Occupy World: Iluminismo 2.0

Como um generalista, ou seja, um daqueles caras que gostam de ler sobre TUDO mas não se especializaram particularmente em nada ( praticamente um pária nos dias de hoje), sempre achei incrível como parece muito mais dificil falar sobre finanças, cambio, derivativos e ….bom, seus derivados, do que discutir qualquer coisa realmente existente na natureza. Sim, existente, pois “derivativos” não existem de fato. Um sistema criado pelo HOMEM, que só faz sentido em um contexto BASTANTE especifico de nossa história, é muito mais dificil de compreender do que qualquer coisa REAL que se encontra na natureza.

Claro que sem entender nada sobre o assunto fica dificil discutir, e quem domina a informação fica literalmente “por cima da carne seca”.

Esse negócio de “compreender a linguagem para poder questionar” me lembra muito de um pequeno episódio de nossa história que vale a pena retomar:

“Na idade média não se sabia ler. Deixem eu colocar isso de uma forma mais veemente: NINGUÉM sabia ler. Só sacerdotes e políticos. 

Isso era particularmente benéfico para essa classe, afinal os detentores do conhecimento manipulavam o povo para a obtenção de regalias às suas custas. Usavam o domínio da linguagem como forma de manutenção de poder.

Claro que lá por mil quinhentos e bolinha, com a expansão da população urbana, as navegações e o crescimento da classe burguesa, a quantidade de analfabetos reduziu na Europa, mas esse não era um problema – particularmente para os padres – afinal todos os textos religiosos eram em latim.

Daí apareceu um sujeito chamado Martinho Lutero, um carinha subversivo que teve a ‘bizarra’ idéia de que a bíblia deveria ser escrita em outras línguas além do latim, tornando possível às outras pessoas acessarem essa informação DIRETAMENTE, sem passar pelo CLERO.

Claro que a consequência DIRETA disso foi que as pessoas começaram a questionar o clero. Não é como se elas tivessem abandonado a religiosidade completamente, elas simplesmente passaram a regular o clero, pararam de comprar as infames indulgências, tickets VIP para o céu, esse tipo de coisa.”

A internet acaba de criar perspectivas novas e interessantes para nossa auto-destrutiva humanidade. Se em mil oitocentos e bolinha ocorreu o primeiro grande divisor de águas da história humana na Terra, o ILUMINISMO (marcado pela revolução industrial, a revolução científica e a revolução francesa), gosto de pensar que hoje vivemos um ILUMINISMO 2.0 (marcado pela revolução da comunicação e subsequente revolução da democracia).

Claro, a história dirá se estou sendo otimista ou não.

Movimentos como os do ultimo 15 de Outubro (sobre os quais eu tenho falado exaustivamente faz semanas) eclodindo o tempo todo a despeito de todos os esforços dos poderosos dos dias de hoje (representados no passado pela monarquia, nobreza e clero, hoje pelos CEOs de corporações, banqueiros, politicos e barões da mídia) em sufocá-los, são o sinal mais claro disso.

A razão principal disso é uma só: DEMOCRATIZAÇAO DA INFORMAÇÃO. O latim era o portão de aço separando a informação do povo a quinhentos anos atrás, o domínio dos meios de comunicação era o portão de aço separando a informação do povo até meados dos anos 90.

Daí se popularizou uma coisinha maravilhosa chamada internet. E com ela, as redes sociais, os blogs, os tumblrs, os CANAIS.

Dezenas de artigos, textos, vídeos são criados a cada segundo e jogados na rede, feitos por pessoas como eu ou você, que estão de saco cheio e resolveram falar. Alguns entendem mais de finanças ou economia, outros mais de politica ou sociologia. A informação é traduzida da linguagem acadêmica. Ela ganha o mundo.

As pessoas entendem…

Uma lampada acende dentro da cabeça delas ….

Elas se enfurecem ….

Sei que não viverei o bastante para ver isso, mas gosto de pensar que um dia meus filhos ou netos poderão ler um trecho de sua história recente que fale mais ou menos isso:

“Na idade média do neoliberalismo não se entendia de finanças ou economia. Apenas banqueiros, políticos e CEOs de empresas dominavam essa linguagem.

Isso era particularmente benéfico para essa classe, afinal os detentores do conhecimento manipulavam o povo para a obtenção de regalias às suas custas. Usavam o domínio da linguagem como forma de manutenção de poder.

Daí apareceram uns carinhas subversivos, que resolveram começar a investigar as informações que recebiam da mídia ou do estado em vez de aceitar por certo tudo o que ouviam. Eles começaram a ir para as ruas, e escrever, e protestar, e pressionar. Resolveram que queriam decidir os caminhos de sua sociedade DIRETAMENTE, sem aceitar a representatividade aclamada pela classe política e empresarial.

Claro que a consequência DIRETA disso não foi o fim da civilização como a conhecemos. Mas as pessoas começaram a questionar as corporações, e os banqueiros, e os políticos. Não é como se elas tivessem declarado estado de anarquia, ou voltado a viver em cavernas, elas simplesmente passaram a regular essas instituições, a subjugá-las. O mundo voltou para os trilhos a tempo, o ideal iluminista original foi retomado. Nos salvamos da iminente extinção.”

A internet é na minha opinião uma revolução maior do que a industrial, maior do que a roda. É algo que pode modificar um modelo de estrutura de poder que tem se mantido mais ou menos o mesmo desde o início da história.

A difusão da informação correta pode mudar o mundo. E por isso é nossa obrigação ajudar essa informação a ser difundida. É uma questão moral.

Que venha nosso iluminismo 2.0 !

……………………..

 

 

OBS: Para ilustrar como assuntos complexos e essenciais para o ser humano tem ganhado a rede de forma acessível e criativa, coloco abaixo dois exemplos excelentes.

Um deles é um vídeo que resume muito bem a bolha dos imóveis que acabou culminando na crise de 2008 e no começo do fim do mundo como o conhecemos (and I feel fine):

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=EqW9srTn7xM

O outro é a brilhante palestra da ativista ambiental Anne Leonard sobre consumismo e como o ideal neoliberal está consumindo nosso planeta e nos levando à beira da extinção:

http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k

Vídeo. Texto. Placa ou faixa para protesto. Megafone ou mouse. Boicote. O arsenal é variado e está disponível. Do que precisamos agora é gente … gente pra se mover do lugar, pegar essas armas e fazer alguma coisa.

 

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