O problema do socialismo

Quando escrevi o ultimo artigo, onde expus os motivos pelos quais eu perdi a fé no capitalismo como um sistema aceitável para o ser humano, fui acometido por um senso de urgencia imenso em escrever esse segundo texto.

A idéia de que o movimento do Occupy Wall Street possa ser confundido com um levante revolucionário aos moldes da Russia em 1917 me assusta, pois se essa idéia se propagar, perderemos força, perderemos argumentos.

A verdade pura e simples é que o Occupy Wall Street NÃO É UM MOVIMENTO SOCIALISTA. É fácil incorrer nesse erro, afinal o movimento está atacando ferozmente as bases de nosso capitalismo, nos remetendo automaticamente ao seu contraponto historico.

Existe ainda um senso de rejeição muito grande entre minha classe, de uma maneira geral, à palavra SOCIALISMO. E não é a toa. Esse regime, assim como o capitalismo, teve seu tempo, nos ensinou suas lições (sobre o que ser e o que não ser) e acabou. Está morto. Enterremos os mortos para assim nos ocuparmos dos vivos.

Que fique claro antes de tudo que não estou me referindo ao socialismo utópico, ao aspecto filosófico do que Marx dizia (e que deve ser base para qualquer estudo político sério até o fim dos tempos), mas sim ao socialismo prático, ao que a história conheceu e que se mostrou efetivamente possivel quando transformado em ação pela nossa espécie. Da mesma maneira que anteriormente não perdi tempo discorrendo sobre as bases conceituais originais do capitalismo, não o farei agora com sua contraparte.

Sem muitos rodeios, o socialismo EFETIVO que conhecemos também não é a resposta para a raça humana por dois motivos principais :

1)    Ele acredita na idéia da representatividade. Assume que um governo pode representar todo o povo, e confere ao estado um poder quase irrestrito para faze-lo . Como disse em um de meus textos:

“Um político não pode ser a única forma da sociedade exercer seu poder de decisão, pois ele é um homem e pode ser corrompido.“

Como dizia Lord Acton, liberal inglês, “o poder corrupto corrompe absolutamente”. Se o problema do mundo hoje é o poder irrestrito e impunível desenvolvido pelos bancos e corporações (consequentemente pelos homens que os comandam), como posso acreditar que conceder poder irrestrito e impunível para o estado (consequentemente pelos homens que o comandam) seria a solução?

2)    Ele acredita na idéia de que somos todos iguais. Se existe algo belo no sonho original do capitalismo, é a idéia de que os seres humanos são diferentes, possuem sonhos diferentes, anseios diferentes, idéias diferentes do que é ser feliz.

É tolo e perigoso imaginar como utopia para nossa espécie uma multidão de agricultores e operários jantando exatamente as mesmas coisas, em casas exatamente iguais, apreciando o mesmo tipo de musica ou filme, pensando exatamente as mesmas idéias, cercados por filhos com as mesmas roupas.

Voltando a citar George Orwell, dessa vez com seu mais conhecido 1984, essa idéia é uma abominação que viola tudo o que é humano em nós.

A história provou que a unica forma do estado garantir essa igualdade completa entre os homens é exercendo sua força sobre a população. Eu tive a oportunidade de viajar por alguns países que viveram sob dominio soviético, como a Eslováquia, Republica Tcheca, Hungria e Polônia, e sei bem a opinião que as pessoas possuem desses tempos.

Por outro lado, é natural e razoável que esse regime (ou ideal, como queiram chama-lo) seja lembrado quando começamos a falar em revolução nesses tempos de Occupy Wall Street:

– Buscamos poder para o povo.

– Buscamos a diminuição das diferenças sociais entre as pessoas, consideramos uma abominação que 1% da população nade em dinheiro enquanto 22 mil crianças morrem de fome todos os dias no mundo.

– Entendemos que as leis precisam conter os abusos dos bancos e corporações, precisam impor um teto à riqueza absurda, e isso acarreta automaticamente em certas medidas estatais que poderiam ser consideradas “autoritárias”.

– Entendemos que a grande mídia é corrupta, que muitas vezes ela pode se tornar inimiga do povo.

As vezes podemos soar como socialistas. Mas não é isso que somos. A verdade é que o socialismo apenas nos ensinou algumas lições valiosas, que devemos utilizar quando estivermos construindo um novo futuro:

1-    Você não pode ter tudo o que quiser, quando quiser. Não é um absurdo chegar em uma venda querendo comprar bananas, e acabar saindo com peras. A natureza funciona assim.

2-    Não é possível que o céu seja o limite para seu enriquecimento. Existe uma quantidade limitada de recursos naturais no planeta, e para que algumas pessoas tenham acesso a quantidades imensas desses recursos, outros precisam ter acesso a quantidades imensamente pequenas. Para que alguns possam ser ridiculamente ricos, outros precisam ser ridiculamente pobres. É uma logica simples.

3 – O livre mercado, sem nenhuma regulamentação estatal, é um criatura desgovernada e destrutiva tão terrível quanto um governo totalitário.

A idéia de que devemos ter tudo o que quisermos – e ser tão ricos quanto nosso esforço e sacrificio possibilitar – é justamente a abominação que esta violentando nosso planeta e manchando nosso nome como espécie.

O socialismo é um regime extremamente coerente ao confrontar essa abominação, entretanto falhou ao conferir ao estado poder irrestrito para atuar como regulador, assumindo o papel de auditor, juiz e executor.

Os jovens NÃO ESTÃO indo às ruas na Espanha, em Portugal, em Roma, acampando em Wall Street ou no Vale do Anhangabaú, para que o estado tome as rédeas e centralize o poder. Isso não é liberdade. Isso não é Occupy Wall Street.

Os jovens estão indo às ruas, eles estão acampando, pois tanto o estado quanto as corporações falharam em ditar os caminhos para o futuro da humanidade.  Precisamos sim, de um estado mais forte, para que ele contenha os ridiculos abusos dos bancos e corporações, mas precisamos criar os mecanismos adequados para que as massas possam se sobrepujar ao estado no momento que quiserem, se necessário. Democracia Participativa em vez de Democracia Representativa.

E eu insistirei no mesmo mantra até que ele esteja muito claro na cabeça de todos:

”O ser humano é imperfeito. O ser humano é corruptível. Quanto mais concentrado o poder estiver, maiores serão as abominações cometidas por aqueles que os detiverem. Pouco importa se estamos falando de um estadista ou um empresário, poder é poder e nosso sistema atual também tende à centralização”

“A solução está na coletividade. Na democracia representativa. Na mídia espontânea propiciada pela internet, no uso do espaço público da rua para discussões e debates. Pelas manifestações. Pelas vozes se unindo.”

É mais dificil corromper uma legião.

É preciso se libertar dos fantasmas do passado, da velha idéia morta-viva de que o unico contraponto possível ao capitalismo é o socialismo. A Guerra Fria acabou.

Nós precisamos construir um novo contraponto.

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