Questionando a grande mídia

Muitas vezes fui questionado em comentários neste blog, ou no anterior, a respeito de minha tendência a ver “teoria da conspiração” em tudo, sobretudo na abordagem midiática tradicional para a política brasileira e a influencia das grandes corporações nas decisões políticas dos candidatos que elegemos.

Achei por bem escrever um texto focando especialmente nesses pontos, que por razões óbvias não recebem a atenção devida nos textos políticos dos veículos mais tradicionais.

Toda vez que ouvimos a palavra “conspiração” nossa mente remete ao Arquivo X e a historiadores descabelados falando sobre a queda de um OVNI em Roswell no Discovery Channel. Eu proponho aqui uma abordagem mais “pé no chão” da palavra.

Não estou dizendo que existe um maligno Dr. Mídia sentado em uma poltrona, acariciando um gato preto e dando gargalhadas diabólicas enquanto distorce as informações que você, pobre cidadão inocente, lê em seu jornal matinal junto de uma xícara de café (alguém ainda consegue fazer isso hoje em dia?). A coisa é bem mais simples do que isso: Simplesmente, uma questão de negócios.

“O objetivo de uma empresa é trazer lucro para o acionista”. Esse é o primeiro mandamento de qualquer faculdade de administração.

Lembremos então desse fato muitas vezes ignorado: Uma grande revista ou um grande jornal é acima de tudo, uma EMPRESA (ou parte do mix de uma).

Como toda empresa que se preze, ela vai buscar os meios de maximizar sua lucratividade, respeitando o máximo possível as leis para que os números não sejam comprometidos, minimizando ao máximo os custos sem que a qualidade do produto caia e os números centrais da equação acabem sendo modificados. Qualquer empresa opera segundo o mesmo preceito: do mercadinho familiar da sua esquina aos maiores bancos ou corporações que se espalham por todo o globo.

Nos velhos tempos em que cada jornal era uma empresa independente, a linha editorial seguida costumava ser a ideologia ou crença pessoal de seu editor ou proprietário. Nada de novo nisso. Todo bom jornalista sabe que essa coisa de “imparcialidade jornalística” é um conto da carochinha, criado para conferir credibilidade (e um caráter inquestionável de VERDADE) a tudo o que é publicado em um certo veículo. Claro que os números eram importantes, mas seu principal administrador era um jornalista, não um MBA em marketing ou administração, e as coisas acabavam sendo um pouco mais inocentes.

O problema é que os tempos modernos criaram os conceitos de CONGLOMERADO. CORPORAÇÃO. GRUPO DE EMPRESAS. Hoje, aquele jornal que você lia com seu café pela manhã se transformou em UM PRODUTO de um imenso MIX de uma corporação, que possui canais de TV, empresas de bem de consumo, escolas, parcerias com bancos, enfim, tudo o que você puder imaginar.

Sabe aquela ilusão do Cidadão Kane, que prefere brigar com a mulher a publicar uma critica tendenciosa para seu numero de dança? Ou aquele J. Jameson dos gibis do Homem Aranha, que fuma charutos e publica editoriais assustadores por não gostar de carinhas fantasiados? Acabou. Já era…

A linha editorial de seu jornal favorito não é mais pautada pela ideologia do editor, ela é pautada pelos interesses econômicos do grupo que a adquiriu. Questão de lógica de mercado.

Isso não significa que tudo o que você lê em um certo jornal é mentira, claro que não. Na verdade os jornais e canais de televisão tradicionais de uma maneira geral ainda são veículos razoávelmente confiáveis, e com mais compromisso com a verdade do que muito blog “jornalistico” aqui ou ali (notem eu aqui atirando no meu próprio pé).

Só que cada um deles tem compromisso com uma verdade: A que for mais conveniente para seu grupo. E é por isso que você, cidadão informado, não vai acreditar incondicionalmente em nada do que ler, sobretudo se ler tudo em um mesmo jornal e revista. O que, francamente, em uma era onde informação e conhecimento estão ao alcance de um “click” de mouse, é um pouco de preguiça…

Mas vamos pegar um exemplo real: A Editora Abril. Líder em 21 dos 24 segmentos em que atua, responsável pela publicação de 54 títulos em um universo de 28 milhões de leitores, também é dona das seguintes empresas: Grupo Anglo (Vestibulares), Grupo ETB (Escolas Técnicas do Brasil), DGB (holding de Distribuição e Logística que reúne as empresas Dinap, Treelog e FC Comercial), Elemídia, MTV, Editoras Ática e Scipione, entre dezenas de outras empresas.

Seu diretor editorial, Roberto Civita, possui bilhões de dólares investidos nos mesmos bancos privados que comprometem 44% do PIB brasileiro com pagamento de dívida interna. Não espere uma capa de Veja chamando sua atenção para a urgência de realizarmos uma auditoria da dívida interna do Brasil, ou sobre como todos os países capitalistas economicamente sólidos da Europa estabeleceram consideráveis impostos sobre grandes riquezas. Não vai acontecer. Isso não significa que essas pautas não sejam importantes … as vezes MAIS importantes do que ler pela vigésima vez um suposto “escandalo” de um certo partido de esquerda.

E certamente mais importante do que capas como essas:

VEJA NOVO BOM MOCISMO

VEJA - MILAGRE

VEJA - ELES VENCERAM

Sei que bater na Veja é chutar cachorro morto hoje em dia. Ninguém realmente informado leva essa revista tão a sério, mesmo os que ainda lêem ela. Mas em uma menor escala, o mesmo pode ser considerado para qualquer publicação, e gostaria de reforçar: Tanto de direita quanto de esquerda.

E é justamente por isso que temos que ser particularmente cautelosos com a “mídia investigativa” do Brasil. A função de “patrulheira da corrupção” que a grande mídia assumiu desde a volta da democracia na década de 80 é ótima, mas deve ser enxergada com muito, muito espírito crítico.

Devemos sempre lembrar que essa luta contra a corrupção empreendida por um certo jornal ou revista TAMBÉM possui uma pauta definida por interesses próprios.

Vivemos em uma constante guerra entre partidos, uma “batalha de reputações”, onde os veículos de mídia operam como elementos-chave em todo esse processo. Os jornais – longe de serem apenas ferramentas – são participantes dessa “batalha” com vontade própria e interesses econômicos próprios na definição dos dirigentes do governo. São o principal instrumento de formação da opinião publica e sabem disso.

Se você fosse um político e tivesse a oportunidade de influenciar a pauta editorial de um grande veículo de comunicação, sabendo de seu poder na formação da opinião de seu eleitorado, você não faria isso? Não é uma questão de conspiração, estamos falando apenas de negócios.

Não estou dizendo que quando um corrupto é denunciado por um jornal ele seja santo. Mas toda vez que uma grande denúncia de corrupção saltar aqui ou ali vale dar uma lida no que os outros veículos de comunicação estão falando – inclusive veículos da oposição, é claro. O problema é que, ao ler (ou assistir) apenas um veículo de comunicação ou outro, acabamos ficando “viciados” em apenas um viés e nos tornamos “massa de manobra”. Viciados pela posição uniforme do veículo onde buscamos informação, acabamos consumindo política como consumimos futebol: elegendo times. E nos tornamos cegos ao plano maior.

Um bom exemplo de como o vício em apenas um veículo de comunicação pode nos dar uma visão distorcida da realidade é o que ocorreu na época do Movimento Occupy Wall Street em NYC, e seu eco brasileiro, o chamado “Acampa Sampa”. Milhares de manifestantes se reuniram em São Paulo para protestar contra o capital descontrolado, contra os bancos e as mega corporações, e a Veja transformou esse movimento em um manifesto anti-corrupção (ou melhor, anti PT, já que para a revista as duas coisas são equivalentes):

Também não é a toa que os indignados reagiram violentamente a essa decisão da revista, protestando em frente ao prédio da Editora Abril, queimando revistas e publicando notas em seu site oficial desmentindo a reportagem:

http://15osp.org/2011/10/26/a-veja-nao-nos-representa/

Diferentemente da VEJA, que assumiu a postura de bastião da verdade, algumas publicações um pouco mais sérias, como o Estado de São Paulo e a Carta Capital, já assumiram abertamente sua preferência por um partido ou outro.

Agora, uma vez que essa preferência foi assumida, não seria relevante buscar em cada uma dessas publicações um viés diferente, para não se deixar enganar por uma linha editorial ou outra?

Talvez uns 10 anos atrás, quando a maioria da informação ainda era publicada em papel ou noticiada em jornais, era meio dificil fazer uma busca criteriosa por informações de diferentes perspectivas. Hoje não é. Talvez seja mais importante ler dois pontos de vista sobre um mesmo acontecimento ou situação do que ler duas reportagens diferentes em uma mesma publicação. É tudo uma questão de priorizar e selecionar, dentro do tempo que você tem disponível.

Um povo desperto é um povo “perigoso” para o sistema vigente de manutenção de poder. Quando cai a caneta, levanta-se a espada, então um povo informado deve estar preparado também para um crescimento da violência estatal e da repressão. É o que temos visto ocorrer, desde o Occupy Wall Street e os Indignados de 2011, atingindo no Brasil talvez seu ápice nas manifestações de Junho de 2013. Esse é o animal acuado mordendo, é sempre assim que funciona.

De qualquer forma, o processo histórico é esse. Não dá pra voltar atrás e nem queremos. Questionar a informação, buscar a alternativa, confrontar a mentira quando ela surgir, é o único jeito de realmente mudar o mundo e a estrutura atual das coisas.

A pessoa que acredita estar combatendo o poder vigente se embasando na informação de uma unica fonte está invariavelmente iludido, e esse despertar é uma de nossas maiores urgências nesses tempos tão conturbados.

…………..

MATERIAL COMPLEMENTAR

Sobre a crescente violência na repressão dos movimentos Occupy:

http://www.alternet.org/story/153172/how_do_we_know_ows_is_winning_elites_are_desperate_to_suppress_it/?page=1

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2011/nov/25/shocking-truth-about-crackdown-occupy

http://rt.com/news/occupy-us-camps-dismantle-543/

Desde 2004 o PSDB gastou R$ 250 milhões com a mídia (sem licitações):

http://www.viomundo.com.br/denuncias/serra-psdb-educacao-midia-acoes-entre-amigos.html

O maior confronto entre ocupantes e policia em NY desde o inicio dos protestos. O tempo passa e o movimento só se fortalece:

http://rt.com/usa/news/occupy-wall-street-619/

O que realmente aconteceu no ultimo dia 11.11.2011 (e foi ignorado pela mídia, claro):

http://www.youtube.com/watch?v=ctlW6vZgQuo

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