Os Cromossomos do Saara

Recentemente fui  a turismo para a Europa, e como todo brasileiro me deslumbrei com a beleza de suas cidades, com a riqueza de sua cultura, com a segurança de suas ruas. Encontrei por lá um querido amigo que está vivendo em Barcelona, e ele me mostrou outro lado da moeda e me fez levantar um questionamento que carreguei comigo pelo resto de minha viagem: Quem pagou o preço de toda essa civilização?

Meu amigo é um dos idealizadores do lindo projeto CROMOSSOMOS, desenvolvido em parceria com a ONG Palhaços sem Fronteiras. Eles estão organizando uma expedição entre os dias 27 de outubro e 13 de novembro para um remoto campo de refugiados saarauís, no norte da Àfrica, onde farão apresentações, espetáculos e oficinas de capacitação de palhaços para a população, além de registrar tudo em documentário. A idéia do projeto, além de levar esperança e alegria para uma população isolada e privada do mínimo (explicarei mais a seguir), é atrair atenção do mundo para essa região tão remota, além de capacitar refugiados para uma aptidão artística rentável quando eles puderem regressar para suas terras, algo que todos estão esperando ansiosamente.

CROMOSSOMOS

Intrigado por nunca ter ouvido falar do povo saarauí ou não ter a menor idéia de que “terras” são essas? Pois é, eu também não sabia nada sobre eles. Raramente um turista viajando pela Espanha, França ou outra nação mediterrânea na Europa para pra pensar no Norte da África, apesar de existir uma relação muito íntima entre essas regiões. Uma relação que somos capazes de compreender bem, porque também aconteceu conosco: Colonização. Erros cometidos no passado. Cicatrizes. Injustiças que perduram.

A diferença é que, a despeito das nossas injustiças, dos nossos problemas sociais, da nossa insegurança, pelo menos possuímos uma nação para chamar de nossa. O povo saaraui não: O Saara Ocidental é hoje a única região da África que não é independente, não possui seu status de país oficializado.

Resumindo bastante a história desse povo, os saarauís são um povo nômade que habitou a região do Saara Ocidental por séculos, e passou as ultimas  décadas sob os cuidados dos colonizadores espanhóis. Quando a Espanha decidiu, como fizeram as demais nações européias, “conceder a independência” da África, deixou  o povo saarauí à mercê da já independente nação de Marrocos, que marchou sobre o território desse povo e o clamou para si no que ficou historicamente conhecido como “Marcha Verde”. Esse território, o Saara Ocidental, além de rico em pesca (voltado para o Atlântico), é uma das maiores reservas naturais de fosfato do  planeta, além de potencial região de extração de petróleo.

Menina saaraui

A ocupação do território saarauí só foi possível porque a Espanha se omitiu em apresentar oposição a Marrocos, cedendo à pressão da França e dos EUA. Uma omissão consciente por motivos diplomáticos. Um intenso conflito envolvendo Marrocos, a Mauritânia e a Argélia se seguiu, e a discrepância de poderes logo  fez com que as lideranças saarauis – conhecidas como Frente Polisário- abandonassem qualquer esforço de luta armada e se resignassem às tentativas diplomáticas de solução do problema. Constantes abusos de direitos humanos por parte de Marrocos fizeram com que cada vez mais e mais saarauis cruzassem a fronteira com a Argélia, formando cinco imensos campos de refugiados onde vivem mais de 200.000 refugiados hoje. Pessoas instruídas, orgulhosas, unidas por um sonho em comum: Um dia voltar para casa.

O Marrocos construiu na região um gigantesco muro, com quase 3.000 km de extensão, e o cercou de minas terrestres, fazendo daquela uma das regiões mais perigosas do mundo. O muro, completamente ilegal, garante que os donos originais do Saara Ocidental fiquem isolados de sua terra, e garante ao Marrocos a continuidade da exploração do Fosfato. A posse da região garante ao Marrocos a posição de maior exportador de fosfato do mundo, sendo responsáveis por 30% da oferta mundial do produto (30 milhões de toneladas ao ano), utilizado principalmente como fertilizante. A Europa é responsável pela compra de grande parte dessa extração, mas o Brasil também é um grande comprador.

Mapa saara

Os refugiados saarauis são um povo gentil e educado, que valoriza a família e prega um estilo de vida simples. Surpreendentemente o grau de analfabetismo por lá é zero, pois todos estão esperando a hora de voltar pra casa e querem estar preparados quando esse dia chegar. Passam seus dias privados de saneamento básico, trabalho e acesso à água e comida, sobrevivendo da bondade dos poucos que chegam até eles.

Campo de cima

Se a omissão em nome da diplomacia foi a grande responsável pelo inicio dessa grande injustiça., a exploração do fosfato, e os interesses econômicos de toda a Europa e do mundo na continuidade de sua exploração por Marrocos, hoje garantem que essa imensa injustiça se mantenha. Nossos campos e plantações são fertilizados com a esperança de um povo, sem que ninguém tenha a menor idéia do que esta acontecendo.

Ao passearmos pelas lindas Ramblas de Barcelona, é fácil não pensar na África. É fácil não pensar na sua violenta e arbitrária divisão, na sua predatória – ainda nos dias de hoje – exploração, nos muitos povos marginalizados e sofrendo injustiças, entre os quais figuram nossos amigos saarauis. Não pensamos nisso, pois sequer sabemos a respeito. Está longe demais de nosso alcance. Não se fala nisso nas brochuras dos pacotes turísticos, ou nos livros didáticos que estudamos no colégio. Não há espaço nos jornais para todos os povos esquecidos do mundo, como saberíamos algo sobre um povo pequeno e perdido no deserto?

Meu principal ponto aqui é mostrar como uma breve conversa com um amigo vivendo fora de seu contexto, levando um estilo de vida diferente do que eu estou acostumado, já revelou todo um universo de pessoas necessitadas, de opressão, de abuso de direitos humanos, escondido por baixo do tapete em minha bela e confortável viagem pela Europa. Quantos outros casos como esse não existem?

Quanta injustiça não persiste à sombra de nosso conforto, escondida por trás do palco que foi montado para enxergarmos o mundo? Ao elogiarmos a beleza da civilização construída por um país desenvolvido que visitamos, seja ele EUA ou qualquer lugar na Europa, raramente pensamos no custo daquela beleza toda para dezenas de países oprimidos por eles.

Existe um palco armado, e existe todo um sistema que se beneficia de nosso desconhecimento a respeito dos problemas do mundo. Porque no final das contas, quando as pessoas entendem sua relação com o meio e refletem sobre a conseqüência de suas ações, algo muda.

As pessoas se importam.

Uma condição imprescindível para que nosso atual sistema, baseado em troca de bens e serviços e intenso acúmulo de capital (e inevitável criação de injustiça), funcione, é a visão limitada de cada integrante dessa cadeia de seu papel no todo:

  •  O explorado não pode se ver como vítima. Ele precisa almejar um lugar entre os privilegiados, e acreditar que com sacrifício e trabalho duro, um dia ele chega lá.
  • O explorador não pode se ver como opressor. Ele precisa acreditar que merece a condição que possui, que a conquistou, e que se há muita gente passando necessidade é uma condição inevitável.

 

Por outro lado, quando essa barreira é quebrada e entramos em contato com um povo necessitado, explorado, marcado pelo abuso e pela violência, é estabelecido um contrato vitalício entre as duas partes. Consciência é uma via de mão única.

A maior importância de grupos como os CROMOSSOMOS, de projetos como os da ONG Palhaços sem Fronteiras, é quebrar essa barreira que separa o nosso mundo – o mundo das relações de capital – e o mundo que existe por baixo, silenciosamente pagando nossa conta sem que sequer notemos.

Rua campo refugiados saaarauis

A questão Saharaui segue sendo uma das situações socialmente emergenciais mais desconhecidas do resto do mundo, mas não precisa ser assim. A situação pode ser revertida, e pela primeira vez na história – devido à internet e às redes sociais – temos condições de quebrar essas barreiras e lançar luz a essas pessoas esquecidas. Nunca foi tão impossível alegar inocência, ou desconhecimento, mas também nunca foi tão fácil fazer alguma coisa.

Vivemos em uma era onde podemos questionar as marcas que usamos, os alimentos que comemos, o meio de transporte que escolhemos. Podemos assumir a responsabilidade, na hora de votar, na hora de consumir, na hora de exigir que os governos mais poderosos assumam a responsabilidade pelos estragos feitos em sua história. Somos um povo mestiço. Colonizado. Marcado. Sabemos o que é isso.

Quis escrever esse texto primeiramente para divulgar o belo trabalho de meus amigos, e convidar meus leitores a conhecê-lo mais a fundo (a expedição vai acontecer mais ainda precisa de ajuda). Em segundo lugar, gostaria de convidar todos os leitores a refletir, em suas próximas viagens, ou mesmo em seu dia a dia, que mundos não existem às sombras do que chamamos de realidade, desconhecidos aos nossos olhos e ao nosso coração.

…………………..

 

Para conhecer mais sobre a expedição dos CROMOSSOMOS que vai acontecer no Saara ainda esse mês:

http://www.catarse.me/pt/cromossomos2014

https://www.facebook.com/cromossomos2014

Para saber mais sobre o povo saaraui e sua luta para voltar pra casa:

http://www.bizzentte.com/2012/10/hijos-de-las-nubes-2012-documental-canal-sahara-espanol/

http://mundorama.net/2010/01/21/a-dificil-e-esquecida-questao-do-saara-ocidental-por-pio-penna-filho/

http://xadrezverbal.com/2014/09/10/saara-ocidental-quando-a-hipocrisia-e-o-pior-inimigo/

http://www.ufrgs.br/sebreei/2012/wp-content/uploads/2013/01/Rodrigo-Duque-Estrada-Carla-Ricci.pdf

http://removethewall.org/

http://www.anba.com.br/noticia_corrente.kmf?cod=12279907&indice=70

 

 

 

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Um comentário sobre “Os Cromossomos do Saara

  1. Paulo

    Eu também não sabia dessa situação deste povo. Isto tudo me entristece muito.
    Também desconhecia quase por completo sobre o Saara Ocidental, então estou aqui, pesquisando no google.
    Grande abraço e votos de que toda a injustiça do mundo tenha fim!

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