A urgência de um novo sistema

Nota do autor: O artigo a seguir parte de uma reflexão iniciada nos textos “Por que o capitalismo não é a resposta” e “Por que o socialismo não é a resposta” publicados em outubro.Para melhor entendimento, recomendo a todos que não leram esses textos que o façam antes de prosseguir.

Desde a eclosão do Occupy Wall Street e suas diversas vertentes por todo o mundo tem sido quase o mantra de uma parcela conservadora da população dizer que as centenas de milhares de jovens que foram às ruas no ultimo 15/10 (e devem voltar no próximo 11/11) não sabem o que querem.

Eu fui adolescente em plenos anos 90, a década do vazio, e costumava ouvir o tempo todo que nossa juventude não possuía ideais, não tinha nada pelo qual lutar pois nossos pais haviam “conquistado a duras penas” o status quo confortável em que nos encontrávamos.

Olhando o estado “confortável” em que nos encontramos hoje, é quase engraçado pensar nisso. E é irônico como agora os mesmos que criticavam a passividade de uma geração criticam a pró-atividade da geração seguinte. “Ideologicamente difusos” eles dizem.

Só consigo interpretar a confusão daqueles que fazem esse tipo de crítica como cegueira ideológica. Auto-imposta. Um cinismo cuidadosamente cultivado para tornar suportável a falta de sentido que move nossa sociedade atual. Como camundongos correndo em uma roda dentro de uma gaiola, sem olhar para os lados, não percebem a clareza de nossas demandas.

Para deixar mais claro impossível, coloquemos da seguinte forma. O sistema hierárquico da sociedade global contemporânea é o seguinte:

Povo < Estado < Corporações e Bancos

Tudo o que queremos é acabar com essa insana inversão de valores e colocar cada um em seu devido lugar:

Corporações e Bancos < Estado < Povo

Isso só será possível se conseguirmos:

– Exigir que o atrofiado poder do estado volte a regular as ações descontroladas dos bancos e corporações multinacionais.

– Criar os mecanismos necessários para que o povo permaneça no controle do estado, para que a vontade do povo seja realmente o que é levado a cabo por seus governantes. Um novo modelo de democracia.

– Garantir o fluxo adequado de informações entre seus detentores e o povo, para assim garantir que a vontade da população seja fruto de decisões conscientes e embasadas na realidade.

Durante décadas acreditou-se que o único contraponto possível ao capitalismo era o socialismo. Com o fantasma bigodudo de Stalin nos assombrando e a imagem de um tanque de guerra atropelando um estudante indefeso na China ecoando em nossas mentes, não me admira que esse hediondo sistema que é o capitalismo neoliberal tenha sido tão tolerado pelas gerações passadas. Ele era um “mal menor”, por assim dizer.

Uma coisa que devemos manter sempre em mente: Existem outras opções. Existem INFINITAS opções. A humanidade existia milênios antes da Guerra Fria, e já conheceu milhares de sistemas e organizações. O sistema vigente nada mais é do que MAIS UMA tentativa, mais um modelo TRANSITÓRIO, em uma história humana de milhares e milhares de anos.

Esse sistema possui algumas vantagens e alguns defeitos. Deve ser visto, não como linha de chegada definitiva para o avanço humano, mas como matéria prima para o amanhã.

Essa tal “difusão ideológica” da qual esses jovens indignados são agora acusados nada mais é do que produto da constatação óbvia de que eles não querem incorrer nos erros do passado. Estão olhando para o amanhã. Antes de tudo, o que eles querem? Querem discutir.

Para inverter o sistema hierárquico do mundo, como descrevi acima, devemos primeiro destruir os “postulados” criados pelas gerações anteriores. Como disse Hermann Hesse em seu belo romance “Demian”, para nascer precisamos destruir um mundo. As velhas estruturas mentais que nos governam são esse mundo a ser destruído.

Eu os convido a limpar o terreno. Não nos permitamos auto-castrações do tipo: “Essa idéia é louca demais”. Cuidado com os rótulos excludentes, do tipo “Essa é uma idéia de direita (ou de esquerda), não vou nem olhar pra ela.”. Loucura é continuar caminhando em direção ao precipício com os olhos vidrados demais no smartphone para constatar a própria iminência da queda. Loucura é achar que as coisas podem continuar como estão.

Para clarear nossas possibilidades, formulei 8 propostas, 8 itens que se forem atendidos certamente mudarão radicalmente a estrutura hierárquica do mundo descrita acima. São os seguintes:

1 – A intervenção direta do estado na maquina financeira representada pelos bancos. O fim das operações sem lastro, o fim da especulação.

2 – A intervenção direta do estado nas ações das corporações e multinacionais espalhadas pelo mundo. O teto da riqueza. O limite para o crescimento baseado em uma agenda prioritariamente ambiental.

3 – A regulamentação do fluxo de capital das multinacionais para suas matrizes.

4 – O fim da “pessoa jurídica” como a conhecemos. O fim da impunidade do “crime corporativo”.

5 – O fim do seqüestro de patentes. Uma nova visão sobre a “propriedade intelectual”.

6 – O fim da confidencialidade das ações do estado e das corporações. A criação de ferramentas de auditoria com as quais o povo vigiará e regulará as instituições públicas e privadas. Intensa auditoria da dívida pública de cada país, no que concerne os bancos privados.

7 – A revolução da mídia e da comunicação, que dará suporte aos mecanismos de auditoria citados acima.

8 – DEMOCRACIA PARTICIPATIVA. O mais importante de todos os pontos. A submissão completa e incondicional do estado ao povo. A criação de ferramentas psíquicas e tecnológicas que possibilitem esse fim.

Não estou dizendo que essa é a receita de bolo para criarmos um novo mundo. São apenas 8 idéias, 8 coisas em que devemos começar a pensar seriamente se quisermos mudar as coisas. Deve haver muito mais a ser feito. Eu apenas defini 8 tópicos que pretendo desenvolver em meus textos.

Não há espaço nesse artigo para nos aprofundarmos suficientemente em cada um desses pontos. Em vez de tentar fazê-lo e inevitavelmente me tornar superficial ou leviano, prefiro abordar com atenção cada um desses tópicos, um por um, nas próximas semanas.

Os convido a escrever, mandar suas idéias, criticas e sugestões. Afinal de contas as ruas, os acampamentos e os blogs desse movimento nada mais são do que espaços de diálogo. Se preferirem o silencio por enquanto, os convido simplesmente para voltar daqui a uma semana ver a coisa tomando forma.

Não somos “ideologicamente difusos”. Não somos “levianos”. Apenas estamos começando do zero. Estamos construindo um belo monumento à liberdade e ao amanhã, e não sabemos ainda que cara esse monumento vai ganhar no final do caminho.

Como arquitetos de vanguarda, temos apenas uma certeza: Às vezes é preferível arriscar do que aceitar de pronto o erro absoluto.

Espero vocês daqui a uma semana.

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