Ideologias a parte: Uma reflexão necessária

Como eu previa, uma vez passada a benéfica (e surpreendente) multipolarização do debate político pré-eleições de outubro, desde o segundo turno voltamos ao bom e velho PT versus PSDB, e como não poderia deixar de ser, aos bons e velhos jargões dividindo o mundo entre santos e demônios.

No meio de tanta informação, acredito que dois pontos essenciais ao debate político no Brasil têm sido ignorados – ou deixados em segundo plano – por muitas pessoas, e achei pertinente escrever um texto específico sobre eles. Acredito que as informações relatadas nesse texto serão úteis independentemente da ideologia do leitor, e devem ser seriamente considerados:

  • Sobre os apoiadores de campanha

A verdadeira briga por uma mudança radical na política brasileira já aconteceu, e nós perdemos.

Não, não estou falando da Marina. Ela podia representar muita coisa, mas definitivamente não representava uma “nova política”.

No Brasil, o financiamento irrestrito de candidaturas por parte de imensas empresas privadas, faz com que, não interessa realmente quem seja eleito, os interesses de uma pequena minoria de empresários SEMPRE vão prevalecer sobre os do resto da população. Marina, Dilma e Aécio, os três principais candidatos das ultimas eleições, são nesse sentido muito parecidos, os três receberam financiamento massivo da parte das mesmas empresas (que querem assegurar seus interesses independentemente de quem suba ao poder).

Friboi, Itaú, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Camargo Correia, OAS, Unilever.

Os poucos candidatos que propunham mudanças radicais, especialmente Luciana Genro (que propunha o fim do financiamento privado das candidaturas), ficaram pra trás e o segundo turno das ultimas eleições foi basicamente a briga entre dois titãs financiados pelo interesse do capital privado, muitas vezes inclusive pelas mesmas empresas.

Esses candidatos possuem visões de Brasil bem distintas, esse blog jamais escondeu seu viés à esquerda, mas é vital a compreensão de que, não importa qual o desfecho das últimas eleições (ou qualquer eleição futura) sem que sejam feitas mudanças estruturais radicais para interromper essa estrutura de patrocínio que existe atualmente.

A única forma de reverter a corrupção institucionalizada é defender o “fim do financiamento privado” nas campanhas, apoiada por alguns políticos e sustentada como bandeira, sobretudo pelo PSOL e outros partidos menores que só aceitam doações de PESSOA FÍSICA.

Fazer política no Brasil, enquanto essa situação não mudar, continuará sendo ocupar o espaço público. Protestar. Ir além das urnas e suas limitadas (e comprometidas) alternativas. Isso é um fato inegável, que não tem recebido a ênfase adequada na abordagem da grande mídia por razões óbvias, já que ela também está altamente comprometida com os mesmos grupos financeiros.

Mais sobre esse assunto:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/08/1496943-tres-empresas-bancam-65-da-arrecadacao-de-presidenciaveis.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2014/10/1525451-eles-venceram-outra-vez.shtml

GraficoEleicoes2014Financiadores

2) Sobre a mídia:

Em um momento chave para a história da política em nosso país, com tantos embates ideológicos e gente replicando e reproduzindo opiniões a torto e direito, é necessário que façamos uma reflexão sobre a origem dessas opiniões. De onde vêm as informações que usamos como referência para nossas decisões políticas?

Até pouco tempo atrás, não existia rede social, e absolutamente 100% da nossa informação era precedente de um só lugar: A grande mídia convencional. É a informação proveniente dela que construiu as bases de nosso pensamento político nos últimos anos, ou décadas. É a informação proveniente dela que formou a opinião de nossos pais, de nossos avós, dos dirigentes das empresas onde trabalhamos: Uma opinião predominantemente conservadora.

O império midiático brasileiro está essencialmente nas mãos de quatro famílias: Família Civita (Grupo Abril), família Mesquita (Grupo Estado), família Oliveira (Grupo Folha) e família Marinho (Organizações Globo). Juntos eles concentram mais de 80% de todo o mercado midiático do país, e com ele toda a informação que circula e com a qual você forma sua opinião.

Victor-Civita

Esse oligopólio é extremamente nocivo para a verdadeira democracia de um país, e já foi alvo de repreensões da ONU em mais de uma ocasião:

http://reporterbrasil.org.br/2013/03/relator-da-onu-para-liberdade-de-expressao-critica-concentracao-de-midia-no-brasil/

Toda vez que se fala em “regularização da mídia” no Brasil os quatro grupos, por razões óbvias, fazem um grande alarde e histericamente bradam contra a censura de imprensa, fingindo defender a sua, a minha, a nossa liberdade de expressão. Na verdade o que estão defendendo é o monopólio midiático que ostentaram durante as ultimas décadas, o que lhes concedeu o poder para manipular os rumos da nação (ou pelo menos, influenciar consideravelmente).

Não é interessante como nessa ultima eleição se falou mais em “financiamento privado de campanhas” do que em toda a história da política brasileira ate agora? Não é interessante como as revoltas de junho floresceram justamente no auge da rede social Facebook, depois de décadas de insatisfação com a política? A cortina de ferro do monopólio da informação foi rompida com o advento das redes sociais, pelo menos uma pequena brecha nele, e subitamente o mundo começa a não parecer tão preto no branco assim…

Não é segredo que a mídia assumiu um papel político muito além da simples “informação”. Seus próprios dirigentes assumem – claro, não em notas oficiais – seu papel como oposição, como influenciadores dos eventos. Alguns mais que outros.

Civita admitiu a Mino Carta que são o único verdadeiro partido de oposição nesse país:

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2014/09/27/melancolico-fim-da-revista-veja-de-mino-a-barbosa/

Boni admitiu que a Globo manipulou os debates para garantir eleição de Collor contra Lula 22 anos atrás:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/11/apos-22-anos-boni-admite-que-globo.html

Isso não torna a mídia tradicional uma vilã, claro que não. Mas devemos enxergar essas empresas como o que elas realmente são: Empresas. E os veículos publicados por elas como o que eles realmente são: Produtos. Que devem ser avaliados e muitas vezes questionados. A internet está aí, nunca foi tão fácil buscar uma segunda, uma terceira opinião, quando o assunto for sério.

Nos últimos anos, ao longo de sua gestão no executivo, o PT se envolveu profundamente na corrupção que sempre existiu no nosso país, mas os grupos midiáticos brasileiros tem fomentado uma certa indignação seletiva que tornou parte da população cega aos pecados e absurdos cometidos pela oposição.

Escutei em mais de uma situação pessoas defendendo Eduardo Cunha, acusado de pedir propina de R$ 10 milhões e um dos principais investigados da Operação Lava Jato, só por ele apresentar oposição ao PT. Ora, que indignação à corrupção é essa, que condena e absolve com tamanha arbitrariedade?

Isso não significa que muitas das acusações ao PT que são publicadas não sejam verdadeiras. Mas a forma como elas são enfatizadas e reproduzidas à exaustão, enquanto acusações à oposição são relegadas à nota de rodapé (que atenção recebeu a Privataria Tucana, o Trensalão ou o Mensalão Mineiro do PSDB?) cria na população uma interpretação falaciosa da realidade, a ilusão de que existe um único inimigo a ser combatido. Isso direciona a indignação da população, como uma boiada sendo tocada, e garante que o atual sistema de privilégios e corrupção se mantenha praticamente inalterado. Muda apenas a pessoa sentada no “trono” da vez.

_______________

A moral da história é: Tenha a posição política que você quiser (vivemos em uma democracia afinal de contas). Mas tenha em mente de que existem forças atuando por trás dos panos, com objetivos próprios e agendas particulares, e que existe muito mais em jogo aqui do que um simples: “Tirar de jogo o maldito PT e começar a mudar a política no Brasil”.

Votando em quem for votar, defendendo o que for defender, lembre-se sempre de estar vigilante, e ter certeza de que a idéia que está replicando por aí é realmente sua.

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Um comentário sobre “Ideologias a parte: Uma reflexão necessária

  1. Pingback: Por que vou votar na Dilma (ou por que não vou votar no Aécio) | Alguém aí fora

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