A OPRESSÃO DO TRABALHO DOS SONHOS

Imagine que em algum momento de sua vida alguém te deu um mapa do tesouro. Você passou anos e mais anos seguindo esse mapa, e quando finalmente chegou no local do “X”, não encontrou tesouro nenhum.

Frustrado você se pergunta: Será que você não seguiu o mapa corretamente? Será que dormiu no ponto e alguém desenterrou o tesouro antes? Talvez. Mas seria recomendável também você se questionar se o mapa que te deram não era falso, ou se o tal tesouro existe mesmo, pra começo de conversa.

Na contramão das centenas de textos por aí incentivando as pessoas a fazer mais, sonhar mais, não se conformar com pouco, gostaria de fazer uma sugestão: Especificamente no quesito “profissão”, cuidado com esse negócio de “procurar o trabalho dos sonhos”.

Convidar uma pessoa a sonhar menos, nos dias de hoje, especialmente quando depois de tantas décadas de desilusão as pessoas finalmente voltaram a sonhar (aleluia) pode soar como um pecado mortal, mas eu peço sua paciência e sua atenção por mais alguns parágrafos: Prometo que vou explicar.

O velho (e meio tedioso) sonho yuppie da década de 80, do sucesso profissional, a gorda conta bancária, o carro importado e o apartamento ostensivo no bairro nobre, era uma mercadoria. Um pacote completo, que foi razoávelmente adotado como ideal por toda uma geração (a despeito daqueles espiritos livres que sempre destoam aqui e ali).

Esse “pacote do sucesso” das gerações passadas ainda significa “ser bem sucedido” para muita gente, mas temos visto, com o advento da informação (e das redes sociais), o nascimento de um “ideal alternativo”. Hoje as pessoas buscam liberdade plena, o trabalho com um sentido profundo e transformador, que propicie intensas experiências e a chance de mudar o mundo. Todo mundo está falando disso agora.

Acredito que, como eu, muita gente se sentiu fascinado pelo surgimento desse novo contexto, e por tantos sonhadores aflorarem aqui e ali, apresentando suas revoluções pessoais e nos convidando a fazer o mesmo. Vivemos em um mundo em convulsão evolutiva, um mundo de primaveras árabes e ocupações em Wall Street, cooperativas agrícolas, mídia independente, pessoas se demitindo de empregos enfadonhos e viajando pelo planeta. Um mundo onde um escritor pode publicar seu livro sem depender de uma editora, um musico pode jogar sua música na rede sem depender de uma gravadora. Não existe apenas uma maneira de se viver a vida, as coisas nunca mais serão como antes.

O mundo de hoje é muito mais interessante de se viver, muito mais rico, do que o universo yuppie de ontem, onde a grande perspectiva era se matar de trabalhar e ser melhor que os outros por 30 anos para finalmente conseguir conquistar uma boa vida na aposentadoria.

Mas devemos estar atentos a uma coisa, em meio a toda essa energia: Esse novo mundo, de sonhos e quebra de paradigmas, também é bem angustiante – e opressor – à sua maneira. E pode estar tentando te vender apenas uma “nova versão do pacote completo”.

Não se demitir do seu emprego chato no banco e perseguir algo que te faça acordar sorrindo todos os dias, quando tem gente fazendo isso lá fora (e de alguma forma conseguindo pagar as próprias contas), virou um atestado de resignação. Virou um sinal de alarme constantemente ligado, nos dizendo que nossas vidas são enfadonhas, que não estamos fazendo o suficiente, que somos acomodados ou o que seja.

Uma voz interior segue sussurrando em nossos ouvidos que devemos encontrar nosso “emprego dos sonhos” e que, no momento em que “encontrarmos essa coisa que amamos fazer, nunca mais precisaremos trabalhar de novo”.

Deixei essa voz me incomodar por algum tempo, até me dar conta: Essa voz, esse eco constante das redes sociais, dos blogs, das iniciativas lindas que existem por aí (e ainda bem que elas existem), é o mapa falso, para o tesouro falso, que nossa geração de sonhadores ganhou.

Veja bem: Se eu tiver que escolher entre uma voz idealista, que quer encontrar satisfação plena em seu trabalho e ainda pagar as contas com isso, ou a velha voz cínica e individualista de antes, escolho o novo sem nem hesitar. Precisamos urgente de um mundo com mais gente feliz. Precisamos de iniciativas novas, visões novas e pessoas mais focadas em “ser” do que em “ter”. Mas também precisamos às vezes parar, respirar, e pegar leve.

Desconfie de todo mundo que chega falando que “você tem que…” alguma coisa. Você não tem que fazer nada. A vida é ampla e misteriosa, e essa é sua beleza. É extremamente perigoso, no processo de tentar se libertar daquela visão antiga e opressiva do que era o sucesso profissional, a pessoa acabar comprando o sonho de terceiros. Um novo “pacote completo” igualmente inatingível.

Mesmo se você refletir bastante e estiver certo de que suas escolhas são suas, e apenas suas: Calma. Não transforme sua emancipação em uma ferramenta de auto-martírio.

O caminho para ser feliz não é – simplesmente não pode ser – substituir uma meta quase impossível por outra. O sentimento de frustração no fim do dia será o mesmo se você não conseguir aquele cargo na diretoria e aquele milhão antes dos 30, ou se você não conseguir pagar as contas viajando o mundo, sem patrão ou carteira assinada.

A foto no Facebook do cara que abriu uma start-up e está trabalhando de um resort na Tailândia, virou a nova “Ferrari na garagem do vizinho” para a nossa geração, mas é essencialmente a mesma coisa.

Working-Remotely

Na sessão de Auto-Ajuda das livrarias, a prateleira onde existem livros te ensinando “técnicas para ser um executivo de sucesso” é a mesma que abriga livros te dizendo que você pode conseguir o que quiser se depositar energia o suficiente para isso. E em uma outra prateleira na mesma sessão estão os livros te ajudando a lidar com o fracasso e a frustração de ser quem você é (quando não conseguir alcançar aquele sonho vendido logo ao lado). Existe alguma coisa muito errada com esse sistema.

Podemos assumir como fato que, da mesma maneira que a maioria das pessoas do mundo simplesmente não vai conseguir ser presidente de empresa ou empresário de sucesso, a maioria das pessoas do mundo nunca conseguirá pagar as contas fazendo o que mais ama, e com isso “nunca mais precisando trabalhar na vida”. Ou estamos assumindo que a imensa maioria das pessoas do mundo está condenada a uma vida de resignação e infelicidade, ou precisamos assumir algum outro ponto de referência sobre o que é sucesso e fracasso, sobre o que molda uma vida feliz e com significado.

Esse texto não é um ode ao conformismo, não está sugerindo que você desista de encontrar um emprego que te preencha, que tenha significado e te faça feliz. O que eu estou sugerindo é que você busque a felicidade, busque tornar o mundo um lugar melhor, busque fazer coisas que você gosta, a despeito do seu emprego.

Se rolar de fazer isso tudo e ainda pagar as contas desse jeito, melhor ainda, claro que é. Mas se não der, lembre-se de que você ainda assim pode criar, pode explorar, pode fazer do mundo um lugar melhor. Lembre-se de pegar leve.

Pegar leve consigo mesmo, e também com os outros ao seu redor.

Entre a pessoa se vender completamente e trabalhar para uma corporação do mau ou largar tudo para perseguir um sonho idealista custe o que custar, existem milhões de estágios intermediários. A profissão dos sonhos, ou a busca por ela, é apenas um dos muitos aspectos que podemos trazer para nossa vida, para esse plano maior que é nossa experiência humana.

Sonhos são inspiradores, são força-motriz, tem o poder de mudar o mundo. Mas no momento em que eles te prendem e te martirizam, eles deixam de ser um sonho. Se transformam em angústia. Daí é hora de você dar um tempo. Respirar e contemplar um pouco a paisagem.  Não importa a pista em que você escolheu correr, a vida é muito mais do que uma linha de chegada.

 

MAIS SOBRE O TEMA:

– Alain de Bolton – TED sobre “Visões de sucesso” : http://www.ted.com/talks/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success?language=pt-br#t-186827

– HAPPY – Documentário sobre felicidade dirigido por Roko Belic – Tem no Netflix, ou para alugar neste link: http://www.thehappymovie.com/

– Leonard Melnow: O Andar do Bêbado

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