Carta para um conservador

Oi, tudo bom?

Talvez você não se lembre de mim, mas eu tomei a liberdade de te escrever mesmo assim, porque eu te conheço muito bem. Não apenas por te encontrar muito no dia a dia, por te assistir no noticiário, te ler nas manchetes de jornal, te escutar nos almoços de domingo. Acontece que eu te estudei muito na escola, te encontrei em muitos filmes e muitos livros que andei lendo. Meu convívio com você é quase diário.

Você é a pessoa que em 1890 defendia um tratamento humanitário para os escravos, porém achava que abolir a escravidão era um pouco longe demais. É a pessoa que em 1932 achava que os maridos deveriam conversar com suas esposas sobre os candidatos em que votariam, mas que conceder o direito ao voto a uma mulher, mesmo que apenas a casada e com rendas, já era um exagero. É a pessoa que um pouco depois, em 1946, achava totalmente razoável deixarem as mulheres casadas e de bem votarem, porém achava que estender o direito ao voto para mulheres solteiras, pessoas de baixa renda e analfabetos ia mergulhar o país na anarquia.

Você é a pessoa que está sempre um passo atrás. A pessoa que se considera liberal, mas na verdade está sempre lutando para o mundo continuar sendo como se apresentou a você quando você chegou. Que acredita que até aqui a humanidade evoluiu, porém, que as mudanças propostas nesse exato momento, por outro lado, são aquelas que lançarão a civilização em um abismo de imoralidade.

Você é aquele que nos últimos anos tem aparecido por aí, combatendo o estatuto das domésticas, as cotas, o casamento gay, chamando bolsa família de bolsa esmola. Que hoje panfleta contra o ensino sobre diversidade sexual ou religiões africanas nas escolas, contra a descriminalização do aborto, contra a legalização da maconha. A pessoa que acha que o machismo já foi superado, que o feminismo foi bom no passado, mas agora está indo longe demais. A pessoa que alega não ter nada contra gays quietos em seu canto, mas que acha que eles quererem poder se beijar em público como se fossem “pessoas normais” já é depravação. A pessoa que acha que o mundo era mais legal na época que dava pra contar piada machista ou homofóbica sem ser acusado de machista ou homofóbico.

Você sempre estará lá, às sombras das pessoas tentando tornar o mundo um lugar mais justo para todo mundo, tentando impor apenas a sua realidade, sem se esforçar para tentar entender ou enxergar o que é diferente: Tentando manter as coisas como elas são.

Quis escrever essa singela carta só pra te avisar que você não é novidade. Você sempre existiu e sempre existirá. E você sempre vai perder. Que o mundo sempre seguirá mudando, a despeito de sua inabilidade de compreender essas mudanças.

Mas não se aborreça comigo não, eu também queria te dizer que, às vezes, eu sou você. Que eu combato isso todo dia, mas eu também estou preso às limitações do meu tempo, a aquilo que eu aprendi. Que eu morro de vergonha de várias bobagens que eu falei e escrevi uns tempos atrás, e provavelmente morrerei de vergonha de coisas que eu faço hoje. Queria te dizer que o mundo realmente muda muito rápido, que as vezes assusta, que dá vontade de jogar a âncora e pular do barco, acho que acontece com todo mundo as vezes, com uma coisa ou com outra.

E eu gostaria de sugerir, pra mim e pra você, um caminho melhor: Tentar se projetar no outro. E a partir disso, tentar ajudar (ou pelo menos, não atrapalhar). É um exercício dificil mesmo, e  ainda que a gente tente, vamos errar um monte de vezes. Mas convenhamos: o mundo vai continuar mudando independentemente do que a gente pensa, então eu acho que essa é uma alternativa mais feliz, não é?

Acho que cada geração vem ao mundo para consertar os erros de seus pais, e cometer novos erros, que serão redimidos por seus filhos. O quanto antes aceitarmos que não somos o fim da história, apenas um capítulo intermediário perdido em um livro sem índice, sem começo e sem final, melhor. E dói menos.

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