Os Cromossomos do Saara

Recentemente fui  a turismo para a Europa, e como todo brasileiro me deslumbrei com a beleza de suas cidades, com a riqueza de sua cultura, com a segurança de suas ruas. Encontrei por lá um querido amigo que está vivendo em Barcelona, e ele me mostrou outro lado da moeda e me fez levantar um questionamento que carreguei comigo pelo resto de minha viagem: Quem pagou o preço de toda essa civilização?

Meu amigo é um dos idealizadores do lindo projeto CROMOSSOMOS, desenvolvido em parceria com a ONG Palhaços sem Fronteiras. Eles estão organizando uma expedição entre os dias 27 de outubro e 13 de novembro para um remoto campo de refugiados saarauís, no norte da Àfrica, onde farão apresentações, espetáculos e oficinas de capacitação de palhaços para a população, além de registrar tudo em documentário. A idéia do projeto, além de levar esperança e alegria para uma população isolada e privada do mínimo (explicarei mais a seguir), é atrair atenção do mundo para essa região tão remota, além de capacitar refugiados para uma aptidão artística rentável quando eles puderem regressar para suas terras, algo que todos estão esperando ansiosamente.

CROMOSSOMOS

Intrigado por nunca ter ouvido falar do povo saarauí ou não ter a menor idéia de que “terras” são essas? Pois é, eu também não sabia nada sobre eles. Raramente um turista viajando pela Espanha, França ou outra nação mediterrânea na Europa para pra pensar no Norte da África, apesar de existir uma relação muito íntima entre essas regiões. Uma relação que somos capazes de compreender bem, porque também aconteceu conosco: Colonização. Erros cometidos no passado. Cicatrizes. Injustiças que perduram.

A diferença é que, a despeito das nossas injustiças, dos nossos problemas sociais, da nossa insegurança, pelo menos possuímos uma nação para chamar de nossa. O povo saaraui não: O Saara Ocidental é hoje a única região da África que não é independente, não possui seu status de país oficializado.

Resumindo bastante a história desse povo, os saarauís são um povo nômade que habitou a região do Saara Ocidental por séculos, e passou as ultimas  décadas sob os cuidados dos colonizadores espanhóis. Quando a Espanha decidiu, como fizeram as demais nações européias, “conceder a independência” da África, deixou  o povo saarauí à mercê da já independente nação de Marrocos, que marchou sobre o território desse povo e o clamou para si no que ficou historicamente conhecido como “Marcha Verde”. Esse território, o Saara Ocidental, além de rico em pesca (voltado para o Atlântico), é uma das maiores reservas naturais de fosfato do  planeta, além de potencial região de extração de petróleo.

Menina saaraui

A ocupação do território saarauí só foi possível porque a Espanha se omitiu em apresentar oposição a Marrocos, cedendo à pressão da França e dos EUA. Uma omissão consciente por motivos diplomáticos. Um intenso conflito envolvendo Marrocos, a Mauritânia e a Argélia se seguiu, e a discrepância de poderes logo  fez com que as lideranças saarauis – conhecidas como Frente Polisário- abandonassem qualquer esforço de luta armada e se resignassem às tentativas diplomáticas de solução do problema. Constantes abusos de direitos humanos por parte de Marrocos fizeram com que cada vez mais e mais saarauis cruzassem a fronteira com a Argélia, formando cinco imensos campos de refugiados onde vivem mais de 200.000 refugiados hoje. Pessoas instruídas, orgulhosas, unidas por um sonho em comum: Um dia voltar para casa.

O Marrocos construiu na região um gigantesco muro, com quase 3.000 km de extensão, e o cercou de minas terrestres, fazendo daquela uma das regiões mais perigosas do mundo. O muro, completamente ilegal, garante que os donos originais do Saara Ocidental fiquem isolados de sua terra, e garante ao Marrocos a continuidade da exploração do Fosfato. A posse da região garante ao Marrocos a posição de maior exportador de fosfato do mundo, sendo responsáveis por 30% da oferta mundial do produto (30 milhões de toneladas ao ano), utilizado principalmente como fertilizante. A Europa é responsável pela compra de grande parte dessa extração, mas o Brasil também é um grande comprador.

Mapa saara

Os refugiados saarauis são um povo gentil e educado, que valoriza a família e prega um estilo de vida simples. Surpreendentemente o grau de analfabetismo por lá é zero, pois todos estão esperando a hora de voltar pra casa e querem estar preparados quando esse dia chegar. Passam seus dias privados de saneamento básico, trabalho e acesso à água e comida, sobrevivendo da bondade dos poucos que chegam até eles.

Campo de cima

Se a omissão em nome da diplomacia foi a grande responsável pelo inicio dessa grande injustiça., a exploração do fosfato, e os interesses econômicos de toda a Europa e do mundo na continuidade de sua exploração por Marrocos, hoje garantem que essa imensa injustiça se mantenha. Nossos campos e plantações são fertilizados com a esperança de um povo, sem que ninguém tenha a menor idéia do que esta acontecendo.

Ao passearmos pelas lindas Ramblas de Barcelona, é fácil não pensar na África. É fácil não pensar na sua violenta e arbitrária divisão, na sua predatória – ainda nos dias de hoje – exploração, nos muitos povos marginalizados e sofrendo injustiças, entre os quais figuram nossos amigos saarauis. Não pensamos nisso, pois sequer sabemos a respeito. Está longe demais de nosso alcance. Não se fala nisso nas brochuras dos pacotes turísticos, ou nos livros didáticos que estudamos no colégio. Não há espaço nos jornais para todos os povos esquecidos do mundo, como saberíamos algo sobre um povo pequeno e perdido no deserto?

Meu principal ponto aqui é mostrar como uma breve conversa com um amigo vivendo fora de seu contexto, levando um estilo de vida diferente do que eu estou acostumado, já revelou todo um universo de pessoas necessitadas, de opressão, de abuso de direitos humanos, escondido por baixo do tapete em minha bela e confortável viagem pela Europa. Quantos outros casos como esse não existem?

Quanta injustiça não persiste à sombra de nosso conforto, escondida por trás do palco que foi montado para enxergarmos o mundo? Ao elogiarmos a beleza da civilização construída por um país desenvolvido que visitamos, seja ele EUA ou qualquer lugar na Europa, raramente pensamos no custo daquela beleza toda para dezenas de países oprimidos por eles.

Existe um palco armado, e existe todo um sistema que se beneficia de nosso desconhecimento a respeito dos problemas do mundo. Porque no final das contas, quando as pessoas entendem sua relação com o meio e refletem sobre a conseqüência de suas ações, algo muda.

As pessoas se importam.

Uma condição imprescindível para que nosso atual sistema, baseado em troca de bens e serviços e intenso acúmulo de capital (e inevitável criação de injustiça), funcione, é a visão limitada de cada integrante dessa cadeia de seu papel no todo:

  •  O explorado não pode se ver como vítima. Ele precisa almejar um lugar entre os privilegiados, e acreditar que com sacrifício e trabalho duro, um dia ele chega lá.
  • O explorador não pode se ver como opressor. Ele precisa acreditar que merece a condição que possui, que a conquistou, e que se há muita gente passando necessidade é uma condição inevitável.

 

Por outro lado, quando essa barreira é quebrada e entramos em contato com um povo necessitado, explorado, marcado pelo abuso e pela violência, é estabelecido um contrato vitalício entre as duas partes. Consciência é uma via de mão única.

A maior importância de grupos como os CROMOSSOMOS, de projetos como os da ONG Palhaços sem Fronteiras, é quebrar essa barreira que separa o nosso mundo – o mundo das relações de capital – e o mundo que existe por baixo, silenciosamente pagando nossa conta sem que sequer notemos.

Rua campo refugiados saaarauis

A questão Saharaui segue sendo uma das situações socialmente emergenciais mais desconhecidas do resto do mundo, mas não precisa ser assim. A situação pode ser revertida, e pela primeira vez na história – devido à internet e às redes sociais – temos condições de quebrar essas barreiras e lançar luz a essas pessoas esquecidas. Nunca foi tão impossível alegar inocência, ou desconhecimento, mas também nunca foi tão fácil fazer alguma coisa.

Vivemos em uma era onde podemos questionar as marcas que usamos, os alimentos que comemos, o meio de transporte que escolhemos. Podemos assumir a responsabilidade, na hora de votar, na hora de consumir, na hora de exigir que os governos mais poderosos assumam a responsabilidade pelos estragos feitos em sua história. Somos um povo mestiço. Colonizado. Marcado. Sabemos o que é isso.

Quis escrever esse texto primeiramente para divulgar o belo trabalho de meus amigos, e convidar meus leitores a conhecê-lo mais a fundo (a expedição vai acontecer mais ainda precisa de ajuda). Em segundo lugar, gostaria de convidar todos os leitores a refletir, em suas próximas viagens, ou mesmo em seu dia a dia, que mundos não existem às sombras do que chamamos de realidade, desconhecidos aos nossos olhos e ao nosso coração.

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Para conhecer mais sobre a expedição dos CROMOSSOMOS que vai acontecer no Saara ainda esse mês:

http://www.catarse.me/pt/cromossomos2014

https://www.facebook.com/cromossomos2014

Para saber mais sobre o povo saaraui e sua luta para voltar pra casa:

http://www.bizzentte.com/2012/10/hijos-de-las-nubes-2012-documental-canal-sahara-espanol/

http://mundorama.net/2010/01/21/a-dificil-e-esquecida-questao-do-saara-ocidental-por-pio-penna-filho/

http://xadrezverbal.com/2014/09/10/saara-ocidental-quando-a-hipocrisia-e-o-pior-inimigo/

http://www.ufrgs.br/sebreei/2012/wp-content/uploads/2013/01/Rodrigo-Duque-Estrada-Carla-Ricci.pdf

http://removethewall.org/

http://www.anba.com.br/noticia_corrente.kmf?cod=12279907&indice=70

 

 

 

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Cinco mitos sobre a questão de Israel

“As guerras dizem que ocorrem por nobres razões: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da civilização ou a vontade de Deus. Nenhuma tem a honestidade de confessar: ‘Eu mato para roubar’”.

– Eduardo Galeano

Conversar sobre Israel e Palestina ultimamente tem sido muito chato. Três semanas de ocupação, 53 soldados israelenses e 1.200 palestinos mortos depois, ainda é difícil participar de uma conversa sobre o assunto sem esbarrar em algum clichê que acaba com a conversa prematuramente. Pior: Ainda é impossível falar sobre o assunto sem ofender alguém.

Enquanto pisamos em ovos para não ofender nossos amigos, enquanto as nações unidas pisam em ovos para não ofender os EUA, a pilha de corpos cresce (Especialmente do lado palestino. Não vou fingir imparcialidade) e questões essenciais não estão sendo discutidas por causa de mitos, tabus ou pré-conceitos.

Sem intenção de esclarecer décadas de conflito em um texto de poucas páginas, procurarei pelo menos enumerar alguns desses mitos na esperança de elevar um pouco o nível do debate.

Abaixo enumero os cinco maiores mitos, e porque os considero falaciosos:

MITO 1 – ISRAEL ESTÁ APENAS REAGINDO A UMA OFENSIVA DO HAMAS. SE O HAMAS PARASSE OS ATAQUES, HAVERIA PAZ NA REGIÃO

O argumento predominante entre os que defendem as ações de Israel em Gaza costuma ser o de que o Governo Israelense quer paz, está apenas defendendo seu povo do Hamas.  “Se o extremismo do Hamas não ameaçasse a população israelense, a paz reinaria.” Alguém provavelmente te encaminhou esse vídeo nas ultimas semanas:

https://www.youtube.com/watch?v=daLF1AFs5AM

Esse argumento exige certa amnésia da parte das pessoas, pois uma rápida busca no Google vai confirmar que, na guerra ou na “paz”, Israel está constantemente se expandindo sobre território palestino.

Israel tem se expandido desde a guerra da independência (1948) . Essa expansão tem se dado alternadamente por meio de ocupações militares (como a que está acontecendo agora) e invasão de colonos (durante os períodos de paz). Com ou sem o pretexto da autodefesa, Israel continua avançando, e basta uma rápida olhada em um mapa para verificar a violência dessa expansão:

MAPA PALESTINA

(clique na imagem para expandir)

Para explicar como funciona a ocupação de território palestino por colonos: Resumidamente, é como se você acordasse um dia e uma imensa porção do terreno de sua casa tivesse sido simplesmente cercada por um fazendeiro estrangeiro, que começou a construir um muro em volta. Só que esse invasor não é considerado um criminoso, ele é protegido pelo exército e ganha automaticamente direito a aquela terra, como se ela nunca tivesse sido sua.

A imensa maioria da expansão de Israel, que você pode ver acima, se deu dessa forma. Não por conflitos militares. Não por reação a um ataque, seja ele do Hamas, do Fatah ou de qualquer célula terrorista independente.

Como essa expansão é extra-oficial, é incentivada e financiada, mas não é organizada pelas autoridades israelenses, o território palestino foi basicamente estilhaçado. A palestina virou uma série de faixas de terra intercaladas por corredores e muros de Israel.

Para visitar sua família em outra região de Gaza, um palestino precisa às vezes passar por dois ou três controles de fronteira. Com os passaportes sempre vencidos (já que eles são concedidos pelo governo israelense), nada resta para um palestino a não ser contar com a boa vontade de alguém do exército, ou então se resignar ao pequeno espaço que lhe foi conferido. Como uma pequena prisão. Como um gueto.

Outra conseqüência desse recorte desordenado de territórios é a interrupção de serviços básicos, como água e eletricidade. Mesmo saneamento básico muitas vezes é negado aos habitantes dessa região, onde se passa fome, se morre de epidemias, onde falta escola, hospital e o mínimo necessário para que o povo palestino viva com dignidade. Não estamos falando de dois países e uma fronteira tensa: Estamos falando de um país e alguns guetos ilhados e separados dentro desse território.

Aos interessados em entender mais sobre o assunto, recomendo como introdução o vídeo abaixo (infelizmente não tem legendas):

https://www.youtube.com/watch?v=eCo4MHM72e8

Ao que tudo indica, o que o governo israelense espera é que o povo palestino aceite passivamente uma expansão que acabará em poucos anos com o que restou de seu território.

Note que sobre essa ótica, as atuais agressões palestinas contra Israel – não estou emitindo juízo de valor aqui – não são ataques contra a cultura judaica ou contra o povo judeu, mas reações a uma lenta e contínua invasão israelense.

É claro que depois de tantos anos, existe anti-semitismo. É claro que existe uma questão religiosa. Mas esse não é o ponto principal. Nunca foi. No fim das contas, o que importa é a terra.

Claro que o governo israelense não vai convencer seu povo a apoiar suas ações se contar essa história. Para que apenas sua versão seja contada, temos cada vez mais visto censura à imprensa e controle da informação que entra e sai daquela região. A reportagem abaixo relaciona diversos casos de censura a jornalistas nas ultimas semanas:

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/07/jornalistas-gaza/

Na dúvida, meu amigo. Questione.

MITO 2 – ISRAEL É UMA NAÇÃO TIRANA QUE REJEITA UNILATERALMENTE O ISLAMISMO

Esse mito está entrando na moda agora, depois de centenas de fotos de crianças palestinas mortas invadiram a rede e fizeram Israel perder a guerra de “relações públicas”. Muita calma nessa hora. Nada pior para qualquer debate do que maniqueísmos, simplificações superficiais sobre o “bonzinho” e o “malvado” da história.

Justiça seja feita, assim que foi constituída (mais precisamente em 1948), Israel foi atacada violentamente pelos países árabes (Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, etc) em seu entorno, que rejeitaram a imposição arbitrária do governo britânico à criação do estado judaico. Foi uma guerra violenta, onde 1% da população do recém constituído país morreu.

Essa ameaça original plantou as sementes do que se tornou hoje o nacionalismo israelense e a cultura da ameaça externa que norteia – e procura justificar – suas ações.

Nos anos seguintes Israel se recusou (na maior parte do tempo) a negociar com a OLP (liderada por Yasser Arafat, filiado ao Fatah) devido aos atos terroristas que ocorriam ocasionalmente, mas isso aparentemente se mostrou um erro. Em 2006, a flor em uma mão e fuzil na outra de Arafat foram substituidos pelo lança torpedos do Hamas e a paz nunca pareceu tão distante para Israel.

O Hamas, diferente do Fatah, não aceita a existencia de dois estados distintos: Ela quer o fim de Israel. Dentro do Hamas existem discursos mais moderados – que clamam pela criação de um estado unico e democrático (o que não seria um má idéia, se eles forem capazes de respeitar isso) – e discursos mais extremos e antissemitas, é claro.

Esses discursos só ganharam voz – e espaço – entre os Palestinos depois de décadas de violência e expansionismo. A história de repete, e da mesma forma que os EUA criaram seus próprios monstros em Bin Laden e Saddan Husseim, o Hamas é o pequeno monstro de Frankenstein criado pela truculência do governo Israelita ao longo das ultimas décadas, pela vista grossa (e até incentivo) feito à expansão dos colonos sobre território palestino. O pequeno grupo extremista se tornou a ultima linha de defesa de um povo sitiado e desesperado.

As lideranças do Hamas já declararam abertamente a intenção de destruir israel, já clamaram pela morte do povo judeu. Isso é fato. É evidente que Israel está colhendo o que plantou nas ultimas décadas, e também é evidente que está conduzindo o problema de forma desastrada hoje, mas não podemos simplesmente ignorar esse contraponto. Para entender um pouco mais o lado israelita, sugiro esses dois excelentes textos sobre o assunto:

http://www.samharris.org/blog/item/why-dont-i-criticize-israel/

http://www.huffingtonpost.com/ali-a-rizvi/picking-a-side-in-israel-palestine_b_5602701.html

Israel tem o poder para matar 100% da população palestina em uma semana, se realmente quiser. Se isso não está sendo feito, é porque não há uma INTENÇÃO de fazê-lo. A liderança do Hamas, por outro lado, já declarou abertamente que faria isso se pudesse, e quando alguém declara suas intenções de cometer genocídio, devemos prestar atenção. Então devemos ser cuidadosos, pois avaliar a questão ignorando o lado de Israel é um erro tão grande quanto defender Israel incondicionalmente.

Acalmados os ânimos, vamos pensar juntos… goste ou não disso, Israel tem que lidar com o Hamas, e não é possível destruí-lo sem destruir Gaza. A cada missil lançado sobre Gaza, o Hamas ganha mais apoio, seu discurso de ódio é mais fortalecido. Imagine-se chegando em casa e descobrindo sua família inteira morta por um bombardeio, enquanto jantava, ou dormia, ou coisa que o valha. Você não se tornaria um extremista da noite para o dia?

Ao menos que a idéia de um estado único (defendida por muitos) vá pra frente, Israel sempre precisará guardar suas fronteiras com atenção, sempre deverá olhar por cima do ombro no que concerne seus vizinhos.

A paz não será obtida por meio de mísseis, a unica alternativa se seguirmos nessa direção será o exterminio completo da população palestina.

Ninguém em sã consciência condenaria Israel por querer proteger suas fronteiras, especialmente com um inimigo como o Hamas batendo na sua porta. Condenar a expansão constante dos colonos israelenses sobre Gaza, condenar o bombardeio incessante que ceifa milhares de vidas inocentes, isso já é outra história.

MITO 3 – EXISTE UM POVO QUE DEVE OCUPAR AQUELA TERRA POR DIREITO HISTÓRICO

Não existe um “dono original” para nenhuma terra do mundo. A humanidade surgiu na África, próxima à região onde hoje fica a Etiópia, e desde então tem se expandido por todo o Globo, ocupando regiões, batalhando entre si por terra. Se regredirmos a história da região onde hoje fica Israel, a Palestina, a Jordânia e o Líbano, poderemos contar centenas e centenas de “povos originais” que poderiam clamar para si o direito por aquela terra.

Filisteus, Turcos otomanos, Árabes, Britânicos, Hebreus, Egípcios e Cruzados vindos da Europa. Dezenas de povos clamaram aquela terra para si ao longo dos últimos séculos. O vídeo abaixo mostra um pouco da complicada história dessa sangrenta região, e revela como qualquer simplificação sobre um “dono por direito” dela é falaciosa:

http://blog.ninapaley.com/2012/10/01/this-land-is-mine/

Discutir quem é o dono original daquela região é inútil. Existem israelenses. Existem palestinos. Ao menos que alguém tenha um plano excelente para criar um novo continente do nada e remover toda uma população para ele, teremos que lidar com esse fato e encontrar um lugar para todas essas pessoas viverem.

Na minha opinião esse lugar deve ser um estado. Único. Laico. Democrático. Isso devia ter sido articulado a 60 anos atrás, e esta a cada dia mais dificil, mas talvez seja a única alternativa a essa altura do campeonato, já que recuar Israel para as fronteiras originais de 1947 parece fora de questão.

MITO 4 – TODO JUDEU APOIA A POLÍTICA DE ISRAEL. QUEM VAI CONTRA ISRAEL FAZ ISSO POR SER ANTISSEMITA.

Poucas coisas matam uma conversa tão rápido quanto uma acusação de racismo. E quando não há argumentos, a forma mais rápida de acabar com uma conversa é desqualificar o interlocutor.

Pra começo de história, a ocupação em Gaza não é consenso nem mesmo entre os israelenses, como às vezes se pensa por aí. Entre a população de Israel, sobretudo entre os jovens, um movimento de resistência cada vez maior tem florescido.

Ainda sem tradução, esse lindo manifesto do grupo “Boycott from Within” deixa claro que muitos israelenses consideram o que seu governo está fazendo um verdadeiro massacre:

http://boycottisrael.info/content/citizens-israel-charge-israel-genocide

Acompanhamos manifestações em Tel Aviv na semana passada que reuniram quase 10.000 pessoas:

Protestos Tel Aviv

http://www.haaretz.com/news/national/1.607311

A todo o momento nascem novos grupos de judeus solidários aos palestinos e contrários à opressão do estado israelense em Gaza, como os Combatentes pela Paz, o Rompendo o Silêncio (formada por ex-soldados israelenses) e o Voz Judaica pela Paz, cuja página do Facebook tem sido uma excelente fonte de informação nas ultimas semanas:

https://www.facebook.com/JewishVoiceforPeace?fref=ts

Em março desse ano um grupo de 60 jovens israelenses se recusou a cumprir o serviço militar obrigatório do país, alegando que “preferem ir para a prisão a servir a um exército que comete crimes”.

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/jovens-de-israel-recusam-exercito-melhor-ir-para-a-prisao,0ef0e57639ca4410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Recomendo que todos assistam a declaração do grupo “Young Jewish and Proud” onde a juventude israelense faz um apelo aos jovens judeus de todo o mundo para que se orgulhem de sua herança e de sua história, mas que levantem sua voz contra as atrocidades que o governo israelense está cometendo:

https://www.youtube.com/watch?v=BAV-3-AqP9M

Por fim, gostaria de citar o Dr. Norman Finkelstein, judeu, um dos maiores estudiosos na questão palestina, cuja familia toda (inclusive os pais) estiveram em campos de concentração na segunda guerra. Recomendo fortemente essa palestra dele (abaixo o link para a primeira parte, com legendas):

Falar contra a atual política externa de Israel não é racismo, não é rejeição à cultura judaica, ao povo judeu ou coisa que o valha. É uma questão de lógica, e bom senso, e pessoas de qualquer religião ou nacionalidade deveriam poder fazer isso sem sentir que estão ofendendo qualquer um.

Por outro lado, as ações de Israel não podem nunca justificar anti-semitismo ou rejeição ao povo e cultura judaicos. São ações de um governo, movidas por interesses econômicos, e que não devem representar a máxima expressão de um povo nesse mundo. Nunca. Eu temo que as ações de Israel acabem despertando nas pessoas um preconceito destrutivo, da mesma maneira que os EUA de George Bush despertaram no mundo um anti-americanismo que nunca levou a lugar nenhum.

Existe, especialmente na juventude israelense, uma crescente clareza de idéias e intenção de paz. Ainda é uma minoria, é verdade, mas apenas o debate e a reflexão provocarão mudança.  Acredito que nessas pessoas, nesses jovens, reside a maior esperança de uma solução a esse conflito. Israel vai ter que mudar de dentro pra fora.

MITO 5 – ISRAEL NÃO ESTÁ FAZENDO NADA ERRADO. GUERRA É GUERRA E ELES SIMPLESMENTE SE PREPARARAM MELHOR.

De um lado, temos uma nação pequena, porém militarmente poderosa, apoiada pelo país mais rico e militarmente desenvolvido do mundo, dotado de poder de voto na ONU.

Do outro, um território que não é sequer reconhecido como membro das Nações Unidas (apenas estado observador), portanto não pode garantir sua soberania nacional perante os demais países. Tecnicamente, nem mesmo é um país.

É lugar comum afirmar que a única solução possível para o conflito entre Israel e Palestina é um acordo que garanta a soberania dos dois territórios. É lugar comum afirmar que tem gente morrendo dos dois lados, que a guerra prejudica a todos, que a paz é tão urgente e necessária em nome de um lado, quanto do outro.

O problema é que existe uma desproporção tão imensa entre os dois poderes aqui discutidos, que não se pode chamar o que está ocorrendo de guerra, e sim de massacre.

A tabela abaixo relaciona as casualidades civis no conflito entre Israel e Palestina entre 1987 e 2010 e mostrará melhor o que estou dizendo:

CASUALIDADES ISRAEL X PALESTINA

(clique na imagem para expandir)

O Hamas realmente usa a população de escudo, dispara mísseis de escolas, hospitais, etc. Mas bombardear esses hospitais e escolas em retorno não é um caminho razoável, não é uma tática justificável.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/o-ataque-covarde-contra-4-meninos-palestinos-numa-praia-de-gaza.html

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/israel-bombardeia-escola-usada-como-abrigo-da-onu-em-gaza,4ab5c008cfd57410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html

http://www.reuters.com/article/2014/07/30/us-mideast-gaza-idUSKBN0FV04A20140730

Estatistícas mostram que uma criança palestina é morta pelo exército israelense a cada 3 dias nos ultimos 13 anos:

http://www.globalresearch.ca/one-palestinian-child-has-been-killed-by-israel-every-3-days-for-the-past-13-years-2/5389498

É claro que o governo israelense não quer, ativamente, massacrar crianças (algo, diga-se de passagem, que não deve ser um problema para o Hamas, se essas crianças forem judias). Mas é isso que está acontecendo.

E é isso o que acontece sempre que um país poderoso invade um país fraco, e estabelece que a casualidade civil seja um sacrifício aceitável para se atingir certo objetivo. Não há desfecho diferente com esse tipo de pensamento.

Claro que em uma guerra pessoas morrem. É claro que se um lado for mais poderoso, produzirá mais casualidades e sofrerá menos baixas. Mesmo se julgarmos os motivos dos dois lados igualmente justos, mesmo se assumirmos que o Hamas faria pior com Israel se assim pudesse, há um limite para o aceitável, e o governo israelense ultrapassou esse limite.

Só há um fim possível para essa situação: O massacre completo do povo palestino e a resignação dos poucos sobreviventes a uma vida miserável em uma terra ocupada.

 

CONCLUSÃO

Ao atacar os cinco principais mitos sobre a questão do oriente médio, eu procurei contar uma história. A história da criação desastrada de um estado, de uma guerra que tem durado décadas e de um capitulo final, ainda por ser escrito, que se deixada aos cuidados atuais acabará narrando um massacre.

Não o massacre de um povo por outro. O povo israelense, em sua maioria, quer a paz. O povo palestino, em sua maioria, quer a paz também.

Terá sido o massacre perpetrado por um estado (dotado de interesses econômicos geralmente ocultos de seus eleitores), justificado por um trabalho intenso de propaganda, vendido para sua população (e para o mundo) como o único caminho.

A comparação com o nazismo – respeitadas as devidas proporções – é inevitável.

Estive em Auschwitz pessoalmente a oito anos atrás, e até hoje não me recuperei completamente da visão das montanhas de sapatos de judeus exterminados naqueles campos (ainda expostos), nem das marcas de unha nas paredes de uma câmara de gás, que eles mantém conservada por lá.

Gosto de pensar que evoluímos como espécie desde aqueles tempos sombrios, que aprendemos com nossos erros, que estamos avançando. Tenho esperança de ver, ainda em vida, uma conclusão para os palestinos diferente do extermínio, da completa ocupação, do holocausto.

Acredito que a semente da mudança já está plantada, em solo israelense, e que a própria juventude judaica que lá reside irá se erguer contra a tirania de seu governo, contra os fantasmas de seus antepassados, e mudará os rumos dessa história tão terrível. Acredito que eles poderão estender seus braços à oprimida população palestina, para que eles não precisem contar com o Hamas como sua ultima linha de defesa. Para que eles possam, por sua vez, rejeitar o discurso de ódio do Hamas.

Acredito que a memória do que é ser oprimido, que parece ter pulado algumas gerações, voltará a brilhar nessa juventude.

No entanto, isso levará algum tempo. Netanyahu – ou outro governante com o mesmo pensamento que ele – governará Israel por muitos anos ainda, e seu governo poderá marcar a extinção dos palestinos se não houver pressão internacional para que a ocupação seja interrompida AGORA.

Por esse motivo, cabe a nós, católicos, judeus, budistas, ateus, seres humanos enfim, fazer o possível para lançar um pouco de luz, um pouco de razão, a esse debate ainda tão evitado, tão cheio de tabus. A contagem de corpos continua aumentando, e simplesmente não há mais tempo.

 

LEITURA COMPLEMENTAR:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/nao-ha-culpa-coletiva-na-faixa-de-gaza-6583.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/11/eduardo-galeano-israel-gaza-direito-de-negar-todos-os-direitos.html

http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/07/11/the-lopsided-death-tolls-in-israel-palestinian-conflicts/

http://palsolidarity.org/2013/07/interview-with-ilan-pappe-the-zionist-goal-from-the-very-beginning-was-to-have-as-much-as-palestine-as-possible-with-as-few-palestinians-in-it-as-possible/

http://www.chomsky.info/books/dissent01.htm

http://mondoweiss.net/2014/07/israels-actions-unjustified.html

Notas sobre Cuba

 

Estive em Cuba no começo de 2012. Gostaria de dizer que morei lá por alguns meses, que viajei na caçamba de velhos caminhões soviéticos, transportando cana pelo interior de Cuba enquanto conversava com camponeses ainda mais velhos e queimados de sol a respeito de Batista, Castro e a revolução. Certamente seria mais romântico, mas acontece que fui a Cuba como turista mesmo, esticando uma semaninha em Havana e depois visitando uma ou duas praias do Caribe, porque ninguém é de ferro.

Só uma pessoa que já foi para Cuba entende como isso basta para torcer seu cérebro como se torce um pano de chão usado num tanque de lavar roupa.

Não há experiência frívola em Cuba. Mesmo se você tentar se internar em um resort All Included, descendo no aeroporto de Varadero e fugindo direto para ele na hora de ir embora (o que, acreditem, muita gente faz), não há como se esquivar da realidade brutal e absurda que se arremessa na nossa cara assim que pisamos naquela ilha verde e bonita: Não sabemos nada. Somos muito mimados. O simples fato de termos dinheiro para chegar lá e curtir uns dias de férias já denuncia nossa completa ignorância da realidade do mundo, que em Cuba (diferente da maioria de nossos destinos turísticos habituais) não pode ser isolada em alguma periferia, ou escondida atrás de um muro. Bem que tentam.

Geralmente, quando viajamos, tentamos puxar assunto com os taxistas, com as pessoas que nos atendem nos restaurantes. Puxamos conversa, tentamos saber o que eles pensam do prefeito da cidade, sobre como é viver por lá, qual a ultima novidade. Em Cuba, são os locais que vêm falar conosco. O tempo todo. Em dois dias lá, ao menos que você tape os ouvidos e saia correndo cantarolando toda vez que um cubano te abordar, você já terá ouvido umas cinco histórias de vida diferentes, que te deixarão emocionado, bravo, invejoso, compadecido, tudo ao mesmo tempo. Ainda tenho cravado na minha memória o rosto de todos aqueles com quem eu falei ao longo de minha estadia, e tenho certeza de que todo mundo que visitou esse lugar tem os seus.

Claro que cada pessoa tem uma convicção política, um histórico de vida, e processará a experiência de uma forma distinta. Dividi o processo, como foi comigo, em três tópicos, “Choque”, “Reflexão” e “Conclusão”. O ultimo tópico foi nomeado de forma reconhecidamente falaciosa: aviso desde já que não há conclusão definitiva sobre esse assunto tão complicado.

1.    O CHOQUE

Cuba é uma ditadura. Não há como negar isso, e qualquer pessoa que disser o contrário, nunca foi pra lá.

O cubano não pode falar com o turista por muito tempo, ao menos que seu trabalho exija isso. Se uma conversa durar demais, logo o cidadão é abordado por uma autoridade policial, que manda ele “dispersar”. Conversas corriqueiras na rua então, nem pensar. Conhecemos um casal de cubanos em “Paseo del Prado” e conversando com eles, nos sentimos como se estivéssemos comprando drogas ou algo do tipo.

O cubano não pode usar internet, ao menos que seu trabalho exija isso. Cubanos que possuem amigos ou família fora, geralmente usam colegas que trabalham com internet para manter contato. Conhecemos um cubano, que trabalhava na “Heladeria Copélia”, a famosa sorveteria de “Vedado”, que mandava recados para a namorada americana por meio de um amigo que trabalhava com comércio exterior.

O cubano não pode vender seu carro ou casa. Ou mesmo trocar com outra pessoa. Cada bem é fruto de uma distribuição feita pelo estado ainda na época da revolução. Hoje isso começou a ser flexibilizado por Raul Castro, com severas restrições.

O cubano não pode viajar. O governo de Raul está começando a flexibilizar essa regra também, mas na prática ainda não existe turista cubano indo pra fora. Mesmo dentro da própria ilha, existem praias e regiões restritas para o cidadão, onde só podem ir turistas.

Varadero. Exclusiva para turistas.

Um cubano que perca o emprego, não pode simplesmente pleitear um novo emprego em outro lugar. Ele precisa entrar em uma fila. Conhecemos um taxista em nossa viagem através de “Matanzas”, que era chefe de cozinha e perdeu o emprego quando o restaurante onde ele trabalhava fechou. Foi designado pelo governo para atuar como taxista enquanto aguarda em uma fila, para voltar a exercer sua vocação quando chegar a vez dele. A previsão é de cinco anos ou mais.

Cuba é incrivelmente pobre.

O crescimento do turismo nos últimos dez anos criou uma situação ridiculamente chocante e absurda, que será certamente uma das primeiras coisas a ser notadas por turistas que se aventurarem por lá: Duas moedas. Dois pesos e duas medidas. O peso turístico está em paridade com o dólar, enquanto o peso cubano (acessível apenas ao cidadão ou no mercado negro) é muito menos valioso. O que é uma medida até interessante para manter mais dinheiro dentro do país, acaba tendo conseqüências bizarras, já que uma coca cola e um sanduíche em qualquer barzinho de Cuba, comprado por um turista, pagaria mais de um mês de salário de qualquer trabalhador cubano. O turista se torna automaticamente um milionário, uma árvore de dinheiro. Como conter a prostituição nesse país, sendo que duas noites que uma menina cubana passe com um turista paga um ano inteiro de salário dela? Como reverter a realidade bizarra em que uma faxineira de banheiro de bar, que ganha algumas moedas por noite de turistas embriagados, fecha o mês ganhando mais dinheiro do que um médico ou engenheiro?

Havana é linda e fotogênica. Mas está caindo aos pedaços. Mesmo. Vários prédios estão bloqueados por “Perigo de Derrumbe” e vários deveriam estar. Os prédios decadentes de Havana saem lindos nas fotos, mas certamente não são bons lugares para se viver.

As pessoas não passam fome, mas comem muito pouco. Os cupons-alimentação que recebem do governo não são o bastante, dependendo do tamanho da família, e não é raro ser abordado por um cidadão no meio da rua, pedindo uma caixa de leite. Saímos para jantar com aquele casal que conhecemos em “Paseo del Prado” (claro que pagamos a conta), e vimos com os próprios olhos eles apenas beliscarem a comida, guardando mais da metade para levar para os filhos em casa.

Nunca me esquecerei da noite em que eu e minha esposa conhecemos o porteiro do prédio onde estávamos hospedados (uma amável casa de família). Fascinado pelo Brasil, nosso novo amigo era fluente em português e outras duas línguas (algo bem comum por lá). O padrinho de seu filho era Brasileiro e o sonho dele era visitar nosso país, mas ele deixou claro, com todas as letras, que jamais iria realizar o sonho do filho. Estavam presos na ilha. Quando nos despedimos dele e entramos no elevador, olhamos um nos olhos do outro e choramos. Choramos por uns 15 minutos.

Viajar para Cuba, se você mantiver seus olhos abertos e não for um completo idiota, é pesado. E naquele momento, acho que o peso de tudo o que recebemos ao longo dos últimos dias bateu mais forte do que nunca.

2.    A REFLEXÃO

No que concerne quase tudo na vida, o primeiro contato com uma realidade nova muitas vezes não acompanha uma subseqüente reflexão. A velocidade com que as coisas acontecem geralmente faz com que nos agarremos à primeira impressão, e possamos virar a página para o próximo assunto. Normalmente, a primeira impressão é a que fica.

Não quando o assunto é Cuba.

Não podemos deixar isso acontecer nesse caso, simplesmente porque a reflexão que essa pequena ilha caribenha nos instiga, é uma reflexão muito maior, que atinge diversos aspectos de nossa sociedade e da própria raça humana. Sem exageros.

Ao menos que você tenha descoberto algum pacote secreto da CVC para a Coréia do Norte, ou então uma máquina do tempo que te leve de volta para a Russia Stalinista, visitar Cuba pode ser sua ultima chance de conhecer um lugar no mundo que não foi contaminado, ou convertido – para usar uma palavra mais leve – por uma forma ou outra de corporativismo. Que ninguém venha falar da China, com seu totalitarismo de estado ultra-capitalista (que talvez reúna o pior dos dois mundos).

Tentar enxergar além do óbvio (os cubanos tem pouca liberdade e vivem em um estado de pobreza) é mais do que desenvolver uma opinião inusitada sobre um destino exótico para as próximas férias. É iniciar uma reflexão essencial sobre o que deveríamos manter em nossa sociedade atual, e o que deveríamos destruir. Basicamente: o que podemos aprender com uma sociedade que se organizou de uma forma completamente diferente da nossa?

Quem lê apenas a primeira parte do meu texto e depois desiste (porque ele é muito longo, eu sei…eu sei…) certamente fica achando que, além de ser um inferno, Cuba é um péssimo destino turístico, já que deixa seus visitantes chocados e deprimidos com uma realidade cruel e esmagadora. Nada poderia ser mais distante da verdade.

Cuba é um lugar lindo, abençoado com uma beleza além da conta, e a despeito de todas as dificuldades que tem que enfrentar no dia a dia, poucas vezes vi um povo tão feliz quanto o cubano.

Apesar de ganhar pouco, todo cubano tem trabalho, que, aliás, executa apenas algumas vezes por semana, tendo mensalmente tantos dias de folga quanto dias úteis (o que torna a idéia de ‘fim de semana’ comicamente abstrata para muita gente com quem conversei, e descansa dia sim, dia não).

Apesar de comer pouco, todo cubano come. Apesar de morar mal, todo cubano tem casa.

Todo cubano fala pelo menos duas línguas, a maioria fala três. Todo cubano tem acesso à medicina de qualidade, e remédios gratuitos.

As cinco em ponto, todos os dias, o “Malecón” de Havana se enche de cubanos jogando conversa fora e dando risada, enrolando duas horas com seu copinho de rum a tiracolo (porque não tem muito) e tocando algum instrumento.

Cubanos descansam ao entardecer no Malecón

Cubanos descansam ao entardecer no Malecón

Ainda que esse mesmo cubano alegre e sorridente tenha críticas ferrenhas a fazer contra Fidel Castro, assim que se sentir seguro o bastante com você para desabafar a respeito, ele está lá, vivendo a vida, enquanto a imensa massa de gente pobre de nosso ultra-capitalismo está apenas começando uma jornada de 3 horas de baldeações entre ônibus e metrô, para chegar em casa, na periferia da periferia.

Entendem onde eu quero chegar?

Vivemos inevitavelmente presos em nossos próprios parâmetros – nossas referências iniciais – e é muito difícil para a elite brasileira, da qual TODOS NÓS fazemos parte (se você está lendo esse texto 99% de chance de se incluir nesse grupo) enxergar a dura realidade na qual a esmagadora maioria do mundo se encontra. Por trás das lentes de nossas câmeras semi-profissionais da Canon, fotografando as ruas belas e decadentes de Havana (para depois poder contar em alguma mesa de bar na Vila Madalena, pagando 8 reais em um chope, que visitamos um lugar exótico nas ultimas férias), certamente Cuba  parece um lugar ridiculamente precário.

As casas estão desabando? É verdade.

A discrepância monetária entre o peso cubano e o peso turístico gera um abismo bizarro entre o turista e o morador? É verdade.

O cubano comum não pode viajar livremente como turista, e está de certa forma preso dentro do seu próprio país? Ainda é verdade pra quase todo mundo…

Mas antes que comecemos a dissertar sobre as vantagens da democracia maravilhosa na qual nós, civilizados, vivemos, eu peço licença para perguntar:

Você já pensou em passar suas próximas férias em uma favela brasileira? Ou em uma comunidade de garimpeiros no norte de Minas Gerais?

Já visitou a casa da sua faxineira?

Já parou pra comparar o seu poder de consumo com o do gari que limpou a sua rua as 3 da manhã de ontem, no frio, enquanto você dormia enroladinho no seu edredom? Sabe quantas refeições ele pula por mês para economizar dinheiro?

Já perguntou pra um empacotador do Pão de Açúcar se ele tem alguma esperança de um dia viajar pra fora do país?

Antes de ficar chocado e emocionado com o discurso do médico Cubano no plenário, essa semana, sobre as péssimas condições de vida dos médicos que trabalham em Cuba; já se perguntou o quão chocantes seriam as realidades e depoimentos se oferecêssemos a mesma voz aos milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, mesmo depois de todos os bolsas famílias e “milagres econômicos” dos últimos anos?

Somos mimados. Mimados e incapazes de enxergar a realidade da imensa maioria de nossos próprios conterrâneos. Olhamos com pena para o cidadão cubano e somos ao mesmo tempo incapazes de encarar o morador de rua embaixo da ponte por quem passamos na volta pra casa.

Tomemos por exemplo as centenas de populações ribeirinhas que moram no interior da Floresta Amazônica: Vivem sem energia elétrica, sem hospital e sem escola a menos de um dia inteiro de barco. Tomam banho na mesma água onde jogam suas fezes. Sobrevivem com menos de um real por dia. Nascem, crescem e morrem anônimos à nossas vidas protegidas.

Favela ribeirinha brasileira

O que pensariam essas pessoas, assim como os milhares de moradores de rua, os centenas de milhares de favelados, e quer saber? Os milhões de trabalhadores de classe baixa de nosso país, se lhes fosse oferecida a oportunidade de viver em um lugar onde saúde e educação publica funcionam? Onde eles teriam comida e moradia garantidas pelo estado? Mais de duas vezes mais tempo livre, pra passar com suas famílias e seus amigos, em vez de presos em uma lotação entupida de gente?

Fala-se muito da truculência do estado cubano em relação à sua população. Mas alguém que adora falar sobre isso, já visitou uma batida do Bope ou da Rota em um morro? Já testemunhou uma chacina da PM em algum bairro de periferia?

Será que o mesmo cubano que nos vê, bem vestidos e cheios da grana, fotografando seu bairro decadente, invejaria tanto assim nosso estilo de vida se soubesse que sua maior chance (estatisticamente) caso tivesse nascido no Brasil, seria morar em uma favela?

A grande questão que devemos levantar, meus amigos, não é se trocaríamos a nossa vida confortável e privilegiada, pela vida do cubano pobre.

A questão que devemos levantar é: Se vivêssemos como a imensa maioria da população do Brasil (e do mundo) vive, não preferiríamos viver em Cuba?

3.    CONCLUSÂO

 Indo e vindo nessa reflexão complicada a respeito de tudo o que vi quando viajei para Cuba, fiquei empacado nesse texto por quase dois anos. Ainda não possuo todas as respostas, mas escrevi mesmo assim, para instigar um pouco mais de reflexão para aqueles que acham que as possuem.

Não vou nem entrar no mérito de quanto da pobreza cubana (e da truculência do estado) não é uma conseqüência direta do embargo americano, e ao programa de incentivo à dissidência que eles promovem em Miami. Não vou morder a isca fácil de tornar essa reflexão um texto anti-americano, até porque o embargo está chegando ao fim e as relações diplomáticas estão sendo finalmente reestabelecidas.

A verdade é que, politicamente falando, sempre tentamos assumir um lado, o da direita ou a da esquerda. E se somos moderados, logo somos taxados de “em cima do muro”, “alienados”. Estamos sempre buscando uma camisa para vestir.

Visitar Cuba é de certa forma, partir um coração idealista: Não existem utopias.

Voltar de Cuba e encarar com realismo esse lado do mundo é igualmente assombroso: Vivemos em direção a uma distopia.

O preço que pagamos para nossa vida confortável é alto demais. O alto salário que certos cargos garantem em nosso país, só consegue ser tão alto à custa de uma imensa massa que vive uma vida miserável, trabalha muito e ganha pouco, vive mal, come mal, não tem acesso a nada. Essa é a realidade que ignoramos todos os dias, para nossa vida não virar um inferno de culpa.

Nossa democracia e sistema de eleições parece livre, mas na verdade foi a muito tempo assimilado pelas grandes empresas, que com patrocínio à campanhas e lobby se apoderaram da agenda política dos governantes que escolhemos. O liberalismo morreu, foi substituído por um corporativismo canceroso.

Nossos recursos naturais estão se esgotando, as massas miseráveis estão se multiplicando, e nosso sistema continua se baseando em uma máxima irrealista de crescimento indeterminado, em um sistema isolado (o planeta Terra) cujos recursos são mortalmente limitados.

O sistema onde crescemos nos ensinou que é um absurdo querermos comprar banana no supermercado, e só ter maçã. Que é absurdo ter alguém limitando o quanto podemos crescer na carreira, o quanto podemos ganhar, quantos bens podemos acumular.

Vivemos em um sistema que nos ensinou a não olhar nem pra trás (para os milhões de pobres que deixamos no caminho, para os recursos não-renováveis que consumimos) e nem para frente (para a realidade horrível que estamos construindo para nossos netos). Estamos distraídos demais usufruindo de nossa liberdade de consumir e aproveitar a vida.

Incômoda favela crescendo e estragando a vista do morro.

“Incômoda favela crescendo e estragando a vista do morro.”

Certamente Cuba não possui as respostas, e certamente é cheia de defeitos. Defeitos horríveis que eu não faço reservas (como esse texto mostra) na hora de levantar.

Mas devemos ter em mente, também, que o sistema instituído por Fidel Castro há décadas atrás não tem mais do que alguns anos de vida, e antes que ele desapareça de vez, devemos dedicar algum tempo a refletir sobre ele.

Devemos pensar o quanto não estamos a nossa maneira, vivendo em um tipo de ditadura também. Uma ditadura do capital. Que só não nos incomoda tanto (ainda que eu veja cada vez mais e mais amigos deprimidos com seus trabalhos) porque demos a sorte de nascer na posição privilegiada da pirâmide.

Devemos pensar o quanto não podemos aprender – como espécie – na hora de compartilhar um pouco o que temos, em vez de simplesmente fechar os olhos à realidade horrível que nos cerca e cresce ao nosso redor. E quem sabe não reclamar tanto na hora que lançarem o próximo programa social, ou tentarem instaurar um sistema de tributação pesado sobre riqueza extrema (algo que aliás muitas potências capitalistas, como a Alemanha, instituíram a anos).

Devemos ter cuidado na hora de falar de Cuba, porque nem tudo é o que parece. Nem tudo é tão preto no branco. Um pouco menos de corporativismo, e um pouco mais de consciência social que Cuba acabou desenvolvendo na marra, poderia sim fazer muito bem para nosso Brasil tão reacionário e duro com sua população pobre, que ainda é maioria absoluta.

Às vezes é melhor continuar se questionando do que estacionar na primeira resposta.