que não deve ser um problema para o Hamas, se essas crianças forem judias). Mas é isso que está acontecendo.

E é isso o que acontece sempre que um país poderoso invade um país fraco, e estabelece que a casualidade civil seja um sacrifício aceitável para se atingir certo objetivo. Não há desfecho diferente com esse tipo de pensamento.

Claro que em uma guerra pessoas morrem. É claro que se um lado for mais poderoso, produzirá mais casualidades e sofrerá menos baixas. Mesmo se julgarmos os motivos dos dois lados igualmente justos, mesmo se assumirmos que o Hamas faria pior com Israel se assim pudesse, há um limite para o aceitável, e o governo israelense ultrapassou esse limite.

Só há um fim possível para essa situação: O massacre completo do povo palestino e a resignação dos poucos sobreviventes a uma vida miserável em uma terra ocupada.

 

CONCLUSÃO

Ao atacar os cinco principais mitos sobre a questão do oriente médio, eu procurei contar uma história. A história da criação desastrada de um estado, de uma guerra que tem durado décadas e de um capitulo final, ainda por ser escrito, que se deixada aos cuidados atuais acabará narrando um massacre.

Não o massacre de um povo por outro. O povo israelense, em sua maioria, quer a paz. O povo palestino, em sua maioria, quer a paz também.

Terá sido o massacre perpetrado por um estado (dotado de interesses econômicos geralmente ocultos de seus eleitores), justificado por um trabalho intenso de propaganda, vendido para sua população (e para o mundo) como o único caminho.

A comparação com o nazismo – respeitadas as devidas proporções – é inevitável.

Estive em Auschwitz pessoalmente a oito anos atrás, e até hoje não me recuperei completamente da visão das montanhas de sapatos de judeus exterminados naqueles campos (ainda expostos), nem das marcas de unha nas paredes de uma câmara de gás, que eles mantém conservada por lá.

Gosto de pensar que evoluímos como espécie desde aqueles tempos sombrios, que aprendemos com nossos erros, que estamos avançando. Tenho esperança de ver, ainda em vida, uma conclusão para os palestinos diferente do extermínio, da completa ocupação, do holocausto.

Acredito que a semente da mudança já está plantada, em solo israelense, e que a própria juventude judaica que lá reside irá se erguer contra a tirania de seu governo, contra os fantasmas de seus antepassados, e mudará os rumos dessa história tão terrível. Acredito que eles poderão estender seus braços à oprimida população palestina, para que eles não precisem contar com o Hamas como sua ultima linha de defesa. Para que eles possam, por sua vez, rejeitar o discurso de ódio do Hamas.

Acredito que a memória do que é ser oprimido, que parece ter pulado algumas gerações, voltará a brilhar nessa juventude.

No entanto, isso levará algum tempo. Netanyahu – ou outro governante com o mesmo pensamento que ele – governará Israel por muitos anos ainda, e seu governo poderá marcar a extinção dos palestinos se não houver pressão internacional para que a ocupação seja interrompida AGORA.

Por esse motivo, cabe a nós, católicos, judeus, budistas, ateus, seres humanos enfim, fazer o possível para lançar um pouco de luz, um pouco de razão, a esse debate ainda tão evitado, tão cheio de tabus. A contagem de corpos continua aumentando, e simplesmente não há mais tempo.

 

LEITURA COMPLEMENTAR:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/nao-ha-culpa-coletiva-na-faixa-de-gaza-6583.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/11/eduardo-galeano-israel-gaza-direito-de-negar-todos-os-direitos.html

http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/07/11/the-lopsided-death-tolls-in-israel-palestinian-conflicts/

http://palsolidarity.org/2013/07/interview-with-ilan-pappe-the-zionist-goal-from-the-very-beginning-was-to-have-as-much-as-palestine-as-possible-with-as-few-palestinians-in-it-as-possible/

http://www.chomsky.info/books/dissent01.htm

http://mondoweiss.net/2014/07/israels-actions-unjustified.html

Carta Aberta a Fernando Haddad

Prezado Sr. Fernando Haddad,

Lendo as notícias da semana a respeito do altíssimo índice de rejeição a sua gestão (que atingiu a casa dos 47%) eu me senti impelido, quase obrigado mesmo, a escrever essa carta aberta que estou publicando em meu blog.

Antes de qualquer coisa, vamos jogar limpo (diferente dos ditos ‘veículos imparciais de mídia’ que operam em nosso país): Minha inclinação política tende à esquerda, mas eu não sou petista. Aliás, acho que nunca serei “ista” para partido algum. Tenho procurado cada vez mais olhar para o candidato em vez de para o partido, renegando aquela noção de que “nenhum político presta”. Dito isso, uma confissão: Sou seu fã.

Votei em você sem saber quase nada a seu respeito, admito, simplesmente porque não queria de jeito nenhum ver José Serra prefeito de minha cidade. Mesmo assim, marchei nas ruas contra o aumento da passagem de ônibus, admito novamente, e durante esse período assumo ter ficado com raiva de você. Claro que eu fui injusto, aquele ajuste devia estar programado faz muito tempo (e você tinha acabado de chegar), mas você sabe como essas coisas são…

Minha primeira surpresa positiva veio logo depois: A polícia do Alckmin não parou de dar porrada, a tal reforma política anunciada pela Dilma em rede nacional acabou não acontecendo, mas as passagens voltaram ao preço anterior.

Desde então comecei a prestar mais atenção em sua gestão, e comecei a perceber que pela primeira vez desde que eu me lembro por gente, temos em São Paulo um prefeito que trabalha. E minha cidade começou a mudar:

  • Artistas de rua – antes considerados marginais – ganharam seu espaço.
  • Os incríveis e criativos Food Trucks (que toda cidade grande do mundo possui e São Paulo proibia) foram autorizados e regulamentados
  • As ciclofaixas ganharam mais espaço e algumas delas foram promovidas a ciclovias.
  • Ganhamos muito mais praças com internet livre.
  • Foi anunciada a criação de uma política publica para grafites (uma das marcas registradas da cidade em qualquer guia turístico gringo, apesar das gestões anteriores considerarem pichação e cobrirem de tinta branca).

A sensação é que o paulistano começou, com sua ajuda, a recuperar a cidade, por anos seqüestrada por especuladores imobiliários e construtoras. Nossa querida São Paulo, que prometia virar um aglomerado asséptico de imensas avenidas conectando ultra-condomínios fechados a shopping centers, deu uma guinada para outra direção. Uma direção mais humana, e muito mais interessante e democrática.

Muitas das medidas – como a ampliação das faixas de ônibus e a clara prioridade que você tem dado ao transporte público – foram incrivelmente impopulares para certa camada da população. Taxistas furiosos pela proibição de trafegar pelas faixas (o que convenhamos, não fazia nenhum sentido) se juntaram aos descontentes. O desmantelamento da máfia de fiscais do ISS certamente incomodou muita gente graúda. Você conquistou inimigos automáticos.

Suspeito que você sempre soube que seria assim, o que justificaria o lema de sua gestão: “Prefeitura de São Paulo: Fazendo o que precisa ser feito”.

Em uma democracia onde o povo escolhe seu candidato em turnos alternados de quatro anos, virou quase um clichê termos administrações focadas em resultados de curto prazo, concentrados em medidas que garantam a reeleição do prefeito para um segundo mandato. As pessoas se acostumaram com esse clichê, e determinam seus votos em função dele. O eleitor médio simplesmente não compreende o conceito de medida de médio-longo prazo, pois esse conceito nunca foi aplicado por aqui.

Respeito você como político e como profissional. Você aceitou a idéia de ser rejeitado, de ser repudiado, porque sentiu que estava fazendo o que precisava. Conquistou grandes inimigos ao aprovar o Plano Diretor Estratégico para a cidade na semana passada (as grandes construtoras e os grandes especuladores não vão deixar barato), mas fez isso mesmo assim, pois sem ele nossa cidade caminhava em direção a um colapso de mobilidade urbana, socioambiental e econômico. Qualquer pessoa que tiver paciência de ler o PDE não terá alternativa senão concluir que ele vai ser positivo para a cidade.

Suspeito que muita gente que diz não gostar de você não sabe bem porque tem essa opinião. Vai praguejar alguma coisa contra o PT, papagaiada de uma VEJA da vida, ou então criticar as faixas de ônibus e como o transito piorou por causa delas (como se fosse possível reverter décadas de negligência ao transporte público em alguns meses).

A essas pessoas, gostaria de recomendar uma rápida pesquisa sobre as ações da prefeitura somente na ULTIMA SEMANA, conforme listado nas  “referências” no final do meu texto. As ações, reunidas em postagem da Carol Almeida (link do facebook abaixo), incluem a instituição de uma política municipal de segurança alimentar, a transformação da Chácara Jockey (169 mil m² no Butatã) em um grande parque municipal, parceria para a reabertura do cinema Belas Artes, a construção de uma usina de triagem de material reciclado, a instalação de contadores de passageiros de ônibus (para aumentar ou reduzir a frota conforme horários e rotas) e a aquisição de áreas para a construção de mais um Sesc (o Sesc Mercadão), entre outras coisas.

Sobre essa lista, e todas as outras medidas citadas em minha carta até agora, só posso dizer uma coisa: Obrigado. O seu índice de rejeição de 47% pra mim é um sintoma de como nossa cidade está doente, e como seus cidadãos estão alienados à própria realidade.

Não sou petista, também não sou “haddadista”. Mas continuarei votando em você, enquanto continuar governando para o futuro, e não em função de uma reeleição. Realmente espero que outros candidatos por aí, de outros partidos, sigam seu exemplo, e que as pessoas comecem a acordar pra vida e comecem a votar nos candidatos por causa de seus planos de governo, não porque uma certa revista mandou, ou porque demoraram 10 minutos a mais pra chegar em casa por causa de uma faixa de ônibus.

Acho que até 2016 ainda tem muito chão, e você vai conseguir fazer muita coisa positiva para a cidade. Espero que isso motive os futuros candidatos a fazer o mesmo, e espero que dê tempo de parte da população acordar e mudar de opinião, pois realmente gostaria de ver o que você faria com São Paulo em um segundo mandato.

Só te peço uma coisa: Não mude seu modus operandi. Não interrompa as medidas de médio e longo prazo por serem impopulares hoje. Não deixe de fazer o que precisa ser feito porque uma pesquisa assustadora foi publicada. Temos toda uma geração de eleitores vindo por aí, com um engajamento e uma cultura política que as gerações anteriores (filhas da ditadura) simplesmente não podem compreender. Faça uma gestão para essas pessoas…

E se em 2016 essa conscientização não tiver sido o bastante, e algum engravatado cheio de promessas vazias e nenhum plano de governo se sentar em sua cadeira, você poderá pelo menos dizer que você fez o melhor que pode. E que produziu mudanças significativas das quais todo paulistano poderá colher os frutos, mesmo tendo achado na época que não o faria.

Isso já é mais do que qualquer prefeito que tivemos em um passado recente jamais poderá dizer.

Obrigado e abraços,

Igor Machado (Alguém ai fora).

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REFERENCIAS: 

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/datafolha-rejeicao-a-haddad-sobe-de-36-para-47

https://www.facebook.com/carol.almeida.5074/posts/10152270173071864?notif_t=like   (link inspiração, aliás)

http://www.brasilpost.com.br/2014/07/30/grafite-prefeitura-sp_n_5635141.html?utm_hp_ref=mostpopular

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/31/sociedad/1406842317_190665.html

http://pedaleria.com/bicicletario-de-pinheiros/

http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2014/07/sao-paulo-tera-politica-municipal-de-seguranca-alimentar-6856.html

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,chacara-do-jockey-no-butanta-vai-virar-parque-municipal,1529646

http://www.capital.sp.gov.br/portal/noticia/3445

http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/07/17/prefeito-haddad-anuncia-novo-edital-da-spcine-que-contara-com-r-1-milhao.htm

http://www.akatu.org.br/Temas/Residuos/Posts/Usina-de-triagem-de-material-reciclavel-e-inaugurada-em-Sao-Paulo

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,onibus-paulistanos-ganharao-contador-de-passageiros,1527348

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,haddad-entrega-area-para-sesc-mercadao,1529198

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Primeiros-Passos/A-defesa-do-IPTU-progressivo-por-Haddad-em-2001-Justo-e-constitucional-/42/28016

 LEITURA COMPLEMENTAR:

http://entretenimento.r7.com/blogs/ricardo-alexandre/carrolatria-em-sao-paulo-20140729/

http://outraspalavras.net/brasil/23064/?utm_source=feedly&utm_reader=feedly&utm_medium=rss&utm_campaign=23064

Sobre a elite “macarronada com uísque” (ou qualquer outro apelido bobinho…)

Diz que adora viajar e de fato viaja todo ano…. para a Disney. Foi uma vez pra Cancum mas não curtiu, tinha muito mexicano.

Diz que brasileiro é tudo conformado, que não faz nada pra mudar o país. Toda vez que tem manifestação chama os participantes de vândalos e torce pra polícia descer a borracha.

Diz que político é tudo corrupto, mas já pagou muita propina pra fiscal e pra policial. Sonega imposto, afinal “vai tudo pro bolso dos corruptos mesmo”, mas nunca deu um real para a caridade.

Diz que o Brasil é o país da impunidade e acha que deveríamos punir os criminosos com mais vigor. Vocifera contra o estado autoritário toda vez que uma empresa paga uma multa por alguma infração cometida. Propina também não é crime, nem sonegação. Crime de verdade é só o de bandido pobre, na rua, segurando uma arma.

Diz que o problema do Brasil é a educação, mas ele mesmo não estuda muito. O único livro que leu desde que pegou o diploma foi uma biografia do Steve Jobs, mas parou na metade porque era muito grande.

Diz que o bolsa família é uma fábrica de vagabundos, e adora encaminhar aquela corrente de e-mail sobre o porteiro que pediu demissão pra viver de bolsa, mas nunca perdeu um minuto tentando descobrir quanto o bolsa família realmente paga para os beneficiados. Assume que “deve ser bastante”.

Diz que o brasileiro é burro e alienado por votar errado, mas nunca pesquisou muito sobre os candidatos que vota. Costuma votar no PSDB só porque eles são oposição aos “malditos comunistas”. Pelo mesmo motivo apoia Cunha, Bolsonaro, Feliciano e qualquer um que se levante contra “medidas de esquerda”, não importa exatamente qual a alternativa apresentada.

Diz que o Brasil é uma porcaria e gostaria de morar na Europa. Mas não quer que o Brasil seja a Europa. Critica qualquer medida que incentive o transporte público, maior distribuição de renda ou valorização da mão de obra (como a ‘lei das domésticas’). No fundo queria que o Brasil fosse o Brasil mesmo, mas a uns 150 anos atrás, quando a “gentinha” conhecia seu lugar.

Diz que defende a liberdade quando protege a “livre iniciativa” do “estado opressor cobrador de impostos”. Esquece disso rapidinho na hora de pregar contra o aborto, as “feminazis”, o casamento gay, a legalização da maconha ou qualquer medida que vai contra os valores dos “homens de bem”.

Diz que gosta de coisas de qualidade, mas não sabe bem o que isso significa. Parte da premissa de que, se é caro, deve ser bom. Torra seu dinheiro na GAP do shopping JK e paga 20 reais na latinha de Skol da Disco, na Vila Olimpia, onde só vai gente “diferenciada”.

Importante mesmo é deixar claro para o mundo que é diferente do “resto do Brasil”.

Em um país que despreza seus professores, seus acadêmicos, seus cientistas sociais e seus artistas, não admira que pertencer à elite econômica brasileira não tenha necessariamente nada a ver com pertencer à elite intelectual.

Parte da “nobreza ultra conservadora” do Brasil se delicia com o apelido que inventaram aos que ousam se levantar a favor de avanços sociais no país : “Esquerda caviar”. Claro, eles não percebem que são tão caricatos que seria quase irresistível inventar um apelido bem bobinho e preconceituoso para eles também, tipo “Elite Macarronada com Uísque”.

Mas quer saber? Deixa pra lá.

O processo histórico sempre foi marcado por gente tentando mudar o mundo e gente tentando manter as coisas como estão. E adivinha só: Com ou sem choro, o mundo nunca parou de mudar. Sobrevive quem se adapta à essas mudanças.  Boa sorte aos conservadores de plantão: Dias difíceis estão por vir…

Sobre Índios e a Copa do Mundo

Um índio de aspecto frágil e cansado cambaleia agarrado em alguns galhos e troncos de uma solitária árvore. Ele está a mais de 26 horas pendurado nesses galhos, encurralado, demonstrando a resistência obstinada que só conhece aquele que não tem nenhum lugar para onde correr. Ao chão, um efetivo completo do Batalhão de Choque da Policia Militar o cerca, assim como alguns bombeiros. Cerca de 50 manifestantes acompanham de longe, temerosos pela batida policial que no dia anterior prendeu 25 deles e agrediu indiscriminadamente transeuntes, crianças e até uma mulher grávida. Finalmente, o velho índio é arrancado a força por alguns bombeiros. Está terminado. Ao debilitado índio resta um leito de hospital, e mais tarde uma cela de prisão.

Esse é exatamente o quadro visto por todos os que estiveram no Museu do Índio, na chamada “Aldeia Maracanã”, na ultima terça-feira, 17/12. Se você nunca ouviu falar desse lugar, certamente ouviu falar de seu vizinho, o “Estádio do Maracanã” do Rio de Janeiro, templo milionário do futebol, recentemente reformado, onde teremos o encerramento da Copa do Mundo em 2014.

O que nem todo mundo sabe (e não é por acaso) é que desde 2006 o Museu do Índio tem sido palco de uma importante manifestação social, quando um terreno adjacente ao prédio histórico (e ao estádio de futebol) foi ocupado por um grupo de 20 índios de variadas etnias, se transformando em uma aldeia urbana. Esse terreno foi comprado pelo Estado do Rio de Janeiro em 2012, que planejava integrá-lo às obras para a Copa do Mundo de 2014. Os planos envolviam a demolição do Museu do Índio para facilitar a saída dos torcedores, e o terreno apropriado supostamente seria transformado em estacionamento.

A ocupação durou até março desse ano, quando o terreno foi desapropriado pela PM na base de muito cassetete e bala de borracha (qualquer semelhança com o Pinheirinho, ou as ocupações na reitoria da USP, ou as manifestações de junho, são mero acaso). Desde então a região tem sido cenário de conflitos e resistência dos índios (que insistem em ocupar a área a cada nova desapropriação) e manifestantes sensibilizados pela causa.

O conflito da ultima semana resultou em prisões e espancamentos de manifestantes por parte da polícia, como já foi citado acima. Segundo o advogado dos indígenas da Aldeia Maracanã, Arão da Providência Filho, a ação da PM do Rio foi ilegal, já que a ordem judicial de reintegração de posse por parte do governo, expedida em março, foi suspensa em agosto.
José Urutal, um dos índios ocupantes do terreno, assumiu um papel de destaque no evento ao subir em uma árvore do terreno e recusar-se a descer, permanecendo por mais de um dia em cima da árvore até ser removido em ação conjunta da PM e Corpo de Bombeiros.

O desfecho de seu obstinado protesto não foi surpresa para ninguém, José não tinha pra onde correr, estava cercado e encurralado. O que é interessante nessa história não é a rendição, e sim a resistência: A resistência obstinada de uma pessoa sem qualquer perspectiva além da inevitável subjugação. Uma resistência que simboliza não apenas a luta pessoal deste homem, mas a resistência de todo um povo. Um povo indígena. Encurralado. Sem perspectiva. Obstinado.

As pessoas costumam se perguntar, ao falar de absurdos históricos como o holocausto judeu, por exemplo, como as pessoas puderam permitir que a barbárie acontecesse. “Ninguém fez nada?”. Pois é quase certo que um dia seremos todos julgados pelas gerações futuras, que se perguntarão como pudemos assistir calados o massacre secreto de tudo o que restou de nossas raízes, de nossa cultura original, de um povo. De seres humanos.

Desde a colonização do Brasil, nosso país tem sido palco de um verdadeiro genocídio, que ceifa centenas de vidas todos os anos (já foram milhões, em tempos idos, menos ‘civilizados’). No passado, vivemos a tragédia. Hoje, vivemos a farsa. O descaso do PT, que ocupa a cadeira da presidência há 12 anos, com a questão indígena, é particularmente vergonhoso considerando a incoerência do discurso com a ação.

De acordo com o CIMI, a última década registrou uma média de 56,5 assassinatos de indígenas por ano. Foram oficialmente 452 assassinatos entre 2002 e 2010, e naturalmente quando estamos falando de assassinatos na floresta, longe dos olhos da mídia, os números oficiais não traduzem sequer uma fração da realidade. Os assassinatos geralmente seguem o mesmo padrão: Ninguém apertou o gatilho, ninguém mandou matar. São assassinatos sem solução, cometidos longe dos olhos das pessoas ou da mídia.

Segundo as estatísticas produzidas pelo Conselho Indígena Missionário, braço da Igreja Católica, o “agronegócio” é responsável por 10 em cada 10 desses homicídios no Brasil.

A despeito dos insípidos esforços de nossos governantes em criar reservas indígenas, a lentidão nas demarcações acaba criando “bolsões de miséria”, deixando populações enormes de índios marginalizados, vivendo em uma densidade demográfica superior a de favelas, expostos a criminalidade, drogas e tráfico. Além de intensificar os conflitos que resultam em mortes, essa situação colabora para degradar ainda mais a já ameaçada cultura desses povos.

Na reserva de Dourados (MS), por exemplo, 13 mil guarani-kaiowá vivem em apenas 3,5 mil hectares, uma densidade demográfica comparável a da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

O descuido na demarcação das áreas indígenas acaba muitas vezes potencializando o pior dos dois mundos: As populações não tem acesso aos recursos naturais que as permitiram manter o estilo de vida tradicional de seus antepassados (caça, pesca e extração), mas mantém-se marginalizadas do acesso aos recursos da civilização (baixa ou nenhuma qualificação profissional, difícil acesso aos recursos providos pelo estado).

Estamos falando do comum e ainda muito subestimado assassinato cultural das etnias indígenas que restaram. Um fenômeno muito pouco compreendido por uma parcela ainda considerável da população brasileira, que costuma dizer que o índio de hoje em dia não é mais “índio de verdade” ou “se aproveita de sua condição para obter benefícios do governo”. Nada poderia estar mais distante da verdade.

Belo Monte, claro, é um dos melhores exemplos de “assassinato cultural”. Mais simples ainda, o fechamento “na marra” do “Museu do Índio” e sua transformação no “Museu do Futebol”, não deixam de ser um símbolo interessante (e talvez um pouco grosseiro) desse mesmo processo histórico.

Qualquer pessoa com o mínimo de empatia é totalmente incapaz de corroborar conscientemente com o massacre (literal e cultural) que tem acontecido no Brasil, mas poucos de nós realmente saem do campo teórico da indignação, esse que aceita tantos temas, mas só um pouquinho de cada vez. E enquanto diluímos nossa revolta nas horas de nossos dias confortáveis, os corpos se empilham nas florestas, lentamente transformadas em fazendas. Em Altamira, entre uma ou outra paralização de Belo Monte.

O evento da ultima semana parece pequeno, frente à grandiosidade da problemática indígena como um todo. Mas não é. O evento da ultima semana traduz um conceito. Um posicionamento. Expõe o desprezo e violência com que nossa civilização continua removendo o índio brasileiro, de um lugar para outro, em detrimento dos interesses de uma elite econômica, em detrimento de interesses financeiros para os quais uma população economicamente pouco produtiva é praticamente invisível.

Por mais que nos preocupemos com a questão indígena, daqui a alguns meses quando a Copa do Mundo começar, nos esqueceremos da vergonha que foi a desocupação do Museu do Índio (nem entraremos no mérito da roubalheira dos estádios, não é o tema aqui), e torceremos fervorosamente por nossa seleção, patriotas como somos. Quando Belo Monte vencer seu centésimo embargo e finalmente terminar de devastar as terras de algumas centenas de povos indígenas, ficaremos felizes com toda a energia que as usinas vão gerar e como ela sustentará nosso estilo de vida exagerado e desnecessário.

O mundo está mudando rápido. Queremos com todas as forças acreditar que as coisas podem ser diferentes, que ainda há tempo. Mas ao ver aquele pobre líder indígena ser arrancado de cima da árvore pela polícia, um pequeno incômodo removido para podermos curtir mais o novo Maracanã e a copa, o único sentimento que resta é o nojo. Nojo e remorso.

E às gerações futuras, devemos desde já pedir desculpas. E esperar que, quando eles assumirem o mundo cheio de Shopping Centers, Outlets e Estádios de futebol, que vamos deixar de presente, ainda tenha restado alguma coisa boa ou decente nessa Terra pela qual lutar.

Até lá, precisamos continuar lutando. Tentando fazer diferente. Tentando fazer melhor. Que escolha temos?

Notas sobre Cuba

 

Estive em Cuba no começo de 2012. Gostaria de dizer que morei lá por alguns meses, que viajei na caçamba de velhos caminhões soviéticos, transportando cana pelo interior de Cuba enquanto conversava com camponeses ainda mais velhos e queimados de sol a respeito de Batista, Castro e a revolução. Certamente seria mais romântico, mas acontece que fui a Cuba como turista mesmo, esticando uma semaninha em Havana e depois visitando uma ou duas praias do Caribe, porque ninguém é de ferro.

Só uma pessoa que já foi para Cuba entende como isso basta para torcer seu cérebro como se torce um pano de chão usado num tanque de lavar roupa.

Não há experiência frívola em Cuba. Mesmo se você tentar se internar em um resort All Included, descendo no aeroporto de Varadero e fugindo direto para ele na hora de ir embora (o que, acreditem, muita gente faz), não há como se esquivar da realidade brutal e absurda que se arremessa na nossa cara assim que pisamos naquela ilha verde e bonita: Não sabemos nada. Somos muito mimados. O simples fato de termos dinheiro para chegar lá e curtir uns dias de férias já denuncia nossa completa ignorância da realidade do mundo, que em Cuba (diferente da maioria de nossos destinos turísticos habituais) não pode ser isolada em alguma periferia, ou escondida atrás de um muro. Bem que tentam.

Geralmente, quando viajamos, tentamos puxar assunto com os taxistas, com as pessoas que nos atendem nos restaurantes. Puxamos conversa, tentamos saber o que eles pensam do prefeito da cidade, sobre como é viver por lá, qual a ultima novidade. Em Cuba, são os locais que vêm falar conosco. O tempo todo. Em dois dias lá, ao menos que você tape os ouvidos e saia correndo cantarolando toda vez que um cubano te abordar, você já terá ouvido umas cinco histórias de vida diferentes, que te deixarão emocionado, bravo, invejoso, compadecido, tudo ao mesmo tempo. Ainda tenho cravado na minha memória o rosto de todos aqueles com quem eu falei ao longo de minha estadia, e tenho certeza de que todo mundo que visitou esse lugar tem os seus.

Claro que cada pessoa tem uma convicção política, um histórico de vida, e processará a experiência de uma forma distinta. Dividi o processo, como foi comigo, em três tópicos, “Choque”, “Reflexão” e “Conclusão”. O ultimo tópico foi nomeado de forma reconhecidamente falaciosa: aviso desde já que não há conclusão definitiva sobre esse assunto tão complicado.

1.    O CHOQUE

Cuba é uma ditadura. Não há como negar isso, e qualquer pessoa que disser o contrário, nunca foi pra lá.

O cubano não pode falar com o turista por muito tempo, ao menos que seu trabalho exija isso. Se uma conversa durar demais, logo o cidadão é abordado por uma autoridade policial, que manda ele “dispersar”. Conversas corriqueiras na rua então, nem pensar. Conhecemos um casal de cubanos em “Paseo del Prado” e conversando com eles, nos sentimos como se estivéssemos comprando drogas ou algo do tipo.

O cubano não pode usar internet, ao menos que seu trabalho exija isso. Cubanos que possuem amigos ou família fora, geralmente usam colegas que trabalham com internet para manter contato. Conhecemos um cubano, que trabalhava na “Heladeria Copélia”, a famosa sorveteria de “Vedado”, que mandava recados para a namorada americana por meio de um amigo que trabalhava com comércio exterior.

O cubano não pode vender seu carro ou casa. Ou mesmo trocar com outra pessoa. Cada bem é fruto de uma distribuição feita pelo estado ainda na época da revolução. Hoje isso começou a ser flexibilizado por Raul Castro, com severas restrições.

O cubano não pode viajar. O governo de Raul está começando a flexibilizar essa regra também, mas na prática ainda não existe turista cubano indo pra fora. Mesmo dentro da própria ilha, existem praias e regiões restritas para o cidadão, onde só podem ir turistas.

Varadero. Exclusiva para turistas.

Um cubano que perca o emprego, não pode simplesmente pleitear um novo emprego em outro lugar. Ele precisa entrar em uma fila. Conhecemos um taxista em nossa viagem através de “Matanzas”, que era chefe de cozinha e perdeu o emprego quando o restaurante onde ele trabalhava fechou. Foi designado pelo governo para atuar como taxista enquanto aguarda em uma fila, para voltar a exercer sua vocação quando chegar a vez dele. A previsão é de cinco anos ou mais.

Cuba é incrivelmente pobre.

O crescimento do turismo nos últimos dez anos criou uma situação ridiculamente chocante e absurda, que será certamente uma das primeiras coisas a ser notadas por turistas que se aventurarem por lá: Duas moedas. Dois pesos e duas medidas. O peso turístico está em paridade com o dólar, enquanto o peso cubano (acessível apenas ao cidadão ou no mercado negro) é muito menos valioso. O que é uma medida até interessante para manter mais dinheiro dentro do país, acaba tendo conseqüências bizarras, já que uma coca cola e um sanduíche em qualquer barzinho de Cuba, comprado por um turista, pagaria mais de um mês de salário de qualquer trabalhador cubano. O turista se torna automaticamente um milionário, uma árvore de dinheiro. Como conter a prostituição nesse país, sendo que duas noites que uma menina cubana passe com um turista paga um ano inteiro de salário dela? Como reverter a realidade bizarra em que uma faxineira de banheiro de bar, que ganha algumas moedas por noite de turistas embriagados, fecha o mês ganhando mais dinheiro do que um médico ou engenheiro?

Havana é linda e fotogênica. Mas está caindo aos pedaços. Mesmo. Vários prédios estão bloqueados por “Perigo de Derrumbe” e vários deveriam estar. Os prédios decadentes de Havana saem lindos nas fotos, mas certamente não são bons lugares para se viver.

As pessoas não passam fome, mas comem muito pouco. Os cupons-alimentação que recebem do governo não são o bastante, dependendo do tamanho da família, e não é raro ser abordado por um cidadão no meio da rua, pedindo uma caixa de leite. Saímos para jantar com aquele casal que conhecemos em “Paseo del Prado” (claro que pagamos a conta), e vimos com os próprios olhos eles apenas beliscarem a comida, guardando mais da metade para levar para os filhos em casa.

Nunca me esquecerei da noite em que eu e minha esposa conhecemos o porteiro do prédio onde estávamos hospedados (uma amável casa de família). Fascinado pelo Brasil, nosso novo amigo era fluente em português e outras duas línguas (algo bem comum por lá). O padrinho de seu filho era Brasileiro e o sonho dele era visitar nosso país, mas ele deixou claro, com todas as letras, que jamais iria realizar o sonho do filho. Estavam presos na ilha. Quando nos despedimos dele e entramos no elevador, olhamos um nos olhos do outro e choramos. Choramos por uns 15 minutos.

Viajar para Cuba, se você mantiver seus olhos abertos e não for um completo idiota, é pesado. E naquele momento, acho que o peso de tudo o que recebemos ao longo dos últimos dias bateu mais forte do que nunca.

2.    A REFLEXÃO

No que concerne quase tudo na vida, o primeiro contato com uma realidade nova muitas vezes não acompanha uma subseqüente reflexão. A velocidade com que as coisas acontecem geralmente faz com que nos agarremos à primeira impressão, e possamos virar a página para o próximo assunto. Normalmente, a primeira impressão é a que fica.

Não quando o assunto é Cuba.

Não podemos deixar isso acontecer nesse caso, simplesmente porque a reflexão que essa pequena ilha caribenha nos instiga, é uma reflexão muito maior, que atinge diversos aspectos de nossa sociedade e da própria raça humana. Sem exageros.

Ao menos que você tenha descoberto algum pacote secreto da CVC para a Coréia do Norte, ou então uma máquina do tempo que te leve de volta para a Russia Stalinista, visitar Cuba pode ser sua ultima chance de conhecer um lugar no mundo que não foi contaminado, ou convertido – para usar uma palavra mais leve – por uma forma ou outra de corporativismo. Que ninguém venha falar da China, com seu totalitarismo de estado ultra-capitalista (que talvez reúna o pior dos dois mundos).

Tentar enxergar além do óbvio (os cubanos tem pouca liberdade e vivem em um estado de pobreza) é mais do que desenvolver uma opinião inusitada sobre um destino exótico para as próximas férias. É iniciar uma reflexão essencial sobre o que deveríamos manter em nossa sociedade atual, e o que deveríamos destruir. Basicamente: o que podemos aprender com uma sociedade que se organizou de uma forma completamente diferente da nossa?

Quem lê apenas a primeira parte do meu texto e depois desiste (porque ele é muito longo, eu sei…eu sei…) certamente fica achando que, além de ser um inferno, Cuba é um péssimo destino turístico, já que deixa seus visitantes chocados e deprimidos com uma realidade cruel e esmagadora. Nada poderia ser mais distante da verdade.

Cuba é um lugar lindo, abençoado com uma beleza além da conta, e a despeito de todas as dificuldades que tem que enfrentar no dia a dia, poucas vezes vi um povo tão feliz quanto o cubano.

Apesar de ganhar pouco, todo cubano tem trabalho, que, aliás, executa apenas algumas vezes por semana, tendo mensalmente tantos dias de folga quanto dias úteis (o que torna a idéia de ‘fim de semana’ comicamente abstrata para muita gente com quem conversei, e descansa dia sim, dia não).

Apesar de comer pouco, todo cubano come. Apesar de morar mal, todo cubano tem casa.

Todo cubano fala pelo menos duas línguas, a maioria fala três. Todo cubano tem acesso à medicina de qualidade, e remédios gratuitos.

As cinco em ponto, todos os dias, o “Malecón” de Havana se enche de cubanos jogando conversa fora e dando risada, enrolando duas horas com seu copinho de rum a tiracolo (porque não tem muito) e tocando algum instrumento.

Cubanos descansam ao entardecer no Malecón

Cubanos descansam ao entardecer no Malecón

Ainda que esse mesmo cubano alegre e sorridente tenha críticas ferrenhas a fazer contra Fidel Castro, assim que se sentir seguro o bastante com você para desabafar a respeito, ele está lá, vivendo a vida, enquanto a imensa massa de gente pobre de nosso ultra-capitalismo está apenas começando uma jornada de 3 horas de baldeações entre ônibus e metrô, para chegar em casa, na periferia da periferia.

Entendem onde eu quero chegar?

Vivemos inevitavelmente presos em nossos próprios parâmetros – nossas referências iniciais – e é muito difícil para a elite brasileira, da qual TODOS NÓS fazemos parte (se você está lendo esse texto 99% de chance de se incluir nesse grupo) enxergar a dura realidade na qual a esmagadora maioria do mundo se encontra. Por trás das lentes de nossas câmeras semi-profissionais da Canon, fotografando as ruas belas e decadentes de Havana (para depois poder contar em alguma mesa de bar na Vila Madalena, pagando 8 reais em um chope, que visitamos um lugar exótico nas ultimas férias), certamente Cuba  parece um lugar ridiculamente precário.

As casas estão desabando? É verdade.

A discrepância monetária entre o peso cubano e o peso turístico gera um abismo bizarro entre o turista e o morador? É verdade.

O cubano comum não pode viajar livremente como turista, e está de certa forma preso dentro do seu próprio país? Ainda é verdade pra quase todo mundo…

Mas antes que comecemos a dissertar sobre as vantagens da democracia maravilhosa na qual nós, civilizados, vivemos, eu peço licença para perguntar:

Você já pensou em passar suas próximas férias em uma favela brasileira? Ou em uma comunidade de garimpeiros no norte de Minas Gerais?

Já visitou a casa da sua faxineira?

Já parou pra comparar o seu poder de consumo com o do gari que limpou a sua rua as 3 da manhã de ontem, no frio, enquanto você dormia enroladinho no seu edredom? Sabe quantas refeições ele pula por mês para economizar dinheiro?

Já perguntou pra um empacotador do Pão de Açúcar se ele tem alguma esperança de um dia viajar pra fora do país?

Antes de ficar chocado e emocionado com o discurso do médico Cubano no plenário, essa semana, sobre as péssimas condições de vida dos médicos que trabalham em Cuba; já se perguntou o quão chocantes seriam as realidades e depoimentos se oferecêssemos a mesma voz aos milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, mesmo depois de todos os bolsas famílias e “milagres econômicos” dos últimos anos?

Somos mimados. Mimados e incapazes de enxergar a realidade da imensa maioria de nossos próprios conterrâneos. Olhamos com pena para o cidadão cubano e somos ao mesmo tempo incapazes de encarar o morador de rua embaixo da ponte por quem passamos na volta pra casa.

Tomemos por exemplo as centenas de populações ribeirinhas que moram no interior da Floresta Amazônica: Vivem sem energia elétrica, sem hospital e sem escola a menos de um dia inteiro de barco. Tomam banho na mesma água onde jogam suas fezes. Sobrevivem com menos de um real por dia. Nascem, crescem e morrem anônimos à nossas vidas protegidas.

Favela ribeirinha brasileira

O que pensariam essas pessoas, assim como os milhares de moradores de rua, os centenas de milhares de favelados, e quer saber? Os milhões de trabalhadores de classe baixa de nosso país, se lhes fosse oferecida a oportunidade de viver em um lugar onde saúde e educação publica funcionam? Onde eles teriam comida e moradia garantidas pelo estado? Mais de duas vezes mais tempo livre, pra passar com suas famílias e seus amigos, em vez de presos em uma lotação entupida de gente?

Fala-se muito da truculência do estado cubano em relação à sua população. Mas alguém que adora falar sobre isso, já visitou uma batida do Bope ou da Rota em um morro? Já testemunhou uma chacina da PM em algum bairro de periferia?

Será que o mesmo cubano que nos vê, bem vestidos e cheios da grana, fotografando seu bairro decadente, invejaria tanto assim nosso estilo de vida se soubesse que sua maior chance (estatisticamente) caso tivesse nascido no Brasil, seria morar em uma favela?

A grande questão que devemos levantar, meus amigos, não é se trocaríamos a nossa vida confortável e privilegiada, pela vida do cubano pobre.

A questão que devemos levantar é: Se vivêssemos como a imensa maioria da população do Brasil (e do mundo) vive, não preferiríamos viver em Cuba?

3.    CONCLUSÂO

 Indo e vindo nessa reflexão complicada a respeito de tudo o que vi quando viajei para Cuba, fiquei empacado nesse texto por quase dois anos. Ainda não possuo todas as respostas, mas escrevi mesmo assim, para instigar um pouco mais de reflexão para aqueles que acham que as possuem.

Não vou nem entrar no mérito de quanto da pobreza cubana (e da truculência do estado) não é uma conseqüência direta do embargo americano, e ao programa de incentivo à dissidência que eles promovem em Miami. Não vou morder a isca fácil de tornar essa reflexão um texto anti-americano, até porque o embargo está chegando ao fim e as relações diplomáticas estão sendo finalmente reestabelecidas.

A verdade é que, politicamente falando, sempre tentamos assumir um lado, o da direita ou a da esquerda. E se somos moderados, logo somos taxados de “em cima do muro”, “alienados”. Estamos sempre buscando uma camisa para vestir.

Visitar Cuba é de certa forma, partir um coração idealista: Não existem utopias.

Voltar de Cuba e encarar com realismo esse lado do mundo é igualmente assombroso: Vivemos em direção a uma distopia.

O preço que pagamos para nossa vida confortável é alto demais. O alto salário que certos cargos garantem em nosso país, só consegue ser tão alto à custa de uma imensa massa que vive uma vida miserável, trabalha muito e ganha pouco, vive mal, come mal, não tem acesso a nada. Essa é a realidade que ignoramos todos os dias, para nossa vida não virar um inferno de culpa.

Nossa democracia e sistema de eleições parece livre, mas na verdade foi a muito tempo assimilado pelas grandes empresas, que com patrocínio à campanhas e lobby se apoderaram da agenda política dos governantes que escolhemos. O liberalismo morreu, foi substituído por um corporativismo canceroso.

Nossos recursos naturais estão se esgotando, as massas miseráveis estão se multiplicando, e nosso sistema continua se baseando em uma máxima irrealista de crescimento indeterminado, em um sistema isolado (o planeta Terra) cujos recursos são mortalmente limitados.

O sistema onde crescemos nos ensinou que é um absurdo querermos comprar banana no supermercado, e só ter maçã. Que é absurdo ter alguém limitando o quanto podemos crescer na carreira, o quanto podemos ganhar, quantos bens podemos acumular.

Vivemos em um sistema que nos ensinou a não olhar nem pra trás (para os milhões de pobres que deixamos no caminho, para os recursos não-renováveis que consumimos) e nem para frente (para a realidade horrível que estamos construindo para nossos netos). Estamos distraídos demais usufruindo de nossa liberdade de consumir e aproveitar a vida.

Incômoda favela crescendo e estragando a vista do morro.

“Incômoda favela crescendo e estragando a vista do morro.”

Certamente Cuba não possui as respostas, e certamente é cheia de defeitos. Defeitos horríveis que eu não faço reservas (como esse texto mostra) na hora de levantar.

Mas devemos ter em mente, também, que o sistema instituído por Fidel Castro há décadas atrás não tem mais do que alguns anos de vida, e antes que ele desapareça de vez, devemos dedicar algum tempo a refletir sobre ele.

Devemos pensar o quanto não estamos a nossa maneira, vivendo em um tipo de ditadura também. Uma ditadura do capital. Que só não nos incomoda tanto (ainda que eu veja cada vez mais e mais amigos deprimidos com seus trabalhos) porque demos a sorte de nascer na posição privilegiada da pirâmide.

Devemos pensar o quanto não podemos aprender – como espécie – na hora de compartilhar um pouco o que temos, em vez de simplesmente fechar os olhos à realidade horrível que nos cerca e cresce ao nosso redor. E quem sabe não reclamar tanto na hora que lançarem o próximo programa social, ou tentarem instaurar um sistema de tributação pesado sobre riqueza extrema (algo que aliás muitas potências capitalistas, como a Alemanha, instituíram a anos).

Devemos ter cuidado na hora de falar de Cuba, porque nem tudo é o que parece. Nem tudo é tão preto no branco. Um pouco menos de corporativismo, e um pouco mais de consciência social que Cuba acabou desenvolvendo na marra, poderia sim fazer muito bem para nosso Brasil tão reacionário e duro com sua população pobre, que ainda é maioria absoluta.

Às vezes é melhor continuar se questionando do que estacionar na primeira resposta.

Desafiando o Status Quo

Tenho ouvido muita gente, de muitas formas diferentes, dizer que as manifestações favoráveis à permanência de Dilma na presidência (consequentemente, em oposição aos defensores do impeachment) estão defendendo a manutenção das coisas como elas estão. E que, com tanta coisa errada no país, não faz sentido “defender o status quo”.

Pensei bastante sobre isso e achei pertinente escrever esse texto, porque eu acho que tem rolado muita confusão nos últimos tempos sobre o que vem a ser esse “status quo” atual, e contra quem lutar no momento em que vamos pra rua levantar uma placa.

Como de costume, não estou aqui para dizer pra ninguém contra quem lutar, ou que posição assumir. Mas também não sou demagogo, não esconderei minhas preferências pessoais, e acima de tudo gostaria de propor uma reflexão essencial:

O que exatamente é “estar no poder”?

É possuir a cadeira da presidência? É representatividade de cadeiras no congresso? Barak Obama teve como promessa de campanha acabar com as guerras no oriente médio e fechar Guantánamo, e não fez nenhuma dessas duas coisas. É necessário compreender que “estar no poder” é muito mais do que ganhar as eleições, na verdade esse é apenas o primeiro passo de uma luta muito maior em busca da governabilidade.

Hoje em dia essa luta envolve principalmente conquistar apoio interno o suficiente para superar a sempre presente oposição, é manter-se fiel aos compromissos estabelecidos com as empresas privadas que sustentam seu partido e suas campanhas e ao mesmo tempo ser fiel às promessas feitas ao povo que te elegeu.

Disso se conclui que o “status quo” não é um cargo político (no caso, o de presidente) e sim toda uma trama de poderes estabelecida, que de forma simplificada, é formada pelos seguintes elementos abaixo (abrirei pequenos parênteses após cada um deles, para comentar algumas coisas):

1 – Os imensos grupos corporativos que financiam campanhas e monopolizam meios de comunicação e licitações públicas no geral, entre eles o Grupo EBX (do nosso querido Eike Batista), o Grupo Globo, o Grupo Abril, o Grupo Estado, a Odebretch, a Monsanto, MRV, Grupo Brookfield e os bancos Itaú Unibanco, Santander, Safra e outros.

Existem leis no Brasil que teoricamente impediriam a formação de certos grupos financeiros, justamente para limitar o poder de monopólio que eles podem exercer. Uma dessas leis prevê que nenhum grupo midiático pode possuir mais do que X canais de televisão, Y publicações impressas, etc. A concentração midiática atual já opera de forma totalmente irregular, porém essa mesma irregularidade garantiu aos proprietários dessas mídias poder o suficiente para impedir uma eventual mudança. Manter seu “status quo”.

Esse mesmo domínio sobre o “status Quo” é o que permitiu que a Eletronorte, principal responsável pelas obras da Usina de Belo Monte, fosse a autora dos estudos de viabilidade ambiental da própria usina. É o mesmo que permite que a Editora Abril seja a fornecedora EXCLUSIVA de revistas para todas as repartições e escolas públicas do país sem nunca ter participado de uma única licitação, entre outros imensos absurdos que certamente só fazem aumentar o já imenso poder que elas detém.

2 – As famílias que estabeleceram verdadeiras oligarquias em certas regiões do Brasil, grupo composto não apenas pelas célebres famílias coronelistas como a Calheiros mas também família Marinho, família Moreira Salles, família Lemann, etc. Essas famílias controlam um patrimônio tão gigantesco, e possuem sob suas “asas” uma rede de empresas e negócios tão complexa com o governo, que fazer oposição a elas é suicídio político.

As cinco mil famílias mais ricas do Brasil possuem um patrimônio equivalente a 40% do PIB do país. Em números de 2010, equivale a R$ 1,65

TRILHÕES de reais. É uma média de R$ 294 milhões por família.

Existe um projeto da deputada Jandira Feghali, do PC do B do Rio de Janeiro, para instituir de uma vez um imposto sobre grandes riquezas no Brasil, algo que já existe em praticamente toda a Europa (as nações mais poderosas, como Alemanha e França, instituíram esse imposto a muito tempo). Foi encampada como bandeira pela CUT (segundo meu amigo, esses ‘defensores do status quo’) e apresentada à Dilma Rousseff.

O texto prevê a criação de nove faixas de riqueza em que os contribuintes ficariam obrigados a pagar esta contribuição. Só paga quem tiver patrimônio acima de R$ 4 milhões. Começa pagando anualmente 0,4% sobre o patrimônio, vai subindo até 2,1% para fortunas de R$ 150 milhões ou mais. De toda a população brasileira, aproximadamente 800 contribuintes atingiriam essa faixa.

Alguma chance desse projeto ir pra frente? Muito improvável. Por que? Por causa do “status quo”.

3 – Os diversos grupos políticos já estabelecidos no poder, que fazem constante lobby  e impedem que um presidente possua livre governabilidade. Entre eles podemos citar a famosa “Bancada Ruralista”, que força goela abaixo do presidente diversas medidas para reduzir a rigidez nos controles ambientais, conseguiu reduzir a área de proteção de margens de rios no ano passado e todos os dias tenta tornar nosso código ambiental mais e mais brando. Podemos citar a “Bancada Evangélica”, que ganha mais poder a cada dia que passa e se concentra prioritariamente em medidas que desafiam a natureza laica do estado brasileiro. Podemos citar DEM e o PMDB, que possuem como modus operandi troca de favores por apoio político, são verdadeiros “seqüestradores de governabilidade”, entre muitos outros.

TODOS ESSES ACIMA CITADOS FORMAM O QUE A MAIORIA DAS PESSOAS CHAMA DE STATUS QUO, E COSTUMA ATRIBUIR EXCLUSIVAMENTE AO PARTIDO COM A CADEIRA DA PRESIDÊNCIA.

Dentro desse panorama que eu estabeleci (e submeto a questionamento) falar que uma passeata a favor da permanência da presidente atual é uma passeata a favor do status quo, não poderia ser falácia maior.

A rede de poderes que se formou para REALMENTE governar nosso país transcende em muito os cargos políticos. Na verdade, políticos de “esquerda” e de “direita” hoje se alternam no poder para atender aos interesses desses mesmos grupos. PT e PSDB possuem os mesmos patrões, e te garanto que esses patrões NÃO SÃO O POVO.

Uma passeata que apresenta apoio à Dilma hoje não faz isso por estar plenamente de acordo com o governo atual, o faz com a simples intenção de proteger a democracia, pois a remoção de um estadista democraticamente eleito nessa altura do campeonato representaria a derrocada do próprio processo democrático, e sua submissão completa aos reais detentores do poder (relacionados nos parágrafos anteriores).

Nietzsche já estabeleceu como principal ideal do ser humano a “vontade do poder”, e todo o jogo político (que ocorre as vezes à luz do dia, as vezes por baixo dos panos) é na verdade um grande jogo de xadrez de poder, muito mais complexo do que quem ocupa a cadeira da presidente.

Escolhemos nossas posições políticas baseados naquilo que acreditamos fazer mais sentido, e escolhemos os nossos candidatos tentando dar ferramentas às pessoas que acreditamos ser mais capazes de apontar o leme de nossa sociedade um “pouquinho” mais pro lado que consideramos correto.

Ao contrário do que muita gente pensa, “socialismo” não é uma doutrina oposta ao capitalismo. Ambas são irmãs gêmeas. Nasceram na mesma época, e tem sofrido constante simbiose mútua desde o principio dos tempos. Se hoje você trabalha apenas 8 horas por dia (e recebe hora extra quando passa disso), se tem direito a férias, ou fundo de garantia, ou seguro desemprego, é porque algum “esquerdinha sindicalista” conquistou isso pra você.

Nenhum esquerdista em sã consciência realmente acredita que votando no PSTU vai conseguir instituir um governo socialista aos moldes da União Soviética de décadas atrás. Mas muita gente vota nesses caras, no PSOL, no PCdoB e SIM, ainda no PT, por acreditar que, a despeito de todo esse STATUS QUO estabelecido lá em cima, esses partidos possuem uma inclinação maior a investir em políticas sociais, a adotar medidas mais liberais e progressistas em assuntos relacionados a drogas e religião de uma forma geral, a enfrentar um pouco mais o capital privado no momento de legislar a respeito de meio ambiente, leis trabalhistas, etc etc

A crise financeira nos EUA e na Europa se deu por causa do liberalismo descontrolado e sem regulação estatal. A operação Condor que matou e massacrou na América Latina inteira e instituiu diversas ditaduras ocorreu por apoio de empresas privadas no Brasil e nos EUA. A gente tomou borrachada da polícia nas manifestações de Junho de 2013 porque enfrentamos o poder vigente da máfia dos transportes públicos de São Paulo.

Temos recebido constantes evidências de que o capital descontrolado é essencialmente nocivo para a imensa maioria da população, e que quando esse capital descontrolado recebe o amém do estado ele se torna algo ainda mais destrutivo e perigoso. Temos recebido constantes evidências de que a negligência acumulada de décadas de nossos governos em relação à políticas sociais, educação e saúde pública de qualidade só fizeram aumentar a violência nas ruas, e a longo prazo,  atrasar o desenvolvimento do país.

O principal poder estabelecido hoje no Brasil (e no mundo) é o poder do capital privado, em sua simbiose esquizofrênica com o estado. Apresentar oposição aos que enfrentam esse poder (sejam sindicalistas nas ruas ou uma presidenta encurralada em sua cadeira, tentando passar um plebiscito) é que é defender o “status quo”. Apoiar a argumentação de uma mídia completamente dominada por esse capital privado é que é defender o “status quo”.

Sob essa perspectiva, SIM, proteger a presidenta, mesmo discordando diretamente de decisões que ela tomou nos ultimos meses, pode sim ser considerado revolucionário, ou no mínimo, desafiador em relação a estruturas de poder vigente. Muito mais do que uma passeata pedindo seu impeachment, pelo incrível que pareça.

Existe direita no Brasil SIM.

Ela só não se reconhece como direita, porque a palavra “direita”, assim como “conservador” e “reacionário” se transformou (talvez com justiça) em sinônimos de “BICHO PAPÃO” para a maioria dos brasileiros, e ainda somos “mais ou menos” uma democracia, e ninguém consegue governar nada sem ser eleito (ao menos que tenha dado sorte de nascer numa família milionária). Existe direita SIM, e é o pensamento de direita que controla os grandes grupos citados acima e consequentemente, o “status quo”. Ter uma presidente “de esquerda” no governo hoje em dia é uma pedrinha no sapato. Um incômodo que seria interessante remover, mas que (até agora) não fez lá muita diferença. E a maioria dos velhos políticos de esquerda, que até pouco tempo atrás lutavam contra esse poder, acharam melhor se render a ele, entrar no jogo e sobreviver (os Lulas da vida) do que fazer a coisa certa. Uma pena.

Mas não se enganem. Falar contra “esses caras”, só porque eles se venderam TAMBÉM, é indiretamente falar a favor da oposição, que é ainda mais vendida, mais corrupta e mais nociva.

Falar CONTRA os partidos pequenos que estão indo pra rua tentar mostrar a proposta de governo deles é INDIRETAMENTE falar a favor dos partidos grandes, que já estão no poder, e falar a favor das EMPRESAS e FAMÍLIAS que os controlam.

Existem centenas de partidos pequenos de esquerda tentando falar com a população, e só precisam ser ouvidos. O PSTU, o PSOL, todos eles possuem propostas de governo e alguém deveria começar a ouvir o que esses caras falam…

Porque por mais que a gente queira ser “apartidário” na hora de ir pra rua, no fim das contas teremos que votar em alguém no ano que vem.

Ser revolucionário hoje é ir pra rua. E amanhã, será votar em partido pequeno. E ver esse partido perder, mas ganhar força, e continuar indo pra rua, e votando em partido pequeno, de novo, e de novo, para que os partidos grandes cada vez mais, por medo de perder o poder, acabem se dobrando mais à vontade do povo em detrimento das minorias oligárquicas de hoje.

A velha polaridade PT X PSDB, povo X governo, é uma farsa divertida, mas essencialmente uma grande farsa. Enxergar por trás dessa farsa é nosso maior desafio, e hoje a maior urgência de qualquer pessoa que queira realmente transformar o Brasil.