Nós, a “esquerda caviar”

Adaptação livre de texto original de Yuri Bossonaro

Desde que a velha “classe conservadora brasileira” saiu do armário, por assim dizer, e descobriu a internet e as redes sociais, tem se tornado cada vez mais popular em certos fóruns de discussão o velho termo francês: “Esquerda Caviar”.

O termo, um dos mais notórios argumentos “ad hominem” (aquele que ataca o interlocutor em vez da idéia) da atualidade brasileira, é um instrumento discursivo do debatedor conservador contra a suposta “incoerência” da classe média de esquerda que, mesmo tendo posses, defende maior justiça social. Em outras palavras: é uma tentativa de deslegitimar esta esquerda, na suposição de haver uma imensa “hipocrisia” em alguém que não é pobre estar preocupado com quem é.

Essa lógica sugere que a única possibilidade de “coerência” que resta à classe média é “defender os próprios privilégios”. A alternativa seria o “suicídio” da própria condição:

Empobrecer.

Funciona da seguinte forma: ou se defende integralmente a classe média (e, na verdade, de onde viria a iguaria emprestada como adjetivo – “caviar” -, a elite) ou é obrigação moral da suporta “esquerda caviar”, “deixar de ser” classe média. Abandonar a segurança financeira.

O que os usuários desse argumento ignoram é que a “esquerda caviar” não defende o empobrecimento geral da população, apenas a redução do imenso abismo entre os que têm demais (o que não é exatamente o caso da classe média ´intelectual´, do professor da USP, do comediante colunista da Folha, quanto é o caso de um Abílio Diniz ou Luciano Huck da vida, por exemplo) e os que não têm nada.

Isso não precisaria ser alcançado por meio de uma “revolução comunista” com consequências catastróficas e fome generalizada, como alardeiam os neo-paranóicos que não conseguem enxergar um meio termo entre o livre-mercado fora de controle e a russia soviética de Stalin. Poderia ser perseguido dentro dos limites da democracia, com medidas pontuais como a tributação sobre grandes riquezas por exemplo (adotada com sucesso em potências econômicas sólidas como a Alemanha ou a França), a ampliação de programas sociais e a garantia de alguns direitos generalizados (que aliás, todo país desenvolvido protege).

Consta

Se seguirmos a lógica proposta por Rodrigo Constantino e outros “jornalistas” da conservadora mídia brasileira, a unica possibilidade do ‘esquerda caviar” seria doar tudo o que é seu para os pobres. Até esse momento não haveria “qualificação moral” para tecer qualquer argumento político.

A classe média de esquerda intimida a elite dominante justamente porque ela tem voz, porque tem espaço na mídia, porque tem tempo e conforto o suficiente para questionar a sociedade, em vez de estar apenas se matando para sobreviver dentro dela. É conveniente que a unica forma de manter a coerência, para essa categoria, seja o sacrifício da própria condição.

E enquanto os profissionais assalariados de classe média praticam harakiri econômico para conseguir manter a coerência, os CEOs de impérios de comunicação, presidentes de empresas e diretores de banco ficam livres para receber seus salários de R$ 1.8 milhões por mês sem serem importunados.

Aliás, R$ 1.8 milhões não foi um valor inventado, era o salário do Luciano Huck até 2014 pelo menos, segundo notícia publicada no Terra (link no final do texto). Um salário de R$ 1.8 milhões poderia pagar 450 salários de R$ 4.000 . Claro que não funciona exatamente assim, mas a relação fica óbvia: Quantos Lucianos Hucks não estão segurando o salário da maior parte da população?

huck

Não dá exatamente para jantar caviar ganhando um salário de R$ 4.000, mas dá pra viver com dignidade, e é isso que é negado à maioria das famílias do Brasil para que alguns possam viver vidas de nobreza vitoriana.

Percebe-se logo que o “caviar”, dito no termo, refere-se a luxos que, sim, boa parte da “esquerda caviar” não tem e nem quer ter. Não queremos caviar, fazer compras no Cidade Jardim ou vários carros na garagem.

Aliás, preferimos uma boa comida de boteco, bater perna na Vila Madalena, morar perto do metrô e não precisar ter carro. Não queremos um segurança particular, preferimos que isso não seja necessário, porque uma sociedade mais justa é uma sociedade com menos crime. Não amamos os muros dos condomínios e dos shoppings, preferimos a democracia da rua, que é muito mais rica e interessante.

Não somos a “esquerda caviar”. No máximo, somos a “esquerda cerveja artesanal” (como brincou o Gregório), a “esquerda-apartamento-próprio”, a “esquerda-universidade boa”. Evidentemente não somos os exemplares da aristocracia “comam-brioches”. Na verdade, ESSES são os que cunharam o termo.

Não, eu não vou abrir mão do que eu considero que todos deveríamos e poderíamos ter. Quero que mais gente consiga ter isso. Nenhum de nós precisa de MUITO. Mas certamente também não é preciso que, para defender um Brasil mais justo, não tenhamos nada.

gregorio

Se a “esquerda caviar” for aquela que, na verdade, não come caviar, mas que pretende questionar e votar contra uma sociedade de privilégios, abusos e excessos que se pagam com miséria, “aceito essa pecha”.

Se ainda assim, isso for ser “incoerente”, para eles, também aceito. Até porque já dizia Woody Allen que a “coerência é o fantasma das mentes pequenas”.

LEITURA COMPLEMENTAR:

Sobre a incoerência da tributação do Brasil, que privilegia as grandes riquezas (Hucks, Setubals, Civitas e Marinhos da vida) e pesa sobre a maioria da população:

http://www.cartacapital.com.br/economia/mais-injusta-que-excessiva

Algumas palavras sobre o tipico usuário do termo “esquerda caviar”. Sobre ódio e desinformação:

http://www.cartacapital.com.br/politica/varrer-limpar-aniquilar-a-apologia-do-exterminio-venceu-a-eleicao-1813.html

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