Sobre Índios e a Copa do Mundo

Um índio de aspecto frágil e cansado cambaleia agarrado em alguns galhos e troncos de uma solitária árvore. Ele está a mais de 26 horas pendurado nesses galhos, encurralado, demonstrando a resistência obstinada que só conhece aquele que não tem nenhum lugar para onde correr. Ao chão, um efetivo completo do Batalhão de Choque da Policia Militar o cerca, assim como alguns bombeiros. Cerca de 50 manifestantes acompanham de longe, temerosos pela batida policial que no dia anterior prendeu 25 deles e agrediu indiscriminadamente transeuntes, crianças e até uma mulher grávida. Finalmente, o velho índio é arrancado a força por alguns bombeiros. Está terminado. Ao debilitado índio resta um leito de hospital, e mais tarde uma cela de prisão.

Esse é exatamente o quadro visto por todos os que estiveram no Museu do Índio, na chamada “Aldeia Maracanã”, na ultima terça-feira, 17/12. Se você nunca ouviu falar desse lugar, certamente ouviu falar de seu vizinho, o “Estádio do Maracanã” do Rio de Janeiro, templo milionário do futebol, recentemente reformado, onde teremos o encerramento da Copa do Mundo em 2014.

O que nem todo mundo sabe (e não é por acaso) é que desde 2006 o Museu do Índio tem sido palco de uma importante manifestação social, quando um terreno adjacente ao prédio histórico (e ao estádio de futebol) foi ocupado por um grupo de 20 índios de variadas etnias, se transformando em uma aldeia urbana. Esse terreno foi comprado pelo Estado do Rio de Janeiro em 2012, que planejava integrá-lo às obras para a Copa do Mundo de 2014. Os planos envolviam a demolição do Museu do Índio para facilitar a saída dos torcedores, e o terreno apropriado supostamente seria transformado em estacionamento.

A ocupação durou até março desse ano, quando o terreno foi desapropriado pela PM na base de muito cassetete e bala de borracha (qualquer semelhança com o Pinheirinho, ou as ocupações na reitoria da USP, ou as manifestações de junho, são mero acaso). Desde então a região tem sido cenário de conflitos e resistência dos índios (que insistem em ocupar a área a cada nova desapropriação) e manifestantes sensibilizados pela causa.

O conflito da ultima semana resultou em prisões e espancamentos de manifestantes por parte da polícia, como já foi citado acima. Segundo o advogado dos indígenas da Aldeia Maracanã, Arão da Providência Filho, a ação da PM do Rio foi ilegal, já que a ordem judicial de reintegração de posse por parte do governo, expedida em março, foi suspensa em agosto.
José Urutal, um dos índios ocupantes do terreno, assumiu um papel de destaque no evento ao subir em uma árvore do terreno e recusar-se a descer, permanecendo por mais de um dia em cima da árvore até ser removido em ação conjunta da PM e Corpo de Bombeiros.

O desfecho de seu obstinado protesto não foi surpresa para ninguém, José não tinha pra onde correr, estava cercado e encurralado. O que é interessante nessa história não é a rendição, e sim a resistência: A resistência obstinada de uma pessoa sem qualquer perspectiva além da inevitável subjugação. Uma resistência que simboliza não apenas a luta pessoal deste homem, mas a resistência de todo um povo. Um povo indígena. Encurralado. Sem perspectiva. Obstinado.

As pessoas costumam se perguntar, ao falar de absurdos históricos como o holocausto judeu, por exemplo, como as pessoas puderam permitir que a barbárie acontecesse. “Ninguém fez nada?”. Pois é quase certo que um dia seremos todos julgados pelas gerações futuras, que se perguntarão como pudemos assistir calados o massacre secreto de tudo o que restou de nossas raízes, de nossa cultura original, de um povo. De seres humanos.

Desde a colonização do Brasil, nosso país tem sido palco de um verdadeiro genocídio, que ceifa centenas de vidas todos os anos (já foram milhões, em tempos idos, menos ‘civilizados’). No passado, vivemos a tragédia. Hoje, vivemos a farsa. O descaso do PT, que ocupa a cadeira da presidência há 12 anos, com a questão indígena, é particularmente vergonhoso considerando a incoerência do discurso com a ação.

De acordo com o CIMI, a última década registrou uma média de 56,5 assassinatos de indígenas por ano. Foram oficialmente 452 assassinatos entre 2002 e 2010, e naturalmente quando estamos falando de assassinatos na floresta, longe dos olhos da mídia, os números oficiais não traduzem sequer uma fração da realidade. Os assassinatos geralmente seguem o mesmo padrão: Ninguém apertou o gatilho, ninguém mandou matar. São assassinatos sem solução, cometidos longe dos olhos das pessoas ou da mídia.

Segundo as estatísticas produzidas pelo Conselho Indígena Missionário, braço da Igreja Católica, o “agronegócio” é responsável por 10 em cada 10 desses homicídios no Brasil.

A despeito dos insípidos esforços de nossos governantes em criar reservas indígenas, a lentidão nas demarcações acaba criando “bolsões de miséria”, deixando populações enormes de índios marginalizados, vivendo em uma densidade demográfica superior a de favelas, expostos a criminalidade, drogas e tráfico. Além de intensificar os conflitos que resultam em mortes, essa situação colabora para degradar ainda mais a já ameaçada cultura desses povos.

Na reserva de Dourados (MS), por exemplo, 13 mil guarani-kaiowá vivem em apenas 3,5 mil hectares, uma densidade demográfica comparável a da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

O descuido na demarcação das áreas indígenas acaba muitas vezes potencializando o pior dos dois mundos: As populações não tem acesso aos recursos naturais que as permitiram manter o estilo de vida tradicional de seus antepassados (caça, pesca e extração), mas mantém-se marginalizadas do acesso aos recursos da civilização (baixa ou nenhuma qualificação profissional, difícil acesso aos recursos providos pelo estado).

Estamos falando do comum e ainda muito subestimado assassinato cultural das etnias indígenas que restaram. Um fenômeno muito pouco compreendido por uma parcela ainda considerável da população brasileira, que costuma dizer que o índio de hoje em dia não é mais “índio de verdade” ou “se aproveita de sua condição para obter benefícios do governo”. Nada poderia estar mais distante da verdade.

Belo Monte, claro, é um dos melhores exemplos de “assassinato cultural”. Mais simples ainda, o fechamento “na marra” do “Museu do Índio” e sua transformação no “Museu do Futebol”, não deixam de ser um símbolo interessante (e talvez um pouco grosseiro) desse mesmo processo histórico.

Qualquer pessoa com o mínimo de empatia é totalmente incapaz de corroborar conscientemente com o massacre (literal e cultural) que tem acontecido no Brasil, mas poucos de nós realmente saem do campo teórico da indignação, esse que aceita tantos temas, mas só um pouquinho de cada vez. E enquanto diluímos nossa revolta nas horas de nossos dias confortáveis, os corpos se empilham nas florestas, lentamente transformadas em fazendas. Em Altamira, entre uma ou outra paralização de Belo Monte.

O evento da ultima semana parece pequeno, frente à grandiosidade da problemática indígena como um todo. Mas não é. O evento da ultima semana traduz um conceito. Um posicionamento. Expõe o desprezo e violência com que nossa civilização continua removendo o índio brasileiro, de um lugar para outro, em detrimento dos interesses de uma elite econômica, em detrimento de interesses financeiros para os quais uma população economicamente pouco produtiva é praticamente invisível.

Por mais que nos preocupemos com a questão indígena, daqui a alguns meses quando a Copa do Mundo começar, nos esqueceremos da vergonha que foi a desocupação do Museu do Índio (nem entraremos no mérito da roubalheira dos estádios, não é o tema aqui), e torceremos fervorosamente por nossa seleção, patriotas como somos. Quando Belo Monte vencer seu centésimo embargo e finalmente terminar de devastar as terras de algumas centenas de povos indígenas, ficaremos felizes com toda a energia que as usinas vão gerar e como ela sustentará nosso estilo de vida exagerado e desnecessário.

O mundo está mudando rápido. Queremos com todas as forças acreditar que as coisas podem ser diferentes, que ainda há tempo. Mas ao ver aquele pobre líder indígena ser arrancado de cima da árvore pela polícia, um pequeno incômodo removido para podermos curtir mais o novo Maracanã e a copa, o único sentimento que resta é o nojo. Nojo e remorso.

E às gerações futuras, devemos desde já pedir desculpas. E esperar que, quando eles assumirem o mundo cheio de Shopping Centers, Outlets e Estádios de futebol, que vamos deixar de presente, ainda tenha restado alguma coisa boa ou decente nessa Terra pela qual lutar.

Até lá, precisamos continuar lutando. Tentando fazer diferente. Tentando fazer melhor. Que escolha temos?

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