“O QUE VOCÊ FAZ ?”

Se imagine entrando em uma festa formal, onde você não conhece direito ninguém. Logo você se vê participando de uma rodinha, e durante aquele papo introdutório com uma pessoa que parece interessante, você joga aquela perguntinha básica:

– O que você faz?

Se seu interlocutor vive no planeta Terra há pelo menos uns cinco anos, ele entendeu o que você está realmente perguntando: “Qual a tarefa principal que você exerce que te possibilita pagar suas contas?”

Não há nada de errado em você querer genuinamente saber o que a pessoa faz, é um interesse justo. Mas a questão é: O quanto você realmente quer saber sobre a profissão dessa pessoa, e o quanto você fez a pergunta em modo automático, como parte de um “check list padrão” pelo qual medimos as pessoas (e nos deixamos medir) em nossa sociedade?

A verdade é que a pessoa pode não estar trabalhando e se sentir constrangida. Pode odiar o trabalho e não gostar de ser lembrada dele. Pode até achar o trabalho OK e te responder (mas preferia estar falando sobre qualquer outra coisa), ou talvez, apenas talvez, ela pertença àquela categoria privilegiada de pessoas que estão realizadas e vão ficar felizes de falar sobre o assunto (o que não significa que a resposta vai ser necessariamente divertida de ouvir).

Segundo uma pesquisa publicada em 2015 pela Isma Brasil (International Stress Management Association), cerca de 72% das pessoas do país se consideram insatisfeitas com o próprio trabalho. Estatisticamente falando as maiores chances são as de seu novo amigo ser uma delas, e nesse momento estar olhando para o canto, procurando outra rodinha para se infiltrar onde estejam conversando sobre algo mais legal.

Trabalho é uma parte considerável de nossas vidas, ninguém duvida disso. Mas não é tudo. Mesmo se você dedica 45 horas semanais ao seu trabalho, existem outras 123 em que você está fazendo qualquer outra coisa. E mesmo se você subtrair 7 horas por dia de sono, ainda restam 74 horas em que você está acordado. E vivendo.

E fazendo um curso de fotografia, cozinhando algo gostoso, praticando artes marciais, meditando ou brincando com seu cachorro. Planejando sua próxima viagem internacional, plantando em sua horta urbana, lendo seu autor favorito ou quem sabe escrevendo você mesmo seu próprio livro. Explorando suas paixões.

E mesmo se você for um dos poucos afortunados que realmente ama o que faz e acorda cantando toda segunda feira de manhã, tem imensas chances da outra pessoa não ser, e por outro lado ter uma porção de sonhos, idéias, paixões e opiniões que poderia estar compartilhando nessa conversa, e não está.

Work X Life

Apesar de parecer que está por aí desde sempre, o conceito de carreira é relativamente recente na história humana, e a força que ganhou na construção de nossa identidade pessoal é o que causa tanta angústia. Entre frustrações por não obter o tal “sucesso” ou não encontrar o tal emprego dos sonhos, as pessoas sofrem muito no processo de se deixar definir (e definir os outros) por suas profissões, quando podem simplesmente parar de fazer isso.

Da próxima vez que conhecer alguém em uma festa, em vez de perguntar o emprego da pessoa, experimente perguntar o que essa pessoa gosta de fazer para se divertir. O que ela faz em seu tempo livre? Quais são suas paixões?

Você vai pegar a pessoa de surpresa, é claro. Mas tem muito mais chances de desenvolver com ela uma conversa agradável, divertida e não-genérica. Pode descobrir um companheiro para a próxima brassagem de cerveja artesanal ou para a próxima viagem de mergulho. Talvez a pessoa te  fale sobre algum assunto sobre o qual você nunca ouviu falar, talvez até te desperte o interesse sobre algo que você não conhecia.

E talvez … apenas talvez..a pessoa fale sobre o próprio emprego.

A sociedade é pesada, e as expectativas que colocamos sobre nós mesmos, e sobre os outros, acabam deixando tudo ainda mais dificil. As vezes, o primeiro passo para mudar isso, para aliviar um pouco essa pressão, é simplesmente dar-se conta, e não ajudar a alimentar os clichês que acabam nos incomodando depois.

MAIS SOBRE O ASSUNTO:

http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2015/04/72-das-pessoas-estao-insatisfeitas-com-o-trabalho-aponta-pesquisa.html

A OPRESSÃO DO TRABALHO DOS SONHOS

Imagine que em algum momento de sua vida alguém te deu um mapa do tesouro. Você passou anos e mais anos seguindo esse mapa, e quando finalmente chegou no local do “X”, não encontrou tesouro nenhum.

Frustrado você se pergunta: Será que você não seguiu o mapa corretamente? Será que dormiu no ponto e alguém desenterrou o tesouro antes? Talvez. Mas seria recomendável também você se questionar se o mapa que te deram não era falso, ou se o tal tesouro existe mesmo, pra começo de conversa.

Na contramão das centenas de textos por aí incentivando as pessoas a fazer mais, sonhar mais, não se conformar com pouco, gostaria de fazer uma sugestão: Especificamente no quesito “profissão”, cuidado com esse negócio de “procurar o trabalho dos sonhos”.

Convidar uma pessoa a sonhar menos, nos dias de hoje, especialmente quando depois de tantas décadas de desilusão as pessoas finalmente voltaram a sonhar (aleluia) pode soar como um pecado mortal, mas eu peço sua paciência e sua atenção por mais alguns parágrafos: Prometo que vou explicar.

O velho (e meio tedioso) sonho yuppie da década de 80, do sucesso profissional, a gorda conta bancária, o carro importado e o apartamento ostensivo no bairro nobre, era uma mercadoria. Um pacote completo, que foi razoávelmente adotado como ideal por toda uma geração (a despeito daqueles espiritos livres que sempre destoam aqui e ali).

Esse “pacote do sucesso” das gerações passadas ainda significa “ser bem sucedido” para muita gente, mas temos visto, com o advento da informação (e das redes sociais), o nascimento de um “ideal alternativo”. Hoje as pessoas buscam liberdade plena, o trabalho com um sentido profundo e transformador, que propicie intensas experiências e a chance de mudar o mundo. Todo mundo está falando disso agora.

Acredito que, como eu, muita gente se sentiu fascinado pelo surgimento desse novo contexto, e por tantos sonhadores aflorarem aqui e ali, apresentando suas revoluções pessoais e nos convidando a fazer o mesmo. Vivemos em um mundo em convulsão evolutiva, um mundo de primaveras árabes e ocupações em Wall Street, cooperativas agrícolas, mídia independente, pessoas se demitindo de empregos enfadonhos e viajando pelo planeta. Um mundo onde um escritor pode publicar seu livro sem depender de uma editora, um musico pode jogar sua música na rede sem depender de uma gravadora. Não existe apenas uma maneira de se viver a vida, as coisas nunca mais serão como antes.

O mundo de hoje é muito mais interessante de se viver, muito mais rico, do que o universo yuppie de ontem, onde a grande perspectiva era se matar de trabalhar e ser melhor que os outros por 30 anos para finalmente conseguir conquistar uma boa vida na aposentadoria.

Mas devemos estar atentos a uma coisa, em meio a toda essa energia: Esse novo mundo, de sonhos e quebra de paradigmas, também é bem angustiante – e opressor – à sua maneira. E pode estar tentando te vender apenas uma “nova versão do pacote completo”.

Não se demitir do seu emprego chato no banco e perseguir algo que te faça acordar sorrindo todos os dias, quando tem gente fazendo isso lá fora (e de alguma forma conseguindo pagar as próprias contas), virou um atestado de resignação. Virou um sinal de alarme constantemente ligado, nos dizendo que nossas vidas são enfadonhas, que não estamos fazendo o suficiente, que somos acomodados ou o que seja.

Uma voz interior segue sussurrando em nossos ouvidos que devemos encontrar nosso “emprego dos sonhos” e que, no momento em que “encontrarmos essa coisa que amamos fazer, nunca mais precisaremos trabalhar de novo”.

Deixei essa voz me incomodar por algum tempo, até me dar conta: Essa voz, esse eco constante das redes sociais, dos blogs, das iniciativas lindas que existem por aí (e ainda bem que elas existem), é o mapa falso, para o tesouro falso, que nossa geração de sonhadores ganhou.

Veja bem: Se eu tiver que escolher entre uma voz idealista, que quer encontrar satisfação plena em seu trabalho e ainda pagar as contas com isso, ou a velha voz cínica e individualista de antes, escolho o novo sem nem hesitar. Precisamos urgente de um mundo com mais gente feliz. Precisamos de iniciativas novas, visões novas e pessoas mais focadas em “ser” do que em “ter”. Mas também precisamos às vezes parar, respirar, e pegar leve.

Desconfie de todo mundo que chega falando que “você tem que…” alguma coisa. Você não tem que fazer nada. A vida é ampla e misteriosa, e essa é sua beleza. É extremamente perigoso, no processo de tentar se libertar daquela visão antiga e opressiva do que era o sucesso profissional, a pessoa acabar comprando o sonho de terceiros. Um novo “pacote completo” igualmente inatingível.

Mesmo se você refletir bastante e estiver certo de que suas escolhas são suas, e apenas suas: Calma. Não transforme sua emancipação em uma ferramenta de auto-martírio.

O caminho para ser feliz não é – simplesmente não pode ser – substituir uma meta quase impossível por outra. O sentimento de frustração no fim do dia será o mesmo se você não conseguir aquele cargo na diretoria e aquele milhão antes dos 30, ou se você não conseguir pagar as contas viajando o mundo, sem patrão ou carteira assinada.

A foto no Facebook do cara que abriu uma start-up e está trabalhando de um resort na Tailândia, virou a nova “Ferrari na garagem do vizinho” para a nossa geração, mas é essencialmente a mesma coisa.

Working-Remotely

Na sessão de Auto-Ajuda das livrarias, a prateleira onde existem livros te ensinando “técnicas para ser um executivo de sucesso” é a mesma que abriga livros te dizendo que você pode conseguir o que quiser se depositar energia o suficiente para isso. E em uma outra prateleira na mesma sessão estão os livros te ajudando a lidar com o fracasso e a frustração de ser quem você é (quando não conseguir alcançar aquele sonho vendido logo ao lado). Existe alguma coisa muito errada com esse sistema.

Podemos assumir como fato que, da mesma maneira que a maioria das pessoas do mundo simplesmente não vai conseguir ser presidente de empresa ou empresário de sucesso, a maioria das pessoas do mundo nunca conseguirá pagar as contas fazendo o que mais ama, e com isso “nunca mais precisando trabalhar na vida”. Ou estamos assumindo que a imensa maioria das pessoas do mundo está condenada a uma vida de resignação e infelicidade, ou precisamos assumir algum outro ponto de referência sobre o que é sucesso e fracasso, sobre o que molda uma vida feliz e com significado.

Esse texto não é um ode ao conformismo, não está sugerindo que você desista de encontrar um emprego que te preencha, que tenha significado e te faça feliz. O que eu estou sugerindo é que você busque a felicidade, busque tornar o mundo um lugar melhor, busque fazer coisas que você gosta, a despeito do seu emprego.

Se rolar de fazer isso tudo e ainda pagar as contas desse jeito, melhor ainda, claro que é. Mas se não der, lembre-se de que você ainda assim pode criar, pode explorar, pode fazer do mundo um lugar melhor. Lembre-se de pegar leve.

Pegar leve consigo mesmo, e também com os outros ao seu redor.

Entre a pessoa se vender completamente e trabalhar para uma corporação do mau ou largar tudo para perseguir um sonho idealista custe o que custar, existem milhões de estágios intermediários. A profissão dos sonhos, ou a busca por ela, é apenas um dos muitos aspectos que podemos trazer para nossa vida, para esse plano maior que é nossa experiência humana.

Sonhos são inspiradores, são força-motriz, tem o poder de mudar o mundo. Mas no momento em que eles te prendem e te martirizam, eles deixam de ser um sonho. Se transformam em angústia. Daí é hora de você dar um tempo. Respirar e contemplar um pouco a paisagem.  Não importa a pista em que você escolheu correr, a vida é muito mais do que uma linha de chegada.

 

MAIS SOBRE O TEMA:

– Alain de Bolton – TED sobre “Visões de sucesso” : http://www.ted.com/talks/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success?language=pt-br#t-186827

– HAPPY – Documentário sobre felicidade dirigido por Roko Belic – Tem no Netflix, ou para alugar neste link: http://www.thehappymovie.com/

– Leonard Melnow: O Andar do Bêbado

Sobre Steve Jobs, Zeitgeist e Revolução

Nota do autor: A morte de Steve Jobs ter acontecido durante um período tão selvagem de explosões anticapitalistas como o movimento dos Indignados e o Occupy Wall Street sempre me soou no mínimo algo irônico. A diferença da repercussão desses fatos nas pessoas ao meu redor por outro lado nunca soou irônico, apenas um pouco triste.

Faz meses que eu queria ter escrito esse artigo, e é com prazer que agora o submeto a sua avaliação e os convido a discuti-lo comigo. Um grande abraço!

Com o crescimento do Movimento Zeitgeist e também a divulgação do ótimo documentário com mesmo nome, essa é uma palavra que tem sido muito usada, mas cujo significado acredito ser misterioso para a maioria das pessoas. Zeitgeist significa basicamente o “espírito da época”. É o conjunto de pensamentos, opiniões e posicionamentos comuns à maioria dos indivíduos nascidos em certo momento histórico e pertencentes a certo grupo social.

O “espírito da época” é o que determina se a maioria das pessoas de certo espaço-tempo da história acredita em Deus ou em Osíris, ou Zeus, ou Odin. É o que determina se a maioria das pessoas deseja ser um cavaleiro, ou um nobre aristocrata, ou CEO engravatado, ou um herói de guerra. É o que determina se normal é ter preconceito contra gays, ou negros, ou então ser cabeça aberta, vestir uma roupa colorida, praticar sexo livre e colocar flores na ponta de espingardas.

É evidente que não se pode considerar a imensamente complexa raça humana uma grande massa. Pessoas são diferentes, OK. Mas somos invariavelmente produto do nosso ambiente em grande parte de nossa personalidade, e estamos muito mais presos a essas premissas iniciais do que gostaríamos de admitir.

Retomando o paralelo com o evolucionismo de Darwin de meu ultimo texto, podemos assumir que diferentes ambientes favorecem indivíduos com diferentes características. Podemos assumir que um sujeito ponderado e dado à filosofia não iria muito longe durante o período de cruzadas na Europa, nem faria brilhante carreira no exército de Gengis Khan ou Alexandre o Grande. Um sujeito questionador, com dificuldade em obedecer à hierarquia, não teria grande sucesso se nascesse na Alemanha durante o Terceiro Reich ou na Itália Fascista de Mussolini.

Isso nos leva a lançar um olhar critico ao espírito de NOSSA época e aqueles que conseguem melhor “vigorar” nesse contexto. Aqueles que consideramos os “heróis”, ou os “vencedores”.

Nos leva a falar de Steve Jobs.

Quando Steve Jobs morreu uma imensa comoção se deu tanto na mídia e internet, quanto nas mesas de bar e rodas de conversa. Todos estavam extremamente contrariados e tocados com a morte prematura do bilionário workaholic. Ao mesmo tempo, Julian Assange, um brilhante ativista que dedicou sua vida a furar o lobby da grande mídia e levar a verdade incomoda às pessoas estava sendo preso, perseguido e injustiçado, e 99% das pessoas que eu conheço sequer tinham conhecimento do fato, quanto mais uma opinião.

O que deve ser notado em tudo isso é a imensa inversão de valores nos quais nossa sociedade busca suas bases hoje em dia.

Vou ser bem direto nesse próximo ponto: Steve Jobs não era um grande homem. Era sem dúvida um grande empresário. Isso se confunde muito em nossos tempos. Steve Jobs era sim um herói, um herói de uma época onde empatia e humanidade valem menos do que prosperidade econômica. Onde design vale mais do que conteúdo.

O bilionário que descobriu que tinha um câncer em 2004 e passou os últimos anos de sua vida trabalhando 13 horas por dia, repudiava o termo “responsabilidade social” e contratou fornecedores que utilizavam trabalho escravo na China, que negou a paternidade da própria filha por anos, é o herói de nosso tempo. Homens como ele ocupam as capas de páginas como Você SA; Alfa, entre outras revistas. Sujeitos como ele ganham prêmios de “homem do ano”.

Veja bem, meu objetivo aqui não é avacalhar um defunto, muito menos um defunto tão ilustre. Estou plenamente ciente da importância de Jobs na difusão do conhecimento pela internet, até no fato de eu estar escrevendo em um blog nesse exato momento. Estou apenas questionando o modelo de nosso tempo. Questionando o FETICHE que gira em torno desse modelo.

Os grandes exemplos de nossa época poderiam ser grandes pensadores, grandes filósofos, ou grandes cientistas. Enfim. Qualquer coisa. Mas em um mundo regido por capital, invariavelmente nossos homens do ano serão grandes empresários.

Os apartamentos dos Jardins, Leblon, etc., estão lotados de milionários como os citados acima, só que anônimos. Homens que possuem muito mais do que jamais serão capazes de gastar, especialmente porque nunca se permitirão sequer o tempo para isso, ocupados como estão em conseguir mais, e mais, e mais.

E tudo o que você aprendeu desde que era pequeno é que com bastante trabalho e sacrifício pessoal quem sabe um dia você poderá ser um deles.

“Se mate de trabalhar. Seja melhor que todos ao seu redor. Sacrifique mais. Faça sempre mais. Se você fizer bem esse trabalho, conseguirá ocupar um cargo de grandes responsabilidades e vai ganhar um gordo salário todo mês.

Com isso você poderá comprar. E comprar. E comprar. E todos vão olhar para você e morrer de inveja. E nesse momento você terá atingido o nirvana do capitalismo. Será enfim bem-sucedido.”

O que você diria sobre uma pessoa que já comeu tudo o que ela precisa e continua se empanturrando mesmo assim. Comendo, comendo, até que o estomago rompa?

O que você diria sobre uma pessoa que já emagreceu cada grama de gordura do corpo e continua fazendo regime. E tomando remédio. E vomitando?

Ou sobre uma pessoa viciada em plásticas, que já mutilou o próprio rosto e corpo tanto que nem mesmo os pais seriam capazes de reconhecer?

Todos os casos relacionados acima seriam encarados por nossa sociedade como doenças. A patologia do poder e da concentração de riqueza que assola parte de nossa sociedade por outro lado, é vista como uma virtude, simplesmente porque ajuda a roda a girar.

Em um reino de loucos, o mais insano de todos ocupa o trono.

O macho alfa de nossa sociedade, o estereótipo do bem-sucedido onde se marca um alvo e para onde são disparadas nossas crianças desde que elas sentam numa cadeira de escola (algumas até antes) é esse: Um lunático faminto por poder. Não tenho palavras delicadas para definir isso.

Se você está se dando ao trabalho de ler esse artigo até o final eu presumo que você já tenha superado essa idéia simplória de felicidade. Mas até você chegar nesse ponto, quanto de sua energia você teve que dedicar para “desaprender” toda aquela baboseira que anos e anos de televisão e educação massificada enfiaram na sua cabeça? Quantas dificuldades você encara todos os dias simplesmente por tentar enxergar o mundo de outra forma?

Nossa sociedade está doente. Nossos modelos são doentios. E para começar a mudar as coisas, mudar para valer, precisamos antes remover esse carimbo distorcido de nossas cabeças.

Para mudar o mundo, precisamos antes de tudo mudar nossa própria cabeça. Eu falei sobre modelos, mas poderia ter falado sobre hábitos de consumo, sobre crenças e valores, sobre qualquer coisa.

O ponto é que precisamos nos libertar das amarras de pensamento que nos prendem ao ZEITGEIST de nossos pais, das gerações passadas, para então sermos capazes de alçar vôos maiores e criar um NOVO espírito. Criar um novo mundo.

Como eu disse acima, acredito que somos (no mínimo em grande parte) um produto de nosso meio. Só que nosso meio está todo errado, então temos que começar a pensar na quantidade enorme de porcaria que precisamos esvaziar de nosso cérebro antes de começar a criar esse novo mundo.

Parte da humanidade parece ter acordado para o absurdo de nossa condição, mas muitos ainda estão enxugando os olhos, cambaleando pelo quarto, tentando se encontrar. Existe um novo Zeitgeist sendo esculpido…nas cidades do oriente médio, nas ruas de NYC ou Madrid… no Vale do Anhangabaú.

Isso nos leva ao ponto principal desse artigo: A urgência por uma auto-reflexão.

Precisamos nos tornar a mudança que queremos ver no mundo.

É extremamente importante, que antes de você erguer uma bandeira na próxima passeata que for organizada no Facebook em nome de qualquer causa, você se faça o seguinte questionamento: Eu sou mesmo a favor disso? E nesse caso, eu estou vivendo minha vida de acordo com essa causa?

Sejamos bem francos e diretos aqui. Se você realmente acredita em um mundo mais justo, com uma distribuição de renda mais humana, então você NÃO quer ser o Steve Jobs. Você não quer ser nada nem perto dele. Também não quer ser o Bill Gates, nem o Abilio Diniz, nem o Samuel Klein ou o Silvio Santos.

Se você acha que as imensas corporações como a Monsanto são um poder destrutivo no mundo atual, então você NÃO QUER trabalhar em uma.

Se você acha que os fazendeiros de gado estão destruindo a Amazônia e isso te incomoda, não pode falar sobre isso sem no mínimo questionar de onde vem a carne que você come, e o quanto você tem comido dela todos os dias.

Não dá pra criticar o consumismo descontrolado das pessoas trocando o smartphone todo ano, ou babando na idéia de um dia comprar uma Ferrari.

Não dá para vestir a mascara de Anonymous na passeata contra o capitalismo desenfreado, e terno e gravata na segunda para ir trabalhar em um banco.

Não estou sugerindo que as pessoas abandonem seus empregos da noite para o dia e morram de fome, claro que não, apenas que elas confiram um peso um pouco maior para seus ideais na escolha do trabalho futuro.

Sei que é uma critica vulgar e apelativa essa que alguns conservadores dirigem aos recentes levantes contra o capitalismo: Que as passeatas em Wall Street estão cheias de playboys com Iphones e roupas da GAP. Sem duvida, é uma critica leviana. Mas mesmo dessa crítica vazia podemos aferir uma pequena lição: Para mudar o mundo, precisamos começar a rever alguns de nossos valores. Analisar alguns de nossos hábitos e costumes.

Não é algo confortável, eu sei. Nesse ponto estou certo de que muitos leitores devem estar um pouco irritados comigo. Alguns pensando que eu sou extremista, talvez, ou hipócrita.

Já me adianto a esses últimos dizendo o quanto é difícil escrever esse artigo, pois eu também estou cheio de vícios e hábitos errados que estou tentando vencer todos os dias. Parcialmente, estou escrevendo esse texto para mim mesmo também.

Mas algumas coisas precisam ser ditas, soem agradáveis ou não:

Não dá para ser um revolucionário e não mudar absolutamente nada de sua vida no dia a dia. Fazer isso é lutar contra si mesmo.

Não terei aqui a arrogância de dizer aos outros que opinião ter. Não quero te dizer o que acreditar, ou que batalhas lutar. Eu apenas ofereço informação e proponho reflexões.

Só estou sugerindo que ao identificar algo que o sensibilize, uma causa pela qual lutar valha a pena, você procure se aprofundar no assunto. Leia, pesquise. Se contextualize. Liberte-se dos hábitos e opiniões que você não escolheu, mas que foram apresentados a você desde criança. Liberte-se um pouco mais do velho Zeitgeist.

Se torne o modelo daquilo  que você gostaria de ver ao seu redor.

Se necessário faça uma lista. Sim, uma lista no papel, de hábitos e mudanças que você acha que deve provocar em sua vida para se aproximar mais dos ideais que te motivam. Além de uma vida mais feliz, você criará um pequeno núcleo de insurgência, uma pequena explosão de revolução, no interior de seu próprio ser.

Vá para as ruas também. Revolução não se faz só de casa. Mudar os hábitos é lindo, mas o capitalismo neoliberal é uma criatura ardilosa, capaz de se adaptar aos diferentes hábitos das pessoas. Ele sobreviverá. É por isso que cedo ou tarde você terá que ir para as ruas.

Mas quando o fizer, poderá erguer o rosto ao sol e sorrir…

Com vontade…

Com propriedade…

Desperto…

Se você quer ajudar a esculpir um novo mundo, você precisa ter as mãos livres.

Espaços de Diálogo

Tribunal da Inquisição. Festa de fim de ano no escritório. Almoço de domingo na casa da avó. O que essas 3 coisas possuem em comum ?

Muito pouco além de um freio de mão imaginário puxado dentro da sua língua. “Cuidado com o que você vai dizer” – diz o grilo falante dentro da sua cachola – “… essa sua opinião super descolada sobre o casamento gay pode não pegar muito bem, você vai acabar queimando seu filme…”.

Não vivemos exatamente no pior momento histórico para se falar o que pensa, é verdade. Se compararmos o mundo de hoje com uns séculos atrás (universalmente falando, uns minutinhos…), quando questionar a palavra de um padre podia transformar você em torresmo, até que estamos numa boa.

Mas vamos lá…

Segundo o Segundo Levantamento Domiciliar sobre drogas psicotrópicas realizado em 2005 pela Unifesp, cerca de 8.8% da população brasileira fuma ou já fumou maconha*. Uma imensa demanda não encontra atendimento senão no crime organizado, que ganha rios de dinheiro sem pagar um centavo de imposto. A guerra contra o tráfico ganha tons de guerra civil, o uso de drogas entre a população brasileira não cai nem 1% por causa disso, e ainda assim fingimos que legalizar não é uma alternativa e taxamos de maconheiro qualquer um que levante uma bandeira sobre o assunto.

Quase 200 mulheres morrem todo ano no Brasil devido a abortos feitos em condições precárias. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), divulgada em maio de 2010 pela Universidade de Brasília e pelo instituto de pesquisas Anis, uma em cada sete brasileiras entre 18 e 39 anos já realizou pelo menos um aborto na vida. A despeito desses números chatos que ninguém tem paciência pra ler, aceitar discutir uma possível legalização é coisa de carniceiro matador de criancinhas (a Dilma nas ultimas eleições que o diga).

Não acreditar em Deus e falar isso abertamente ainda é considerado por muitos ofensa e desrespeito. Todo mundo sabe que ateu com o mínimo de educação tem mais é que ficar quieto, guardar para si próprio suas (des)crenças pessoais e ouvir caladinho a tia beata dissertar por horas sobre seu versículo favorito e sobre como você vai arder no fogo infernal por ter cochilado na ultima missa…

Não prossigamos mais. Eu nem sequer tenho uma opinião final sobre a maioria desses assuntos (sobre alguns tenho mesmo, mas não é o caso aqui), mas se eu continuar enumerando assim os tabus de nossa geração detalhadamente esse texto vai ficar quilométrico. Deixemos esse espaço livre de polemica por enquanto, temos o bastante reservada para os textos futuros ….

O ponto é que um dia nossa sociedade olhará para essas proibições e tabus com o mesmo asco com que olha hoje para o apartheid, para as burcas das mulheres afegãs ou para a agressão doméstica. Um dia. Hoje, estamos simplesmente presos demais às amarras invisíveis do nosso tempo para sermos capazes de ver nossa própria burrice.

Mas nem tudo está perdido. Lembre-se que ha poucas décadas falar em direitos iguais entre brancos e negros (ou homens e mulheres) por aí era razão o bastante para alguém te dar um tiro. Sorte que muita gente aceitou o risco não é? Mas o que teria acontecido se todo mundo tivesse preferido “deixar pra lá”?

Penso até mais longe. O que teria acontecido se as conversas ao redor de fogueiras de nossos tetra-tetra-tetra avós tivessem abordado apenas amenidades? Se eles tivessem preferido falar sobre o tempo do que questionar por que era errado enfiar uma lança no próximo para roubar a mulher dele ? Não teríamos ido muito longe não é ?

Existe um terrível inimigo a se combater. Ele se chama “respeito à moral e aos bons costumes”. Ele é fruto de uma falácia de raciocínio de uma maioria (historicamente) covarde, que assume que se ignorarmos bastante um problema, talvez ele deixe de existir. É decorrente da noção vergonhosa de que certos assuntos não devem ser discutidos, e certas verdades estabelecidas pelas gerações anteriores não devem ser questionadas.

Esse nosso inimigo é antigo. Ele acompanha a humanidade desde seu início, sob a mascara de padre, ou de homem virtuoso, ou de senhora respeitável. Ele rasteja pelos séculos calando bocas, silenciando pensamentos, maquiando de fantasias a “feiúra orgânica” do que é ser verdadeiramente humano. E imperfeito.

Nietzsche combateu até a morte esse terrível monstro. Ele só ficou louco, até que se deu bem. Martin Luther King, Ghandi, John Lennon, Harvey Milk, Sócrates, Steve Biko, Suzana Chavez e mais tantos (conhecidos ou anônimos) morreram simplesmente por dizer o que precisava ser dito. Esse texto não está pedindo para ninguém virar mártir. Só está pedindo para que você fale.

Não se cale diante da injustiça no mundo, não deixe que nenhum assunto seja tabu. Não importa quão louca seja sua opinião sobre qualquer coisa, ela só vai começar a de fato existir no momento que você a tornar conhecida pelos outros.

E quer saber? Não escolha demais onde vai expor sua opinião. Claro, não vá sair por aí falado sobre o Lula num comício do PSDB, não vá reclamar da violencia policial dentro de uma delegacia. Bom senso é bom e saber a hora e o lugar de se colocar pode determinar a diferença entre arranjar alguma briga feia ou conseguir influenciar o mundo de forma positiva. Mas cuidado para não falar o que você tiver que falar apenas para platéias conhecidamente receptivas. Isso vai te prender em uma bolha.

Se você só falar sobre as atrocidades cometidas pelo estado para sua turminha de amigos anarquistas, e no jantar com sua família só conversar sobre a ultima série engraçada que estreou na Warner, você está condenado a se estagnar…e está condenando sua família a se estagnar também. Falar apenas para pessoas condicionadas a concordar com você e condicionadas também a responder o que você quer ouvir é cometer suicídio filosófico.

Diversifique os espaços de discussão. Provoque esses espaços. Descubra o que seu pai ou sua cunhada pensam do mundo. Talvez você pegue as pessoas meio desprevenidas de imediato, mas a longo prazo elas vão te ouvir …e melhor ainda …elas vão falar.

E esse é o ultimo ponto de todos, e para mim talvez o mais importante: A melhor coisa sobre debater qualquer tema é que muitas vezes as pessoas vão discordar de você. E as vezes elas vão estar certas. E de cada debate, cada discussão, seu pensamento vai amadurecer, e se aperfeiçoar… e o mesmo ocorrerá com a outra pessoa. E cada um vai levar esse aprendizado para uma discussão seguinte, e outra, e outra.

E assim a humanidade cresce, e se transforma. Assim caminhamos para o futuro. Então levante sua voz, para que possam ouvi-lo. Estique seu braço, para que possam tocá-lo.

Temos permanecido nas sombras por tempo demais e já basta. Abramos as nossas cortinas, pois não há motivo para se esconder.

Se não em todo o mundo de uma só vez, pelo menos em nossas casas: Que se faça a luz…

Obs 31/05 : Meu amigo Caio Japa colocou uma questao muito interessante aqui. Hoje em dia muitas pessoas recuam diante de um debate ou assunto polemico em nome das “boas relações humanas”, para não se “indispor” com ninguém. Na minha humilde opinião isso ocorreu pois as pessoas se desacostumaram a raciocinar coletivamente. “Debater” se tornou sinonimo de “brigar”, perdeu-se o habito do debate como exercício de retórica, como construção coletiva de idéias. Isso é mais um motivo para estimularmos a criação de espaços de diálogo, para reverter essa situação de ignorancia individualista… Afinal todos nascemos ignorantes, e assim permaneceremos se nao aprendermos uns com os outros.