“O QUE VOCÊ FAZ ?”

Se imagine entrando em uma festa formal, onde você não conhece direito ninguém. Logo você se vê participando de uma rodinha, e durante aquele papo introdutório com uma pessoa que parece interessante, você joga aquela perguntinha básica:

– O que você faz?

Se seu interlocutor vive no planeta Terra há pelo menos uns cinco anos, ele entendeu o que você está realmente perguntando: “Qual a tarefa principal que você exerce que te possibilita pagar suas contas?”

Não há nada de errado em você querer genuinamente saber o que a pessoa faz, é um interesse justo. Mas a questão é: O quanto você realmente quer saber sobre a profissão dessa pessoa, e o quanto você fez a pergunta em modo automático, como parte de um “check list padrão” pelo qual medimos as pessoas (e nos deixamos medir) em nossa sociedade?

A verdade é que a pessoa pode não estar trabalhando e se sentir constrangida. Pode odiar o trabalho e não gostar de ser lembrada dele. Pode até achar o trabalho OK e te responder (mas preferia estar falando sobre qualquer outra coisa), ou talvez, apenas talvez, ela pertença àquela categoria privilegiada de pessoas que estão realizadas e vão ficar felizes de falar sobre o assunto (o que não significa que a resposta vai ser necessariamente divertida de ouvir).

Segundo uma pesquisa publicada em 2015 pela Isma Brasil (International Stress Management Association), cerca de 72% das pessoas do país se consideram insatisfeitas com o próprio trabalho. Estatisticamente falando as maiores chances são as de seu novo amigo ser uma delas, e nesse momento estar olhando para o canto, procurando outra rodinha para se infiltrar onde estejam conversando sobre algo mais legal.

Trabalho é uma parte considerável de nossas vidas, ninguém duvida disso. Mas não é tudo. Mesmo se você dedica 45 horas semanais ao seu trabalho, existem outras 123 em que você está fazendo qualquer outra coisa. E mesmo se você subtrair 7 horas por dia de sono, ainda restam 74 horas em que você está acordado. E vivendo.

E fazendo um curso de fotografia, cozinhando algo gostoso, praticando artes marciais, meditando ou brincando com seu cachorro. Planejando sua próxima viagem internacional, plantando em sua horta urbana, lendo seu autor favorito ou quem sabe escrevendo você mesmo seu próprio livro. Explorando suas paixões.

E mesmo se você for um dos poucos afortunados que realmente ama o que faz e acorda cantando toda segunda feira de manhã, tem imensas chances da outra pessoa não ser, e por outro lado ter uma porção de sonhos, idéias, paixões e opiniões que poderia estar compartilhando nessa conversa, e não está.

Work X Life

Apesar de parecer que está por aí desde sempre, o conceito de carreira é relativamente recente na história humana, e a força que ganhou na construção de nossa identidade pessoal é o que causa tanta angústia. Entre frustrações por não obter o tal “sucesso” ou não encontrar o tal emprego dos sonhos, as pessoas sofrem muito no processo de se deixar definir (e definir os outros) por suas profissões, quando podem simplesmente parar de fazer isso.

Da próxima vez que conhecer alguém em uma festa, em vez de perguntar o emprego da pessoa, experimente perguntar o que essa pessoa gosta de fazer para se divertir. O que ela faz em seu tempo livre? Quais são suas paixões?

Você vai pegar a pessoa de surpresa, é claro. Mas tem muito mais chances de desenvolver com ela uma conversa agradável, divertida e não-genérica. Pode descobrir um companheiro para a próxima brassagem de cerveja artesanal ou para a próxima viagem de mergulho. Talvez a pessoa te  fale sobre algum assunto sobre o qual você nunca ouviu falar, talvez até te desperte o interesse sobre algo que você não conhecia.

E talvez … apenas talvez..a pessoa fale sobre o próprio emprego.

A sociedade é pesada, e as expectativas que colocamos sobre nós mesmos, e sobre os outros, acabam deixando tudo ainda mais dificil. As vezes, o primeiro passo para mudar isso, para aliviar um pouco essa pressão, é simplesmente dar-se conta, e não ajudar a alimentar os clichês que acabam nos incomodando depois.

MAIS SOBRE O ASSUNTO:

http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2015/04/72-das-pessoas-estao-insatisfeitas-com-o-trabalho-aponta-pesquisa.html

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