Sobre Steve Jobs, Zeitgeist e Revolução

Nota do autor: A morte de Steve Jobs ter acontecido durante um período tão selvagem de explosões anticapitalistas como o movimento dos Indignados e o Occupy Wall Street sempre me soou no mínimo algo irônico. A diferença da repercussão desses fatos nas pessoas ao meu redor por outro lado nunca soou irônico, apenas um pouco triste.

Faz meses que eu queria ter escrito esse artigo, e é com prazer que agora o submeto a sua avaliação e os convido a discuti-lo comigo. Um grande abraço!

Com o crescimento do Movimento Zeitgeist e também a divulgação do ótimo documentário com mesmo nome, essa é uma palavra que tem sido muito usada, mas cujo significado acredito ser misterioso para a maioria das pessoas. Zeitgeist significa basicamente o “espírito da época”. É o conjunto de pensamentos, opiniões e posicionamentos comuns à maioria dos indivíduos nascidos em certo momento histórico e pertencentes a certo grupo social.

O “espírito da época” é o que determina se a maioria das pessoas de certo espaço-tempo da história acredita em Deus ou em Osíris, ou Zeus, ou Odin. É o que determina se a maioria das pessoas deseja ser um cavaleiro, ou um nobre aristocrata, ou CEO engravatado, ou um herói de guerra. É o que determina se normal é ter preconceito contra gays, ou negros, ou então ser cabeça aberta, vestir uma roupa colorida, praticar sexo livre e colocar flores na ponta de espingardas.

É evidente que não se pode considerar a imensamente complexa raça humana uma grande massa. Pessoas são diferentes, OK. Mas somos invariavelmente produto do nosso ambiente em grande parte de nossa personalidade, e estamos muito mais presos a essas premissas iniciais do que gostaríamos de admitir.

Retomando o paralelo com o evolucionismo de Darwin de meu ultimo texto, podemos assumir que diferentes ambientes favorecem indivíduos com diferentes características. Podemos assumir que um sujeito ponderado e dado à filosofia não iria muito longe durante o período de cruzadas na Europa, nem faria brilhante carreira no exército de Gengis Khan ou Alexandre o Grande. Um sujeito questionador, com dificuldade em obedecer à hierarquia, não teria grande sucesso se nascesse na Alemanha durante o Terceiro Reich ou na Itália Fascista de Mussolini.

Isso nos leva a lançar um olhar critico ao espírito de NOSSA época e aqueles que conseguem melhor “vigorar” nesse contexto. Aqueles que consideramos os “heróis”, ou os “vencedores”.

Nos leva a falar de Steve Jobs.

Quando Steve Jobs morreu uma imensa comoção se deu tanto na mídia e internet, quanto nas mesas de bar e rodas de conversa. Todos estavam extremamente contrariados e tocados com a morte prematura do bilionário workaholic. Ao mesmo tempo, Julian Assange, um brilhante ativista que dedicou sua vida a furar o lobby da grande mídia e levar a verdade incomoda às pessoas estava sendo preso, perseguido e injustiçado, e 99% das pessoas que eu conheço sequer tinham conhecimento do fato, quanto mais uma opinião.

O que deve ser notado em tudo isso é a imensa inversão de valores nos quais nossa sociedade busca suas bases hoje em dia.

Vou ser bem direto nesse próximo ponto: Steve Jobs não era um grande homem. Era sem dúvida um grande empresário. Isso se confunde muito em nossos tempos. Steve Jobs era sim um herói, um herói de uma época onde empatia e humanidade valem menos do que prosperidade econômica. Onde design vale mais do que conteúdo.

O bilionário que descobriu que tinha um câncer em 2004 e passou os últimos anos de sua vida trabalhando 13 horas por dia, repudiava o termo “responsabilidade social” e contratou fornecedores que utilizavam trabalho escravo na China, que negou a paternidade da própria filha por anos, é o herói de nosso tempo. Homens como ele ocupam as capas de páginas como Você SA; Alfa, entre outras revistas. Sujeitos como ele ganham prêmios de “homem do ano”.

Veja bem, meu objetivo aqui não é avacalhar um defunto, muito menos um defunto tão ilustre. Estou plenamente ciente da importância de Jobs na difusão do conhecimento pela internet, até no fato de eu estar escrevendo em um blog nesse exato momento. Estou apenas questionando o modelo de nosso tempo. Questionando o FETICHE que gira em torno desse modelo.

Os grandes exemplos de nossa época poderiam ser grandes pensadores, grandes filósofos, ou grandes cientistas. Enfim. Qualquer coisa. Mas em um mundo regido por capital, invariavelmente nossos homens do ano serão grandes empresários.

Os apartamentos dos Jardins, Leblon, etc., estão lotados de milionários como os citados acima, só que anônimos. Homens que possuem muito mais do que jamais serão capazes de gastar, especialmente porque nunca se permitirão sequer o tempo para isso, ocupados como estão em conseguir mais, e mais, e mais.

E tudo o que você aprendeu desde que era pequeno é que com bastante trabalho e sacrifício pessoal quem sabe um dia você poderá ser um deles.

“Se mate de trabalhar. Seja melhor que todos ao seu redor. Sacrifique mais. Faça sempre mais. Se você fizer bem esse trabalho, conseguirá ocupar um cargo de grandes responsabilidades e vai ganhar um gordo salário todo mês.

Com isso você poderá comprar. E comprar. E comprar. E todos vão olhar para você e morrer de inveja. E nesse momento você terá atingido o nirvana do capitalismo. Será enfim bem-sucedido.”

O que você diria sobre uma pessoa que já comeu tudo o que ela precisa e continua se empanturrando mesmo assim. Comendo, comendo, até que o estomago rompa?

O que você diria sobre uma pessoa que já emagreceu cada grama de gordura do corpo e continua fazendo regime. E tomando remédio. E vomitando?

Ou sobre uma pessoa viciada em plásticas, que já mutilou o próprio rosto e corpo tanto que nem mesmo os pais seriam capazes de reconhecer?

Todos os casos relacionados acima seriam encarados por nossa sociedade como doenças. A patologia do poder e da concentração de riqueza que assola parte de nossa sociedade por outro lado, é vista como uma virtude, simplesmente porque ajuda a roda a girar.

Em um reino de loucos, o mais insano de todos ocupa o trono.

O macho alfa de nossa sociedade, o estereótipo do bem-sucedido onde se marca um alvo e para onde são disparadas nossas crianças desde que elas sentam numa cadeira de escola (algumas até antes) é esse: Um lunático faminto por poder. Não tenho palavras delicadas para definir isso.

Se você está se dando ao trabalho de ler esse artigo até o final eu presumo que você já tenha superado essa idéia simplória de felicidade. Mas até você chegar nesse ponto, quanto de sua energia você teve que dedicar para “desaprender” toda aquela baboseira que anos e anos de televisão e educação massificada enfiaram na sua cabeça? Quantas dificuldades você encara todos os dias simplesmente por tentar enxergar o mundo de outra forma?

Nossa sociedade está doente. Nossos modelos são doentios. E para começar a mudar as coisas, mudar para valer, precisamos antes remover esse carimbo distorcido de nossas cabeças.

Para mudar o mundo, precisamos antes de tudo mudar nossa própria cabeça. Eu falei sobre modelos, mas poderia ter falado sobre hábitos de consumo, sobre crenças e valores, sobre qualquer coisa.

O ponto é que precisamos nos libertar das amarras de pensamento que nos prendem ao ZEITGEIST de nossos pais, das gerações passadas, para então sermos capazes de alçar vôos maiores e criar um NOVO espírito. Criar um novo mundo.

Como eu disse acima, acredito que somos (no mínimo em grande parte) um produto de nosso meio. Só que nosso meio está todo errado, então temos que começar a pensar na quantidade enorme de porcaria que precisamos esvaziar de nosso cérebro antes de começar a criar esse novo mundo.

Parte da humanidade parece ter acordado para o absurdo de nossa condição, mas muitos ainda estão enxugando os olhos, cambaleando pelo quarto, tentando se encontrar. Existe um novo Zeitgeist sendo esculpido…nas cidades do oriente médio, nas ruas de NYC ou Madrid… no Vale do Anhangabaú.

Isso nos leva ao ponto principal desse artigo: A urgência por uma auto-reflexão.

Precisamos nos tornar a mudança que queremos ver no mundo.

É extremamente importante, que antes de você erguer uma bandeira na próxima passeata que for organizada no Facebook em nome de qualquer causa, você se faça o seguinte questionamento: Eu sou mesmo a favor disso? E nesse caso, eu estou vivendo minha vida de acordo com essa causa?

Sejamos bem francos e diretos aqui. Se você realmente acredita em um mundo mais justo, com uma distribuição de renda mais humana, então você NÃO quer ser o Steve Jobs. Você não quer ser nada nem perto dele. Também não quer ser o Bill Gates, nem o Abilio Diniz, nem o Samuel Klein ou o Silvio Santos.

Se você acha que as imensas corporações como a Monsanto são um poder destrutivo no mundo atual, então você NÃO QUER trabalhar em uma.

Se você acha que os fazendeiros de gado estão destruindo a Amazônia e isso te incomoda, não pode falar sobre isso sem no mínimo questionar de onde vem a carne que você come, e o quanto você tem comido dela todos os dias.

Não dá pra criticar o consumismo descontrolado das pessoas trocando o smartphone todo ano, ou babando na idéia de um dia comprar uma Ferrari.

Não dá para vestir a mascara de Anonymous na passeata contra o capitalismo desenfreado, e terno e gravata na segunda para ir trabalhar em um banco.

Não estou sugerindo que as pessoas abandonem seus empregos da noite para o dia e morram de fome, claro que não, apenas que elas confiram um peso um pouco maior para seus ideais na escolha do trabalho futuro.

Sei que é uma critica vulgar e apelativa essa que alguns conservadores dirigem aos recentes levantes contra o capitalismo: Que as passeatas em Wall Street estão cheias de playboys com Iphones e roupas da GAP. Sem duvida, é uma critica leviana. Mas mesmo dessa crítica vazia podemos aferir uma pequena lição: Para mudar o mundo, precisamos começar a rever alguns de nossos valores. Analisar alguns de nossos hábitos e costumes.

Não é algo confortável, eu sei. Nesse ponto estou certo de que muitos leitores devem estar um pouco irritados comigo. Alguns pensando que eu sou extremista, talvez, ou hipócrita.

Já me adianto a esses últimos dizendo o quanto é difícil escrever esse artigo, pois eu também estou cheio de vícios e hábitos errados que estou tentando vencer todos os dias. Parcialmente, estou escrevendo esse texto para mim mesmo também.

Mas algumas coisas precisam ser ditas, soem agradáveis ou não:

Não dá para ser um revolucionário e não mudar absolutamente nada de sua vida no dia a dia. Fazer isso é lutar contra si mesmo.

Não terei aqui a arrogância de dizer aos outros que opinião ter. Não quero te dizer o que acreditar, ou que batalhas lutar. Eu apenas ofereço informação e proponho reflexões.

Só estou sugerindo que ao identificar algo que o sensibilize, uma causa pela qual lutar valha a pena, você procure se aprofundar no assunto. Leia, pesquise. Se contextualize. Liberte-se dos hábitos e opiniões que você não escolheu, mas que foram apresentados a você desde criança. Liberte-se um pouco mais do velho Zeitgeist.

Se torne o modelo daquilo  que você gostaria de ver ao seu redor.

Se necessário faça uma lista. Sim, uma lista no papel, de hábitos e mudanças que você acha que deve provocar em sua vida para se aproximar mais dos ideais que te motivam. Além de uma vida mais feliz, você criará um pequeno núcleo de insurgência, uma pequena explosão de revolução, no interior de seu próprio ser.

Vá para as ruas também. Revolução não se faz só de casa. Mudar os hábitos é lindo, mas o capitalismo neoliberal é uma criatura ardilosa, capaz de se adaptar aos diferentes hábitos das pessoas. Ele sobreviverá. É por isso que cedo ou tarde você terá que ir para as ruas.

Mas quando o fizer, poderá erguer o rosto ao sol e sorrir…

Com vontade…

Com propriedade…

Desperto…

Se você quer ajudar a esculpir um novo mundo, você precisa ter as mãos livres.

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