Nós, a “esquerda caviar”

Adaptação livre de texto original de Yuri Bossonaro

Desde que a velha “classe conservadora brasileira” saiu do armário, por assim dizer, e descobriu a internet e as redes sociais, tem se tornado cada vez mais popular em certos fóruns de discussão o velho termo francês: “Esquerda Caviar”.

O termo, um dos mais notórios argumentos “ad hominem” (aquele que ataca o interlocutor em vez da idéia) da atualidade brasileira, é um instrumento discursivo do debatedor conservador contra a suposta “incoerência” da classe média de esquerda que, mesmo tendo posses, defende maior justiça social. Em outras palavras: é uma tentativa de deslegitimar esta esquerda, na suposição de haver uma imensa “hipocrisia” em alguém que não é pobre estar preocupado com quem é.

Essa lógica sugere que a única possibilidade de “coerência” que resta à classe média é “defender os próprios privilégios”. A alternativa seria o “suicídio” da própria condição:

Empobrecer.

Funciona da seguinte forma: ou se defende integralmente a classe média (e, na verdade, de onde viria a iguaria emprestada como adjetivo – “caviar” -, a elite) ou é obrigação moral da suporta “esquerda caviar”, “deixar de ser” classe média. Abandonar a segurança financeira.

O que os usuários desse argumento ignoram é que a “esquerda caviar” não defende o empobrecimento geral da população, apenas a redução do imenso abismo entre os que têm demais (o que não é exatamente o caso da classe média ´intelectual´, do professor da USP, do comediante colunista da Folha, quanto é o caso de um Abílio Diniz ou Luciano Huck da vida, por exemplo) e os que não têm nada.

Isso não precisaria ser alcançado por meio de uma “revolução comunista” com consequências catastróficas e fome generalizada, como alardeiam os neo-paranóicos que não conseguem enxergar um meio termo entre o livre-mercado fora de controle e a russia soviética de Stalin. Poderia ser perseguido dentro dos limites da democracia, com medidas pontuais como a tributação sobre grandes riquezas por exemplo (adotada com sucesso em potências econômicas sólidas como a Alemanha ou a França), a ampliação de programas sociais e a garantia de alguns direitos generalizados (que aliás, todo país desenvolvido protege).

Consta

Se seguirmos a lógica proposta por Rodrigo Constantino e outros “jornalistas” da conservadora mídia brasileira, a unica possibilidade do ‘esquerda caviar” seria doar tudo o que é seu para os pobres. Até esse momento não haveria “qualificação moral” para tecer qualquer argumento político.

A classe média de esquerda intimida a elite dominante justamente porque ela tem voz, porque tem espaço na mídia, porque tem tempo e conforto o suficiente para questionar a sociedade, em vez de estar apenas se matando para sobreviver dentro dela. É conveniente que a unica forma de manter a coerência, para essa categoria, seja o sacrifício da própria condição.

E enquanto os profissionais assalariados de classe média praticam harakiri econômico para conseguir manter a coerência, os CEOs de impérios de comunicação, presidentes de empresas e diretores de banco ficam livres para receber seus salários de R$ 1.8 milhões por mês sem serem importunados.

Aliás, R$ 1.8 milhões não foi um valor inventado, era o salário do Luciano Huck até 2014 pelo menos, segundo notícia publicada no Terra (link no final do texto). Um salário de R$ 1.8 milhões poderia pagar 450 salários de R$ 4.000 . Claro que não funciona exatamente assim, mas a relação fica óbvia: Quantos Lucianos Hucks não estão segurando o salário da maior parte da população?

huck

Não dá exatamente para jantar caviar ganhando um salário de R$ 4.000, mas dá pra viver com dignidade, e é isso que é negado à maioria das famílias do Brasil para que alguns possam viver vidas de nobreza vitoriana.

Percebe-se logo que o “caviar”, dito no termo, refere-se a luxos que, sim, boa parte da “esquerda caviar” não tem e nem quer ter. Não queremos caviar, fazer compras no Cidade Jardim ou vários carros na garagem.

Aliás, preferimos uma boa comida de boteco, bater perna na Vila Madalena, morar perto do metrô e não precisar ter carro. Não queremos um segurança particular, preferimos que isso não seja necessário, porque uma sociedade mais justa é uma sociedade com menos crime. Não amamos os muros dos condomínios e dos shoppings, preferimos a democracia da rua, que é muito mais rica e interessante.

Não somos a “esquerda caviar”. No máximo, somos a “esquerda cerveja artesanal” (como brincou o Gregório), a “esquerda-apartamento-próprio”, a “esquerda-universidade boa”. Evidentemente não somos os exemplares da aristocracia “comam-brioches”. Na verdade, ESSES são os que cunharam o termo.

Não, eu não vou abrir mão do que eu considero que todos deveríamos e poderíamos ter. Quero que mais gente consiga ter isso. Nenhum de nós precisa de MUITO. Mas certamente também não é preciso que, para defender um Brasil mais justo, não tenhamos nada.

gregorio

Se a “esquerda caviar” for aquela que, na verdade, não come caviar, mas que pretende questionar e votar contra uma sociedade de privilégios, abusos e excessos que se pagam com miséria, “aceito essa pecha”.

Se ainda assim, isso for ser “incoerente”, para eles, também aceito. Até porque já dizia Woody Allen que a “coerência é o fantasma das mentes pequenas”.

LEITURA COMPLEMENTAR:

Sobre a incoerência da tributação do Brasil, que privilegia as grandes riquezas (Hucks, Setubals, Civitas e Marinhos da vida) e pesa sobre a maioria da população:

http://www.cartacapital.com.br/economia/mais-injusta-que-excessiva

Algumas palavras sobre o tipico usuário do termo “esquerda caviar”. Sobre ódio e desinformação:

http://www.cartacapital.com.br/politica/varrer-limpar-aniquilar-a-apologia-do-exterminio-venceu-a-eleicao-1813.html

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Os Cromossomos do Saara

Recentemente fui  a turismo para a Europa, e como todo brasileiro me deslumbrei com a beleza de suas cidades, com a riqueza de sua cultura, com a segurança de suas ruas. Encontrei por lá um querido amigo que está vivendo em Barcelona, e ele me mostrou outro lado da moeda e me fez levantar um questionamento que carreguei comigo pelo resto de minha viagem: Quem pagou o preço de toda essa civilização?

Meu amigo é um dos idealizadores do lindo projeto CROMOSSOMOS, desenvolvido em parceria com a ONG Palhaços sem Fronteiras. Eles estão organizando uma expedição entre os dias 27 de outubro e 13 de novembro para um remoto campo de refugiados saarauís, no norte da Àfrica, onde farão apresentações, espetáculos e oficinas de capacitação de palhaços para a população, além de registrar tudo em documentário. A idéia do projeto, além de levar esperança e alegria para uma população isolada e privada do mínimo (explicarei mais a seguir), é atrair atenção do mundo para essa região tão remota, além de capacitar refugiados para uma aptidão artística rentável quando eles puderem regressar para suas terras, algo que todos estão esperando ansiosamente.

CROMOSSOMOS

Intrigado por nunca ter ouvido falar do povo saarauí ou não ter a menor idéia de que “terras” são essas? Pois é, eu também não sabia nada sobre eles. Raramente um turista viajando pela Espanha, França ou outra nação mediterrânea na Europa para pra pensar no Norte da África, apesar de existir uma relação muito íntima entre essas regiões. Uma relação que somos capazes de compreender bem, porque também aconteceu conosco: Colonização. Erros cometidos no passado. Cicatrizes. Injustiças que perduram.

A diferença é que, a despeito das nossas injustiças, dos nossos problemas sociais, da nossa insegurança, pelo menos possuímos uma nação para chamar de nossa. O povo saaraui não: O Saara Ocidental é hoje a única região da África que não é independente, não possui seu status de país oficializado.

Resumindo bastante a história desse povo, os saarauís são um povo nômade que habitou a região do Saara Ocidental por séculos, e passou as ultimas  décadas sob os cuidados dos colonizadores espanhóis. Quando a Espanha decidiu, como fizeram as demais nações européias, “conceder a independência” da África, deixou  o povo saarauí à mercê da já independente nação de Marrocos, que marchou sobre o território desse povo e o clamou para si no que ficou historicamente conhecido como “Marcha Verde”. Esse território, o Saara Ocidental, além de rico em pesca (voltado para o Atlântico), é uma das maiores reservas naturais de fosfato do  planeta, além de potencial região de extração de petróleo.

Menina saaraui

A ocupação do território saarauí só foi possível porque a Espanha se omitiu em apresentar oposição a Marrocos, cedendo à pressão da França e dos EUA. Uma omissão consciente por motivos diplomáticos. Um intenso conflito envolvendo Marrocos, a Mauritânia e a Argélia se seguiu, e a discrepância de poderes logo  fez com que as lideranças saarauis – conhecidas como Frente Polisário- abandonassem qualquer esforço de luta armada e se resignassem às tentativas diplomáticas de solução do problema. Constantes abusos de direitos humanos por parte de Marrocos fizeram com que cada vez mais e mais saarauis cruzassem a fronteira com a Argélia, formando cinco imensos campos de refugiados onde vivem mais de 200.000 refugiados hoje. Pessoas instruídas, orgulhosas, unidas por um sonho em comum: Um dia voltar para casa.

O Marrocos construiu na região um gigantesco muro, com quase 3.000 km de extensão, e o cercou de minas terrestres, fazendo daquela uma das regiões mais perigosas do mundo. O muro, completamente ilegal, garante que os donos originais do Saara Ocidental fiquem isolados de sua terra, e garante ao Marrocos a continuidade da exploração do Fosfato. A posse da região garante ao Marrocos a posição de maior exportador de fosfato do mundo, sendo responsáveis por 30% da oferta mundial do produto (30 milhões de toneladas ao ano), utilizado principalmente como fertilizante. A Europa é responsável pela compra de grande parte dessa extração, mas o Brasil também é um grande comprador.

Mapa saara

Os refugiados saarauis são um povo gentil e educado, que valoriza a família e prega um estilo de vida simples. Surpreendentemente o grau de analfabetismo por lá é zero, pois todos estão esperando a hora de voltar pra casa e querem estar preparados quando esse dia chegar. Passam seus dias privados de saneamento básico, trabalho e acesso à água e comida, sobrevivendo da bondade dos poucos que chegam até eles.

Campo de cima

Se a omissão em nome da diplomacia foi a grande responsável pelo inicio dessa grande injustiça., a exploração do fosfato, e os interesses econômicos de toda a Europa e do mundo na continuidade de sua exploração por Marrocos, hoje garantem que essa imensa injustiça se mantenha. Nossos campos e plantações são fertilizados com a esperança de um povo, sem que ninguém tenha a menor idéia do que esta acontecendo.

Ao passearmos pelas lindas Ramblas de Barcelona, é fácil não pensar na África. É fácil não pensar na sua violenta e arbitrária divisão, na sua predatória – ainda nos dias de hoje – exploração, nos muitos povos marginalizados e sofrendo injustiças, entre os quais figuram nossos amigos saarauis. Não pensamos nisso, pois sequer sabemos a respeito. Está longe demais de nosso alcance. Não se fala nisso nas brochuras dos pacotes turísticos, ou nos livros didáticos que estudamos no colégio. Não há espaço nos jornais para todos os povos esquecidos do mundo, como saberíamos algo sobre um povo pequeno e perdido no deserto?

Meu principal ponto aqui é mostrar como uma breve conversa com um amigo vivendo fora de seu contexto, levando um estilo de vida diferente do que eu estou acostumado, já revelou todo um universo de pessoas necessitadas, de opressão, de abuso de direitos humanos, escondido por baixo do tapete em minha bela e confortável viagem pela Europa. Quantos outros casos como esse não existem?

Quanta injustiça não persiste à sombra de nosso conforto, escondida por trás do palco que foi montado para enxergarmos o mundo? Ao elogiarmos a beleza da civilização construída por um país desenvolvido que visitamos, seja ele EUA ou qualquer lugar na Europa, raramente pensamos no custo daquela beleza toda para dezenas de países oprimidos por eles.

Existe um palco armado, e existe todo um sistema que se beneficia de nosso desconhecimento a respeito dos problemas do mundo. Porque no final das contas, quando as pessoas entendem sua relação com o meio e refletem sobre a conseqüência de suas ações, algo muda.

As pessoas se importam.

Uma condição imprescindível para que nosso atual sistema, baseado em troca de bens e serviços e intenso acúmulo de capital (e inevitável criação de injustiça), funcione, é a visão limitada de cada integrante dessa cadeia de seu papel no todo:

  •  O explorado não pode se ver como vítima. Ele precisa almejar um lugar entre os privilegiados, e acreditar que com sacrifício e trabalho duro, um dia ele chega lá.
  • O explorador não pode se ver como opressor. Ele precisa acreditar que merece a condição que possui, que a conquistou, e que se há muita gente passando necessidade é uma condição inevitável.

 

Por outro lado, quando essa barreira é quebrada e entramos em contato com um povo necessitado, explorado, marcado pelo abuso e pela violência, é estabelecido um contrato vitalício entre as duas partes. Consciência é uma via de mão única.

A maior importância de grupos como os CROMOSSOMOS, de projetos como os da ONG Palhaços sem Fronteiras, é quebrar essa barreira que separa o nosso mundo – o mundo das relações de capital – e o mundo que existe por baixo, silenciosamente pagando nossa conta sem que sequer notemos.

Rua campo refugiados saaarauis

A questão Saharaui segue sendo uma das situações socialmente emergenciais mais desconhecidas do resto do mundo, mas não precisa ser assim. A situação pode ser revertida, e pela primeira vez na história – devido à internet e às redes sociais – temos condições de quebrar essas barreiras e lançar luz a essas pessoas esquecidas. Nunca foi tão impossível alegar inocência, ou desconhecimento, mas também nunca foi tão fácil fazer alguma coisa.

Vivemos em uma era onde podemos questionar as marcas que usamos, os alimentos que comemos, o meio de transporte que escolhemos. Podemos assumir a responsabilidade, na hora de votar, na hora de consumir, na hora de exigir que os governos mais poderosos assumam a responsabilidade pelos estragos feitos em sua história. Somos um povo mestiço. Colonizado. Marcado. Sabemos o que é isso.

Quis escrever esse texto primeiramente para divulgar o belo trabalho de meus amigos, e convidar meus leitores a conhecê-lo mais a fundo (a expedição vai acontecer mais ainda precisa de ajuda). Em segundo lugar, gostaria de convidar todos os leitores a refletir, em suas próximas viagens, ou mesmo em seu dia a dia, que mundos não existem às sombras do que chamamos de realidade, desconhecidos aos nossos olhos e ao nosso coração.

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Para conhecer mais sobre a expedição dos CROMOSSOMOS que vai acontecer no Saara ainda esse mês:

http://www.catarse.me/pt/cromossomos2014

https://www.facebook.com/cromossomos2014

Para saber mais sobre o povo saaraui e sua luta para voltar pra casa:

http://www.bizzentte.com/2012/10/hijos-de-las-nubes-2012-documental-canal-sahara-espanol/

http://mundorama.net/2010/01/21/a-dificil-e-esquecida-questao-do-saara-ocidental-por-pio-penna-filho/

http://xadrezverbal.com/2014/09/10/saara-ocidental-quando-a-hipocrisia-e-o-pior-inimigo/

http://www.ufrgs.br/sebreei/2012/wp-content/uploads/2013/01/Rodrigo-Duque-Estrada-Carla-Ricci.pdf

http://removethewall.org/

http://www.anba.com.br/noticia_corrente.kmf?cod=12279907&indice=70

 

 

 

Ideologias a parte: Uma reflexão necessária

Como eu previa, uma vez passada a benéfica (e surpreendente) multipolarização do debate político pré-eleições de outubro, desde o segundo turno voltamos ao bom e velho PT versus PSDB, e como não poderia deixar de ser, aos bons e velhos jargões dividindo o mundo entre santos e demônios.

No meio de tanta informação, acredito que dois pontos essenciais ao debate político no Brasil têm sido ignorados – ou deixados em segundo plano – por muitas pessoas, e achei pertinente escrever um texto específico sobre eles. Acredito que as informações relatadas nesse texto serão úteis independentemente da ideologia do leitor, e devem ser seriamente considerados:

  • Sobre os apoiadores de campanha

A verdadeira briga por uma mudança radical na política brasileira já aconteceu, e nós perdemos.

Não, não estou falando da Marina. Ela podia representar muita coisa, mas definitivamente não representava uma “nova política”.

No Brasil, o financiamento irrestrito de candidaturas por parte de imensas empresas privadas, faz com que, não interessa realmente quem seja eleito, os interesses de uma pequena minoria de empresários SEMPRE vão prevalecer sobre os do resto da população. Marina, Dilma e Aécio, os três principais candidatos das ultimas eleições, são nesse sentido muito parecidos, os três receberam financiamento massivo da parte das mesmas empresas (que querem assegurar seus interesses independentemente de quem suba ao poder).

Friboi, Itaú, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Camargo Correia, OAS, Unilever.

Os poucos candidatos que propunham mudanças radicais, especialmente Luciana Genro (que propunha o fim do financiamento privado das candidaturas), ficaram pra trás e o segundo turno das ultimas eleições foi basicamente a briga entre dois titãs financiados pelo interesse do capital privado, muitas vezes inclusive pelas mesmas empresas.

Esses candidatos possuem visões de Brasil bem distintas, esse blog jamais escondeu seu viés à esquerda, mas é vital a compreensão de que, não importa qual o desfecho das últimas eleições (ou qualquer eleição futura) sem que sejam feitas mudanças estruturais radicais para interromper essa estrutura de patrocínio que existe atualmente.

A única forma de reverter a corrupção institucionalizada é defender o “fim do financiamento privado” nas campanhas, apoiada por alguns políticos e sustentada como bandeira, sobretudo pelo PSOL e outros partidos menores que só aceitam doações de PESSOA FÍSICA.

Fazer política no Brasil, enquanto essa situação não mudar, continuará sendo ocupar o espaço público. Protestar. Ir além das urnas e suas limitadas (e comprometidas) alternativas. Isso é um fato inegável, que não tem recebido a ênfase adequada na abordagem da grande mídia por razões óbvias, já que ela também está altamente comprometida com os mesmos grupos financeiros.

Mais sobre esse assunto:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/08/1496943-tres-empresas-bancam-65-da-arrecadacao-de-presidenciaveis.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2014/10/1525451-eles-venceram-outra-vez.shtml

GraficoEleicoes2014Financiadores

2) Sobre a mídia:

Em um momento chave para a história da política em nosso país, com tantos embates ideológicos e gente replicando e reproduzindo opiniões a torto e direito, é necessário que façamos uma reflexão sobre a origem dessas opiniões. De onde vêm as informações que usamos como referência para nossas decisões políticas?

Até pouco tempo atrás, não existia rede social, e absolutamente 100% da nossa informação era precedente de um só lugar: A grande mídia convencional. É a informação proveniente dela que construiu as bases de nosso pensamento político nos últimos anos, ou décadas. É a informação proveniente dela que formou a opinião de nossos pais, de nossos avós, dos dirigentes das empresas onde trabalhamos: Uma opinião predominantemente conservadora.

O império midiático brasileiro está essencialmente nas mãos de quatro famílias: Família Civita (Grupo Abril), família Mesquita (Grupo Estado), família Oliveira (Grupo Folha) e família Marinho (Organizações Globo). Juntos eles concentram mais de 80% de todo o mercado midiático do país, e com ele toda a informação que circula e com a qual você forma sua opinião.

Victor-Civita

Esse oligopólio é extremamente nocivo para a verdadeira democracia de um país, e já foi alvo de repreensões da ONU em mais de uma ocasião:

http://reporterbrasil.org.br/2013/03/relator-da-onu-para-liberdade-de-expressao-critica-concentracao-de-midia-no-brasil/

Toda vez que se fala em “regularização da mídia” no Brasil os quatro grupos, por razões óbvias, fazem um grande alarde e histericamente bradam contra a censura de imprensa, fingindo defender a sua, a minha, a nossa liberdade de expressão. Na verdade o que estão defendendo é o monopólio midiático que ostentaram durante as ultimas décadas, o que lhes concedeu o poder para manipular os rumos da nação (ou pelo menos, influenciar consideravelmente).

Não é interessante como nessa ultima eleição se falou mais em “financiamento privado de campanhas” do que em toda a história da política brasileira ate agora? Não é interessante como as revoltas de junho floresceram justamente no auge da rede social Facebook, depois de décadas de insatisfação com a política? A cortina de ferro do monopólio da informação foi rompida com o advento das redes sociais, pelo menos uma pequena brecha nele, e subitamente o mundo começa a não parecer tão preto no branco assim…

Não é segredo que a mídia assumiu um papel político muito além da simples “informação”. Seus próprios dirigentes assumem – claro, não em notas oficiais – seu papel como oposição, como influenciadores dos eventos. Alguns mais que outros.

Civita admitiu a Mino Carta que são o único verdadeiro partido de oposição nesse país:

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2014/09/27/melancolico-fim-da-revista-veja-de-mino-a-barbosa/

Boni admitiu que a Globo manipulou os debates para garantir eleição de Collor contra Lula 22 anos atrás:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/11/apos-22-anos-boni-admite-que-globo.html

Isso não torna a mídia tradicional uma vilã, claro que não. Mas devemos enxergar essas empresas como o que elas realmente são: Empresas. E os veículos publicados por elas como o que eles realmente são: Produtos. Que devem ser avaliados e muitas vezes questionados. A internet está aí, nunca foi tão fácil buscar uma segunda, uma terceira opinião, quando o assunto for sério.

Nos últimos anos, ao longo de sua gestão no executivo, o PT se envolveu profundamente na corrupção que sempre existiu no nosso país, mas os grupos midiáticos brasileiros tem fomentado uma certa indignação seletiva que tornou parte da população cega aos pecados e absurdos cometidos pela oposição.

Escutei em mais de uma situação pessoas defendendo Eduardo Cunha, acusado de pedir propina de R$ 10 milhões e um dos principais investigados da Operação Lava Jato, só por ele apresentar oposição ao PT. Ora, que indignação à corrupção é essa, que condena e absolve com tamanha arbitrariedade?

Isso não significa que muitas das acusações ao PT que são publicadas não sejam verdadeiras. Mas a forma como elas são enfatizadas e reproduzidas à exaustão, enquanto acusações à oposição são relegadas à nota de rodapé (que atenção recebeu a Privataria Tucana, o Trensalão ou o Mensalão Mineiro do PSDB?) cria na população uma interpretação falaciosa da realidade, a ilusão de que existe um único inimigo a ser combatido. Isso direciona a indignação da população, como uma boiada sendo tocada, e garante que o atual sistema de privilégios e corrupção se mantenha praticamente inalterado. Muda apenas a pessoa sentada no “trono” da vez.

_______________

A moral da história é: Tenha a posição política que você quiser (vivemos em uma democracia afinal de contas). Mas tenha em mente de que existem forças atuando por trás dos panos, com objetivos próprios e agendas particulares, e que existe muito mais em jogo aqui do que um simples: “Tirar de jogo o maldito PT e começar a mudar a política no Brasil”.

Votando em quem for votar, defendendo o que for defender, lembre-se sempre de estar vigilante, e ter certeza de que a idéia que está replicando por aí é realmente sua.

Desabafo sobre uma amiga

Por Kaká Simurro

……

Tenho uma amiga precisando de ajuda, mas não sei mais como ajudá-la.

Ela está com um cara há muitos anos e não consegue perceber o grande pilantra que ele é. Ele faz a banca de bom moço, mas qualquer um que presta um pouco mais de atenção percebe que ele é uma péssima pessoa.

Um pessoa completamente dissimulada, ele não faz nada que promete para ela, mas quando ela vai reclamar, ele a manipula prometendo mais um monte de coisa que nem ela acredita que irá cumprir.

Ele é violento! Acha que tudo se resolve na agressão física e chama os amigos pra descer porrada em quem o incomodar. Se um dia ela o incomodar, porrada nela também!

Ele é interesseiro, só pensa em dinheiro e gostaria mesmo que pessoas que não tem a mesma grana que ele parassem de importuná-lo.

Já a traiu várias vezes, mas ele é bom em apagar “os rastros” (faz amizade com as pessoas certas). Eu já mostrei fotos, evidências, provas concretas do canalha que ele é, mas ela pediu pra eu parar de me meter na relação dos dois.

Uma vez em uma conversa ela deixou escapar que não considera ele o cara ideal, mas acha que nunca vai encontrar alguém realmente bom e por isso deixa do jeito que está, mas a verdade é que ela nunca parou para olhar para os outros e ver de fato quais opções existem por aí.

Ontem eles tiveram uma DR, e como já era de se esperar, eles decidiram que vão continuar juntos. Não consigo mais assistir essa relação doentia. Prefiro me afastar.

Ela: sociedade paulista
Ele: Governador Geraldo Alckmin

bandeira

Cinco mitos sobre a questão de Israel

“As guerras dizem que ocorrem por nobres razões: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da civilização ou a vontade de Deus. Nenhuma tem a honestidade de confessar: ‘Eu mato para roubar’”.

– Eduardo Galeano

Conversar sobre Israel e Palestina ultimamente tem sido muito chato. Três semanas de ocupação, 53 soldados israelenses e 1.200 palestinos mortos depois, ainda é difícil participar de uma conversa sobre o assunto sem esbarrar em algum clichê que acaba com a conversa prematuramente. Pior: Ainda é impossível falar sobre o assunto sem ofender alguém.

Enquanto pisamos em ovos para não ofender nossos amigos, enquanto as nações unidas pisam em ovos para não ofender os EUA, a pilha de corpos cresce (Especialmente do lado palestino. Não vou fingir imparcialidade) e questões essenciais não estão sendo discutidas por causa de mitos, tabus ou pré-conceitos.

Sem intenção de esclarecer décadas de conflito em um texto de poucas páginas, procurarei pelo menos enumerar alguns desses mitos na esperança de elevar um pouco o nível do debate.

Abaixo enumero os cinco maiores mitos, e porque os considero falaciosos:

MITO 1 – ISRAEL ESTÁ APENAS REAGINDO A UMA OFENSIVA DO HAMAS. SE O HAMAS PARASSE OS ATAQUES, HAVERIA PAZ NA REGIÃO

O argumento predominante entre os que defendem as ações de Israel em Gaza costuma ser o de que o Governo Israelense quer paz, está apenas defendendo seu povo do Hamas.  “Se o extremismo do Hamas não ameaçasse a população israelense, a paz reinaria.” Alguém provavelmente te encaminhou esse vídeo nas ultimas semanas:

https://www.youtube.com/watch?v=daLF1AFs5AM

Esse argumento exige certa amnésia da parte das pessoas, pois uma rápida busca no Google vai confirmar que, na guerra ou na “paz”, Israel está constantemente se expandindo sobre território palestino.

Israel tem se expandido desde a guerra da independência (1948) . Essa expansão tem se dado alternadamente por meio de ocupações militares (como a que está acontecendo agora) e invasão de colonos (durante os períodos de paz). Com ou sem o pretexto da autodefesa, Israel continua avançando, e basta uma rápida olhada em um mapa para verificar a violência dessa expansão:

MAPA PALESTINA

(clique na imagem para expandir)

Para explicar como funciona a ocupação de território palestino por colonos: Resumidamente, é como se você acordasse um dia e uma imensa porção do terreno de sua casa tivesse sido simplesmente cercada por um fazendeiro estrangeiro, que começou a construir um muro em volta. Só que esse invasor não é considerado um criminoso, ele é protegido pelo exército e ganha automaticamente direito a aquela terra, como se ela nunca tivesse sido sua.

A imensa maioria da expansão de Israel, que você pode ver acima, se deu dessa forma. Não por conflitos militares. Não por reação a um ataque, seja ele do Hamas, do Fatah ou de qualquer célula terrorista independente.

Como essa expansão é extra-oficial, é incentivada e financiada, mas não é organizada pelas autoridades israelenses, o território palestino foi basicamente estilhaçado. A palestina virou uma série de faixas de terra intercaladas por corredores e muros de Israel.

Para visitar sua família em outra região de Gaza, um palestino precisa às vezes passar por dois ou três controles de fronteira. Com os passaportes sempre vencidos (já que eles são concedidos pelo governo israelense), nada resta para um palestino a não ser contar com a boa vontade de alguém do exército, ou então se resignar ao pequeno espaço que lhe foi conferido. Como uma pequena prisão. Como um gueto.

Outra conseqüência desse recorte desordenado de territórios é a interrupção de serviços básicos, como água e eletricidade. Mesmo saneamento básico muitas vezes é negado aos habitantes dessa região, onde se passa fome, se morre de epidemias, onde falta escola, hospital e o mínimo necessário para que o povo palestino viva com dignidade. Não estamos falando de dois países e uma fronteira tensa: Estamos falando de um país e alguns guetos ilhados e separados dentro desse território.

Aos interessados em entender mais sobre o assunto, recomendo como introdução o vídeo abaixo (infelizmente não tem legendas):

https://www.youtube.com/watch?v=eCo4MHM72e8

Ao que tudo indica, o que o governo israelense espera é que o povo palestino aceite passivamente uma expansão que acabará em poucos anos com o que restou de seu território.

Note que sobre essa ótica, as atuais agressões palestinas contra Israel – não estou emitindo juízo de valor aqui – não são ataques contra a cultura judaica ou contra o povo judeu, mas reações a uma lenta e contínua invasão israelense.

É claro que depois de tantos anos, existe anti-semitismo. É claro que existe uma questão religiosa. Mas esse não é o ponto principal. Nunca foi. No fim das contas, o que importa é a terra.

Claro que o governo israelense não vai convencer seu povo a apoiar suas ações se contar essa história. Para que apenas sua versão seja contada, temos cada vez mais visto censura à imprensa e controle da informação que entra e sai daquela região. A reportagem abaixo relaciona diversos casos de censura a jornalistas nas ultimas semanas:

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/07/jornalistas-gaza/

Na dúvida, meu amigo. Questione.

MITO 2 – ISRAEL É UMA NAÇÃO TIRANA QUE REJEITA UNILATERALMENTE O ISLAMISMO

Esse mito está entrando na moda agora, depois de centenas de fotos de crianças palestinas mortas invadiram a rede e fizeram Israel perder a guerra de “relações públicas”. Muita calma nessa hora. Nada pior para qualquer debate do que maniqueísmos, simplificações superficiais sobre o “bonzinho” e o “malvado” da história.

Justiça seja feita, assim que foi constituída (mais precisamente em 1948), Israel foi atacada violentamente pelos países árabes (Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, etc) em seu entorno, que rejeitaram a imposição arbitrária do governo britânico à criação do estado judaico. Foi uma guerra violenta, onde 1% da população do recém constituído país morreu.

Essa ameaça original plantou as sementes do que se tornou hoje o nacionalismo israelense e a cultura da ameaça externa que norteia – e procura justificar – suas ações.

Nos anos seguintes Israel se recusou (na maior parte do tempo) a negociar com a OLP (liderada por Yasser Arafat, filiado ao Fatah) devido aos atos terroristas que ocorriam ocasionalmente, mas isso aparentemente se mostrou um erro. Em 2006, a flor em uma mão e fuzil na outra de Arafat foram substituidos pelo lança torpedos do Hamas e a paz nunca pareceu tão distante para Israel.

O Hamas, diferente do Fatah, não aceita a existencia de dois estados distintos: Ela quer o fim de Israel. Dentro do Hamas existem discursos mais moderados – que clamam pela criação de um estado unico e democrático (o que não seria um má idéia, se eles forem capazes de respeitar isso) – e discursos mais extremos e antissemitas, é claro.

Esses discursos só ganharam voz – e espaço – entre os Palestinos depois de décadas de violência e expansionismo. A história de repete, e da mesma forma que os EUA criaram seus próprios monstros em Bin Laden e Saddan Husseim, o Hamas é o pequeno monstro de Frankenstein criado pela truculência do governo Israelita ao longo das ultimas décadas, pela vista grossa (e até incentivo) feito à expansão dos colonos sobre território palestino. O pequeno grupo extremista se tornou a ultima linha de defesa de um povo sitiado e desesperado.

As lideranças do Hamas já declararam abertamente a intenção de destruir israel, já clamaram pela morte do povo judeu. Isso é fato. É evidente que Israel está colhendo o que plantou nas ultimas décadas, e também é evidente que está conduzindo o problema de forma desastrada hoje, mas não podemos simplesmente ignorar esse contraponto. Para entender um pouco mais o lado israelita, sugiro esses dois excelentes textos sobre o assunto:

http://www.samharris.org/blog/item/why-dont-i-criticize-israel/

http://www.huffingtonpost.com/ali-a-rizvi/picking-a-side-in-israel-palestine_b_5602701.html

Israel tem o poder para matar 100% da população palestina em uma semana, se realmente quiser. Se isso não está sendo feito, é porque não há uma INTENÇÃO de fazê-lo. A liderança do Hamas, por outro lado, já declarou abertamente que faria isso se pudesse, e quando alguém declara suas intenções de cometer genocídio, devemos prestar atenção. Então devemos ser cuidadosos, pois avaliar a questão ignorando o lado de Israel é um erro tão grande quanto defender Israel incondicionalmente.

Acalmados os ânimos, vamos pensar juntos… goste ou não disso, Israel tem que lidar com o Hamas, e não é possível destruí-lo sem destruir Gaza. A cada missil lançado sobre Gaza, o Hamas ganha mais apoio, seu discurso de ódio é mais fortalecido. Imagine-se chegando em casa e descobrindo sua família inteira morta por um bombardeio, enquanto jantava, ou dormia, ou coisa que o valha. Você não se tornaria um extremista da noite para o dia?

Ao menos que a idéia de um estado único (defendida por muitos) vá pra frente, Israel sempre precisará guardar suas fronteiras com atenção, sempre deverá olhar por cima do ombro no que concerne seus vizinhos.

A paz não será obtida por meio de mísseis, a unica alternativa se seguirmos nessa direção será o exterminio completo da população palestina.

Ninguém em sã consciência condenaria Israel por querer proteger suas fronteiras, especialmente com um inimigo como o Hamas batendo na sua porta. Condenar a expansão constante dos colonos israelenses sobre Gaza, condenar o bombardeio incessante que ceifa milhares de vidas inocentes, isso já é outra história.

MITO 3 – EXISTE UM POVO QUE DEVE OCUPAR AQUELA TERRA POR DIREITO HISTÓRICO

Não existe um “dono original” para nenhuma terra do mundo. A humanidade surgiu na África, próxima à região onde hoje fica a Etiópia, e desde então tem se expandido por todo o Globo, ocupando regiões, batalhando entre si por terra. Se regredirmos a história da região onde hoje fica Israel, a Palestina, a Jordânia e o Líbano, poderemos contar centenas e centenas de “povos originais” que poderiam clamar para si o direito por aquela terra.

Filisteus, Turcos otomanos, Árabes, Britânicos, Hebreus, Egípcios e Cruzados vindos da Europa. Dezenas de povos clamaram aquela terra para si ao longo dos últimos séculos. O vídeo abaixo mostra um pouco da complicada história dessa sangrenta região, e revela como qualquer simplificação sobre um “dono por direito” dela é falaciosa:

http://blog.ninapaley.com/2012/10/01/this-land-is-mine/

Discutir quem é o dono original daquela região é inútil. Existem israelenses. Existem palestinos. Ao menos que alguém tenha um plano excelente para criar um novo continente do nada e remover toda uma população para ele, teremos que lidar com esse fato e encontrar um lugar para todas essas pessoas viverem.

Na minha opinião esse lugar deve ser um estado. Único. Laico. Democrático. Isso devia ter sido articulado a 60 anos atrás, e esta a cada dia mais dificil, mas talvez seja a única alternativa a essa altura do campeonato, já que recuar Israel para as fronteiras originais de 1947 parece fora de questão.

MITO 4 – TODO JUDEU APOIA A POLÍTICA DE ISRAEL. QUEM VAI CONTRA ISRAEL FAZ ISSO POR SER ANTISSEMITA.

Poucas coisas matam uma conversa tão rápido quanto uma acusação de racismo. E quando não há argumentos, a forma mais rápida de acabar com uma conversa é desqualificar o interlocutor.

Pra começo de história, a ocupação em Gaza não é consenso nem mesmo entre os israelenses, como às vezes se pensa por aí. Entre a população de Israel, sobretudo entre os jovens, um movimento de resistência cada vez maior tem florescido.

Ainda sem tradução, esse lindo manifesto do grupo “Boycott from Within” deixa claro que muitos israelenses consideram o que seu governo está fazendo um verdadeiro massacre:

http://boycottisrael.info/content/citizens-israel-charge-israel-genocide

Acompanhamos manifestações em Tel Aviv na semana passada que reuniram quase 10.000 pessoas:

Protestos Tel Aviv

http://www.haaretz.com/news/national/1.607311

A todo o momento nascem novos grupos de judeus solidários aos palestinos e contrários à opressão do estado israelense em Gaza, como os Combatentes pela Paz, o Rompendo o Silêncio (formada por ex-soldados israelenses) e o Voz Judaica pela Paz, cuja página do Facebook tem sido uma excelente fonte de informação nas ultimas semanas:

https://www.facebook.com/JewishVoiceforPeace?fref=ts

Em março desse ano um grupo de 60 jovens israelenses se recusou a cumprir o serviço militar obrigatório do país, alegando que “preferem ir para a prisão a servir a um exército que comete crimes”.

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/jovens-de-israel-recusam-exercito-melhor-ir-para-a-prisao,0ef0e57639ca4410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Recomendo que todos assistam a declaração do grupo “Young Jewish and Proud” onde a juventude israelense faz um apelo aos jovens judeus de todo o mundo para que se orgulhem de sua herança e de sua história, mas que levantem sua voz contra as atrocidades que o governo israelense está cometendo:

https://www.youtube.com/watch?v=BAV-3-AqP9M

Por fim, gostaria de citar o Dr. Norman Finkelstein, judeu, um dos maiores estudiosos na questão palestina, cuja familia toda (inclusive os pais) estiveram em campos de concentração na segunda guerra. Recomendo fortemente essa palestra dele (abaixo o link para a primeira parte, com legendas):

Falar contra a atual política externa de Israel não é racismo, não é rejeição à cultura judaica, ao povo judeu ou coisa que o valha. É uma questão de lógica, e bom senso, e pessoas de qualquer religião ou nacionalidade deveriam poder fazer isso sem sentir que estão ofendendo qualquer um.

Por outro lado, as ações de Israel não podem nunca justificar anti-semitismo ou rejeição ao povo e cultura judaicos. São ações de um governo, movidas por interesses econômicos, e que não devem representar a máxima expressão de um povo nesse mundo. Nunca. Eu temo que as ações de Israel acabem despertando nas pessoas um preconceito destrutivo, da mesma maneira que os EUA de George Bush despertaram no mundo um anti-americanismo que nunca levou a lugar nenhum.

Existe, especialmente na juventude israelense, uma crescente clareza de idéias e intenção de paz. Ainda é uma minoria, é verdade, mas apenas o debate e a reflexão provocarão mudança.  Acredito que nessas pessoas, nesses jovens, reside a maior esperança de uma solução a esse conflito. Israel vai ter que mudar de dentro pra fora.

MITO 5 – ISRAEL NÃO ESTÁ FAZENDO NADA ERRADO. GUERRA É GUERRA E ELES SIMPLESMENTE SE PREPARARAM MELHOR.

De um lado, temos uma nação pequena, porém militarmente poderosa, apoiada pelo país mais rico e militarmente desenvolvido do mundo, dotado de poder de voto na ONU.

Do outro, um território que não é sequer reconhecido como membro das Nações Unidas (apenas estado observador), portanto não pode garantir sua soberania nacional perante os demais países. Tecnicamente, nem mesmo é um país.

É lugar comum afirmar que a única solução possível para o conflito entre Israel e Palestina é um acordo que garanta a soberania dos dois territórios. É lugar comum afirmar que tem gente morrendo dos dois lados, que a guerra prejudica a todos, que a paz é tão urgente e necessária em nome de um lado, quanto do outro.

O problema é que existe uma desproporção tão imensa entre os dois poderes aqui discutidos, que não se pode chamar o que está ocorrendo de guerra, e sim de massacre.

A tabela abaixo relaciona as casualidades civis no conflito entre Israel e Palestina entre 1987 e 2010 e mostrará melhor o que estou dizendo:

CASUALIDADES ISRAEL X PALESTINA

(clique na imagem para expandir)

O Hamas realmente usa a população de escudo, dispara mísseis de escolas, hospitais, etc. Mas bombardear esses hospitais e escolas em retorno não é um caminho razoável, não é uma tática justificável.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/o-ataque-covarde-contra-4-meninos-palestinos-numa-praia-de-gaza.html

http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/israel-bombardeia-escola-usada-como-abrigo-da-onu-em-gaza,4ab5c008cfd57410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html

http://www.reuters.com/article/2014/07/30/us-mideast-gaza-idUSKBN0FV04A20140730

Estatistícas mostram que uma criança palestina é morta pelo exército israelense a cada 3 dias nos ultimos 13 anos:

http://www.globalresearch.ca/one-palestinian-child-has-been-killed-by-israel-every-3-days-for-the-past-13-years-2/5389498

É claro que o governo israelense não quer, ativamente, massacrar crianças (algo, diga-se de passagem, que não deve ser um problema para o Hamas, se essas crianças forem judias). Mas é isso que está acontecendo.

E é isso o que acontece sempre que um país poderoso invade um país fraco, e estabelece que a casualidade civil seja um sacrifício aceitável para se atingir certo objetivo. Não há desfecho diferente com esse tipo de pensamento.

Claro que em uma guerra pessoas morrem. É claro que se um lado for mais poderoso, produzirá mais casualidades e sofrerá menos baixas. Mesmo se julgarmos os motivos dos dois lados igualmente justos, mesmo se assumirmos que o Hamas faria pior com Israel se assim pudesse, há um limite para o aceitável, e o governo israelense ultrapassou esse limite.

Só há um fim possível para essa situação: O massacre completo do povo palestino e a resignação dos poucos sobreviventes a uma vida miserável em uma terra ocupada.

 

CONCLUSÃO

Ao atacar os cinco principais mitos sobre a questão do oriente médio, eu procurei contar uma história. A história da criação desastrada de um estado, de uma guerra que tem durado décadas e de um capitulo final, ainda por ser escrito, que se deixada aos cuidados atuais acabará narrando um massacre.

Não o massacre de um povo por outro. O povo israelense, em sua maioria, quer a paz. O povo palestino, em sua maioria, quer a paz também.

Terá sido o massacre perpetrado por um estado (dotado de interesses econômicos geralmente ocultos de seus eleitores), justificado por um trabalho intenso de propaganda, vendido para sua população (e para o mundo) como o único caminho.

A comparação com o nazismo – respeitadas as devidas proporções – é inevitável.

Estive em Auschwitz pessoalmente a oito anos atrás, e até hoje não me recuperei completamente da visão das montanhas de sapatos de judeus exterminados naqueles campos (ainda expostos), nem das marcas de unha nas paredes de uma câmara de gás, que eles mantém conservada por lá.

Gosto de pensar que evoluímos como espécie desde aqueles tempos sombrios, que aprendemos com nossos erros, que estamos avançando. Tenho esperança de ver, ainda em vida, uma conclusão para os palestinos diferente do extermínio, da completa ocupação, do holocausto.

Acredito que a semente da mudança já está plantada, em solo israelense, e que a própria juventude judaica que lá reside irá se erguer contra a tirania de seu governo, contra os fantasmas de seus antepassados, e mudará os rumos dessa história tão terrível. Acredito que eles poderão estender seus braços à oprimida população palestina, para que eles não precisem contar com o Hamas como sua ultima linha de defesa. Para que eles possam, por sua vez, rejeitar o discurso de ódio do Hamas.

Acredito que a memória do que é ser oprimido, que parece ter pulado algumas gerações, voltará a brilhar nessa juventude.

No entanto, isso levará algum tempo. Netanyahu – ou outro governante com o mesmo pensamento que ele – governará Israel por muitos anos ainda, e seu governo poderá marcar a extinção dos palestinos se não houver pressão internacional para que a ocupação seja interrompida AGORA.

Por esse motivo, cabe a nós, católicos, judeus, budistas, ateus, seres humanos enfim, fazer o possível para lançar um pouco de luz, um pouco de razão, a esse debate ainda tão evitado, tão cheio de tabus. A contagem de corpos continua aumentando, e simplesmente não há mais tempo.

 

LEITURA COMPLEMENTAR:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/nao-ha-culpa-coletiva-na-faixa-de-gaza-6583.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/11/eduardo-galeano-israel-gaza-direito-de-negar-todos-os-direitos.html

http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/07/11/the-lopsided-death-tolls-in-israel-palestinian-conflicts/

http://palsolidarity.org/2013/07/interview-with-ilan-pappe-the-zionist-goal-from-the-very-beginning-was-to-have-as-much-as-palestine-as-possible-with-as-few-palestinians-in-it-as-possible/

http://www.chomsky.info/books/dissent01.htm

http://mondoweiss.net/2014/07/israels-actions-unjustified.html

Carta Aberta a Fernando Haddad

Prezado Sr. Fernando Haddad,

Lendo as notícias da semana a respeito do altíssimo índice de rejeição a sua gestão (que atingiu a casa dos 47%) eu me senti impelido, quase obrigado mesmo, a escrever essa carta aberta que estou publicando em meu blog.

Antes de qualquer coisa, vamos jogar limpo (diferente dos ditos ‘veículos imparciais de mídia’ que operam em nosso país): Minha inclinação política tende à esquerda, mas eu não sou petista. Aliás, acho que nunca serei “ista” para partido algum. Tenho procurado cada vez mais olhar para o candidato em vez de para o partido, renegando aquela noção de que “nenhum político presta”. Dito isso, uma confissão: Sou seu fã.

Votei em você sem saber quase nada a seu respeito, admito, simplesmente porque não queria de jeito nenhum ver José Serra prefeito de minha cidade. Mesmo assim, marchei nas ruas contra o aumento da passagem de ônibus, admito novamente, e durante esse período assumo ter ficado com raiva de você. Claro que eu fui injusto, aquele ajuste devia estar programado faz muito tempo (e você tinha acabado de chegar), mas você sabe como essas coisas são…

Minha primeira surpresa positiva veio logo depois: A polícia do Alckmin não parou de dar porrada, a tal reforma política anunciada pela Dilma em rede nacional acabou não acontecendo, mas as passagens voltaram ao preço anterior.

Desde então comecei a prestar mais atenção em sua gestão, e comecei a perceber que pela primeira vez desde que eu me lembro por gente, temos em São Paulo um prefeito que trabalha. E minha cidade começou a mudar:

  • Artistas de rua – antes considerados marginais – ganharam seu espaço.
  • Os incríveis e criativos Food Trucks (que toda cidade grande do mundo possui e São Paulo proibia) foram autorizados e regulamentados
  • As ciclofaixas ganharam mais espaço e algumas delas foram promovidas a ciclovias.
  • Ganhamos muito mais praças com internet livre.
  • Foi anunciada a criação de uma política publica para grafites (uma das marcas registradas da cidade em qualquer guia turístico gringo, apesar das gestões anteriores considerarem pichação e cobrirem de tinta branca).

A sensação é que o paulistano começou, com sua ajuda, a recuperar a cidade, por anos seqüestrada por especuladores imobiliários e construtoras. Nossa querida São Paulo, que prometia virar um aglomerado asséptico de imensas avenidas conectando ultra-condomínios fechados a shopping centers, deu uma guinada para outra direção. Uma direção mais humana, e muito mais interessante e democrática.

Muitas das medidas – como a ampliação das faixas de ônibus e a clara prioridade que você tem dado ao transporte público – foram incrivelmente impopulares para certa camada da população. Taxistas furiosos pela proibição de trafegar pelas faixas (o que convenhamos, não fazia nenhum sentido) se juntaram aos descontentes. O desmantelamento da máfia de fiscais do ISS certamente incomodou muita gente graúda. Você conquistou inimigos automáticos.

Suspeito que você sempre soube que seria assim, o que justificaria o lema de sua gestão: “Prefeitura de São Paulo: Fazendo o que precisa ser feito”.

Em uma democracia onde o povo escolhe seu candidato em turnos alternados de quatro anos, virou quase um clichê termos administrações focadas em resultados de curto prazo, concentrados em medidas que garantam a reeleição do prefeito para um segundo mandato. As pessoas se acostumaram com esse clichê, e determinam seus votos em função dele. O eleitor médio simplesmente não compreende o conceito de medida de médio-longo prazo, pois esse conceito nunca foi aplicado por aqui.

Respeito você como político e como profissional. Você aceitou a idéia de ser rejeitado, de ser repudiado, porque sentiu que estava fazendo o que precisava. Conquistou grandes inimigos ao aprovar o Plano Diretor Estratégico para a cidade na semana passada (as grandes construtoras e os grandes especuladores não vão deixar barato), mas fez isso mesmo assim, pois sem ele nossa cidade caminhava em direção a um colapso de mobilidade urbana, socioambiental e econômico. Qualquer pessoa que tiver paciência de ler o PDE não terá alternativa senão concluir que ele vai ser positivo para a cidade.

Suspeito que muita gente que diz não gostar de você não sabe bem porque tem essa opinião. Vai praguejar alguma coisa contra o PT, papagaiada de uma VEJA da vida, ou então criticar as faixas de ônibus e como o transito piorou por causa delas (como se fosse possível reverter décadas de negligência ao transporte público em alguns meses).

A essas pessoas, gostaria de recomendar uma rápida pesquisa sobre as ações da prefeitura somente na ULTIMA SEMANA, conforme listado nas  “referências” no final do meu texto. As ações, reunidas em postagem da Carol Almeida (link do facebook abaixo), incluem a instituição de uma política municipal de segurança alimentar, a transformação da Chácara Jockey (169 mil m² no Butatã) em um grande parque municipal, parceria para a reabertura do cinema Belas Artes, a construção de uma usina de triagem de material reciclado, a instalação de contadores de passageiros de ônibus (para aumentar ou reduzir a frota conforme horários e rotas) e a aquisição de áreas para a construção de mais um Sesc (o Sesc Mercadão), entre outras coisas.

Sobre essa lista, e todas as outras medidas citadas em minha carta até agora, só posso dizer uma coisa: Obrigado. O seu índice de rejeição de 47% pra mim é um sintoma de como nossa cidade está doente, e como seus cidadãos estão alienados à própria realidade.

Não sou petista, também não sou “haddadista”. Mas continuarei votando em você, enquanto continuar governando para o futuro, e não em função de uma reeleição. Realmente espero que outros candidatos por aí, de outros partidos, sigam seu exemplo, e que as pessoas comecem a acordar pra vida e comecem a votar nos candidatos por causa de seus planos de governo, não porque uma certa revista mandou, ou porque demoraram 10 minutos a mais pra chegar em casa por causa de uma faixa de ônibus.

Acho que até 2016 ainda tem muito chão, e você vai conseguir fazer muita coisa positiva para a cidade. Espero que isso motive os futuros candidatos a fazer o mesmo, e espero que dê tempo de parte da população acordar e mudar de opinião, pois realmente gostaria de ver o que você faria com São Paulo em um segundo mandato.

Só te peço uma coisa: Não mude seu modus operandi. Não interrompa as medidas de médio e longo prazo por serem impopulares hoje. Não deixe de fazer o que precisa ser feito porque uma pesquisa assustadora foi publicada. Temos toda uma geração de eleitores vindo por aí, com um engajamento e uma cultura política que as gerações anteriores (filhas da ditadura) simplesmente não podem compreender. Faça uma gestão para essas pessoas…

E se em 2016 essa conscientização não tiver sido o bastante, e algum engravatado cheio de promessas vazias e nenhum plano de governo se sentar em sua cadeira, você poderá pelo menos dizer que você fez o melhor que pode. E que produziu mudanças significativas das quais todo paulistano poderá colher os frutos, mesmo tendo achado na época que não o faria.

Isso já é mais do que qualquer prefeito que tivemos em um passado recente jamais poderá dizer.

Obrigado e abraços,

Igor Machado (Alguém ai fora).

…..

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REFERENCIAS: 

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/datafolha-rejeicao-a-haddad-sobe-de-36-para-47

https://www.facebook.com/carol.almeida.5074/posts/10152270173071864?notif_t=like   (link inspiração, aliás)

http://www.brasilpost.com.br/2014/07/30/grafite-prefeitura-sp_n_5635141.html?utm_hp_ref=mostpopular

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/31/sociedad/1406842317_190665.html

http://pedaleria.com/bicicletario-de-pinheiros/

http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2014/07/sao-paulo-tera-politica-municipal-de-seguranca-alimentar-6856.html

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,chacara-do-jockey-no-butanta-vai-virar-parque-municipal,1529646

http://www.capital.sp.gov.br/portal/noticia/3445

http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/07/17/prefeito-haddad-anuncia-novo-edital-da-spcine-que-contara-com-r-1-milhao.htm

http://www.akatu.org.br/Temas/Residuos/Posts/Usina-de-triagem-de-material-reciclavel-e-inaugurada-em-Sao-Paulo

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,onibus-paulistanos-ganharao-contador-de-passageiros,1527348

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,haddad-entrega-area-para-sesc-mercadao,1529198

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Primeiros-Passos/A-defesa-do-IPTU-progressivo-por-Haddad-em-2001-Justo-e-constitucional-/42/28016

 LEITURA COMPLEMENTAR:

http://entretenimento.r7.com/blogs/ricardo-alexandre/carrolatria-em-sao-paulo-20140729/

http://outraspalavras.net/brasil/23064/?utm_source=feedly&utm_reader=feedly&utm_medium=rss&utm_campaign=23064

Sobre a elite “macarronada com uísque” (ou qualquer outro apelido bobinho…)

Diz que adora viajar e de fato viaja todo ano…. para a Disney. Foi uma vez pra Cancum mas não curtiu, tinha muito mexicano.

Diz que brasileiro é tudo conformado, que não faz nada pra mudar o país. Toda vez que tem manifestação chama os participantes de vândalos e torce pra polícia descer a borracha.

Diz que político é tudo corrupto, mas já pagou muita propina pra fiscal e pra policial. Sonega imposto, afinal “vai tudo pro bolso dos corruptos mesmo”, mas nunca deu um real para a caridade.

Diz que o Brasil é o país da impunidade e acha que deveríamos punir os criminosos com mais vigor. Vocifera contra o estado autoritário toda vez que uma empresa paga uma multa por alguma infração cometida. Propina também não é crime, nem sonegação. Crime de verdade é só o de bandido pobre, na rua, segurando uma arma.

Diz que o problema do Brasil é a educação, mas ele mesmo não estuda muito. O único livro que leu desde que pegou o diploma foi uma biografia do Steve Jobs, mas parou na metade porque era muito grande.

Diz que o bolsa família é uma fábrica de vagabundos, e adora encaminhar aquela corrente de e-mail sobre o porteiro que pediu demissão pra viver de bolsa, mas nunca perdeu um minuto tentando descobrir quanto o bolsa família realmente paga para os beneficiados. Assume que “deve ser bastante”.

Diz que o brasileiro é burro e alienado por votar errado, mas nunca pesquisou muito sobre os candidatos que vota. Costuma votar no PSDB só porque eles são oposição aos “malditos comunistas”. Pelo mesmo motivo apoia Cunha, Bolsonaro, Feliciano e qualquer um que se levante contra “medidas de esquerda”, não importa exatamente qual a alternativa apresentada.

Diz que o Brasil é uma porcaria e gostaria de morar na Europa. Mas não quer que o Brasil seja a Europa. Critica qualquer medida que incentive o transporte público, maior distribuição de renda ou valorização da mão de obra (como a ‘lei das domésticas’). No fundo queria que o Brasil fosse o Brasil mesmo, mas a uns 150 anos atrás, quando a “gentinha” conhecia seu lugar.

Diz que defende a liberdade quando protege a “livre iniciativa” do “estado opressor cobrador de impostos”. Esquece disso rapidinho na hora de pregar contra o aborto, as “feminazis”, o casamento gay, a legalização da maconha ou qualquer medida que vai contra os valores dos “homens de bem”.

Diz que gosta de coisas de qualidade, mas não sabe bem o que isso significa. Parte da premissa de que, se é caro, deve ser bom. Torra seu dinheiro na GAP do shopping JK e paga 20 reais na latinha de Skol da Disco, na Vila Olimpia, onde só vai gente “diferenciada”.

Importante mesmo é deixar claro para o mundo que é diferente do “resto do Brasil”.

Em um país que despreza seus professores, seus acadêmicos, seus cientistas sociais e seus artistas, não admira que pertencer à elite econômica brasileira não tenha necessariamente nada a ver com pertencer à elite intelectual.

Parte da “nobreza ultra conservadora” do Brasil se delicia com o apelido que inventaram aos que ousam se levantar a favor de avanços sociais no país : “Esquerda caviar”. Claro, eles não percebem que são tão caricatos que seria quase irresistível inventar um apelido bem bobinho e preconceituoso para eles também, tipo “Elite Macarronada com Uísque”.

Mas quer saber? Deixa pra lá.

O processo histórico sempre foi marcado por gente tentando mudar o mundo e gente tentando manter as coisas como estão. E adivinha só: Com ou sem choro, o mundo nunca parou de mudar. Sobrevive quem se adapta à essas mudanças.  Boa sorte aos conservadores de plantão: Dias difíceis estão por vir…