E agora, meu amigo de esquerda?

Lula

Uma time line de Facebook inundada por memes sacaneando o Lula. Infinitos questionamentos nas conversas de Whatsapp. Não está sendo uma manhã fácil para quem defendeu um posicionamento político mais à esquerda nos últimos anos.

Perdi a conta de quantas pessoas, oriundas dos mais diversos círculos sociais, me abordaram de alguma maneira questionando: E agora, meu amigo de esquerda?

E agora? Bom, se o Lula realmente estiver envolvido no mar de lama da política brasileira (e, claro, é possível que esteja), que a PF investigue. E se for verdade, que prenda. Política é coisa de gente grande, não time de futebol, e eu não ponho minha mão no fogo por ninguém.

Dito isso, gostaria de registrar que a histeria coletiva que tomou parte da população brasileira (PARTE, sempre bom reforçar isso) me deixa bastante preocupado. Por alguns motivos:

1 – As cabeças do Lula e da Dilma estão a prêmio faz tempo. O Antonio Rayol, delegado da PF que prendeu o marketeiro do PT no ano passado vai ser lançado como candidato a prefeito de Niterói pelo PSDB no ano que vem. Quantos “favores políticos” do tipo não estão sendo prometidos por aí? Não estou dizendo que o Lula é inocente ou culpado, só que existem muitos interesses rolando por trás dos panos,e não dá pra ser inocente e achar que a PF e o Judiciário estão sendo imparciais nessa história. A própria prisão do Delcídio, um “flagrante por crime inafiançável”, é por si só juridicamente questionável, e por mais que eu queira ver corruptos sendo presos tanto quanto qualquer um, fico bem assustado quando nosso ordenamento jurídico é deixado de lado em função da opinião pública, ainda mais quando UMA emissora de TV tem a opinião pública na mão.

Delcidio

2 – Depoimento coercivo contra alguém que nunca se negou a depor é puro espetáculo midiático, para criar a sensação de que hoje o Lula foi “preso” em vez de convidado a prestar depoimento. Se as pessoas acham que isso era mesmo necessário, e que a PF realmente agiu de forma imparcial, cadê a PF na casa do FHC para tirar depoimento pelo inquérito que abriu sobre o envio de dinheiro para a amante Miran Dutra no exterior, por meio da Brasif? Aliás, cadê a PF na casa do Aécio Neves depois que o Youssef expressamente falou em depoimento (esse sim, já homologado) que o presidente do PSDB recebia propina? Alguém vai investigar isso em algum momento?.

moro

3 – Alguém se lembra da capa da Veja em outubro de 2014, noticiando uma suposta delação bombástica do Youssef que colocaria o Lula e a Dilma na cadeia, e que não deu em nada? Talvez seja diferente dessa vez, talvez não, mas as pessoas deviam ter aprendido, com essa experiência, a ser um pouco mais cautelosas antes de acender as tochas e começar a caça às bruxas por causa de uma capa de revista.

4 – É interessante como “a alta do dólar é culpa da Dilma”, quando convém que o discurso seja esse, mas da noite pro dia o dólar cai vertiginosamente, só porque a direção dos ventos dessa manhã agradava ao Deus-Mercado. Claro, é assim que especulação funciona, mas alguém vai lembrar disso na próxima vez que for botar o cancelamento das férias pra Miami na conta do governo?

A questão aqui não é combater a corrupção, nunca foi. Se fosse mesmo, as pessoas teriam comemorado com a mesma intensidade de hoje a decisão que o STF tomou ontem ao colocar o Eduardo Cunha (muito mais influente na política ATUAL do que o Lula, e formalmente acusado de MUITOS crimes) no banco dos réus. As pessoas teriam comemorado também o inquérito que a PF abriu para investigar o FHC, teriam exigido a cabeça do Geraldo Alckmin quando ele tornou os documentos do Metrô de SP sigilosos por 25 anos, logo após delação da Siemens sugerindo a existência de um cartel bilionário.

Enquanto as pessoas tratarem política como time de futebol, “torcendo pro cara que eu não gosto ser culpado”, em vez de torcer para as instituições funcionarem corretamente e para a verdade ser esclarecida, não dá pra falar em combater corrupção. Indignação coletiva é só briga pra ver quem está no poder.

Apesar de tudo, vejo com otimismo o que está acontecendo no Brasil hoje. Nossas instituições são fortes. Elas funcionam. Temos um judiciário ativo, uma PF que opera com liberdade e está no geral fazendo um bom trabalho, um Ministério Público vigilante e que não tem medo de sujar as mãos. Mais gente corrupta foi denunciada no ano passado, por causa do recém regulamentado mecanismo de Delação Premiada, do que nos últimos 20 anos. Ser corrupto está mais perigoso agora, e muito mais difícil. As coisas estão melhores hoje do que eram a 10 anos atrás E certamente muito melhores do que a 20. Antes então, nem democracia tínhamos.
 .
Preferimos divulgar memes do que ler textos, preferimos bater panela na varanda do que tentar entender de verdade o que está acontecendo. Em nossa defesa, no entanto, recordo que em termos de democracia, ainda estamos aprendendo a engatinhar. Somos crianças políticas, e como crianças nos portamos.

Mas vai chegar um momento em que teremos que crescer, ou não vai adiantar tirar esse ou aquele cara do poder, seremos sempre o joguete de alguém. Isso é muito maior do que o Lula, ou o Cunha, ou a Dilma ou o Aécio. Isso diz respeito aos políticos de amanhã, e ao tipo de sociedade que queremos ser: Uma sociedade que preza o Estado Democrático de Direito, e que lutará para que ele funcione, ou então uma democracia para inglês ver, onde vigora aquela máxima: “Para meus amigos tudo, para meus inimigos: a Lei.”?

 

FONTES:

http://www.istoe.com.br/reportagens/447783_A+DELACAO+DE+DELCIDIO

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1743887-pf-investigara-fhc-por-envio-de-dinheiro-a-ex-amante.shtml

http://extra.globo.com/noticias/extra-extra/delegado-da-pf-que-prendeu-marqueteiro-de-lula-sera-candidato-do-psdb-prefeitura-de-niteroi-18788282.html

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Um comentário sobre “E agora, meu amigo de esquerda?

  1. marcioferocha

    Parabéns pela análise e pela escrita.
    O texto foi muito comentado por amigos próximos, me fazendo chegar ao blog; achei muito interessante o final, visto que sou um “amigo de esquerda” e quando fui indagado sobre o que achava de tudo isso (por outras pessoas que não à esquerda), disse que percebia algo como dores do crescimento no momento atual. Meu interlocutor, economista de formação assim como eu, já me veio com dados do crescimento econômico para mostrar um equivoco, afinal o desempenho econômico foi medíocre.
    Com pena, afinal assim como tantos outros colegas de profissão, ele só enxerga o crescimento econômico como reflexo do avanços das sociedades, não respondi porque o crescimento da consciência política (vamos colocar assim) de uma sociedade com uma trajetória trágica do ponto de vista democrático como a brasileira tem que estar como pressuposto numa conversa séria e que escape do imediatismo das soluções. Nesse sentido, gostei muito da sua opinião porque ela corrobora no sentido de pensarmos um Brasil no futuro.

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