Carta para um conservador

Oi, tudo bom?

Talvez você não se lembre de mim, mas eu tomei a liberdade de te escrever mesmo assim, porque eu te conheço muito bem. Não apenas por te encontrar muito no dia a dia, por te assistir no noticiário, te ler nas manchetes de jornal, te escutar nos almoços de domingo. Acontece que eu te estudei muito na escola, te encontrei em muitos filmes e muitos livros que andei lendo. Meu convívio com você é quase diário.

Você é a pessoa que em 1890 defendia um tratamento humanitário para os escravos, porém achava que abolir a escravidão era um pouco longe demais. É a pessoa que em 1932 achava que os maridos deveriam conversar com suas esposas sobre os candidatos em que votariam, mas que conceder o direito ao voto a uma mulher, mesmo que apenas a casada e com rendas, já era um exagero. É a pessoa que um pouco depois, em 1946, achava totalmente razoável deixarem as mulheres casadas e de bem votarem, porém achava que estender o direito ao voto para mulheres solteiras, pessoas de baixa renda e analfabetos ia mergulhar o país na anarquia.

Você é a pessoa que está sempre um passo atrás. A pessoa que se considera liberal, mas na verdade está sempre lutando para o mundo continuar sendo como se apresentou a você quando você chegou. Que acredita que até aqui a humanidade evoluiu, porém, que as mudanças propostas nesse exato momento, por outro lado, são aquelas que lançarão a civilização em um abismo de imoralidade.

Você é aquele que nos últimos anos tem aparecido por aí, combatendo o estatuto das domésticas, as cotas, o casamento gay, chamando bolsa família de bolsa esmola. Que hoje panfleta contra o ensino sobre diversidade sexual ou religiões africanas nas escolas, contra a descriminalização do aborto, contra a legalização da maconha. A pessoa que acha que o machismo já foi superado, que o feminismo foi bom no passado, mas agora está indo longe demais. A pessoa que alega não ter nada contra gays quietos em seu canto, mas que acha que eles quererem poder se beijar em público como se fossem “pessoas normais” já é depravação. A pessoa que acha que o mundo era mais legal na época que dava pra contar piada machista ou homofóbica sem ser acusado de machista ou homofóbico.

Você sempre estará lá, às sombras das pessoas tentando tornar o mundo um lugar mais justo para todo mundo, tentando impor apenas a sua realidade, sem se esforçar para tentar entender ou enxergar o que é diferente: Tentando manter as coisas como elas são.

Quis escrever essa singela carta só pra te avisar que você não é novidade. Você sempre existiu e sempre existirá. E você sempre vai perder. Que o mundo sempre seguirá mudando, a despeito de sua inabilidade de compreender essas mudanças.

Mas não se aborreça comigo não, eu também queria te dizer que, às vezes, eu sou você. Que eu combato isso todo dia, mas eu também estou preso às limitações do meu tempo, a aquilo que eu aprendi. Que eu morro de vergonha de várias bobagens que eu falei e escrevi uns tempos atrás, e provavelmente morrerei de vergonha de coisas que eu faço hoje. Queria te dizer que o mundo realmente muda muito rápido, que as vezes assusta, que dá vontade de jogar a âncora e pular do barco, acho que acontece com todo mundo as vezes, com uma coisa ou com outra.

E eu gostaria de sugerir, pra mim e pra você, um caminho melhor: Tentar se projetar no outro. E a partir disso, tentar ajudar (ou pelo menos, não atrapalhar). É um exercício dificil mesmo, e  ainda que a gente tente, vamos errar um monte de vezes. Mas convenhamos: o mundo vai continuar mudando independentemente do que a gente pensa, então eu acho que essa é uma alternativa mais feliz, não é?

Acho que cada geração vem ao mundo para consertar os erros de seus pais, e cometer novos erros, que serão redimidos por seus filhos. O quanto antes aceitarmos que não somos o fim da história, apenas um capítulo intermediário perdido em um livro sem índice, sem começo e sem final, melhor. E dói menos.

E agora, meu amigo de esquerda?

Lula

Uma time line de Facebook inundada por memes sacaneando o Lula. Infinitos questionamentos nas conversas de Whatsapp. Não está sendo uma manhã fácil para quem defendeu um posicionamento político mais à esquerda nos últimos anos.

Perdi a conta de quantas pessoas, oriundas dos mais diversos círculos sociais, me abordaram de alguma maneira questionando: E agora, meu amigo de esquerda?

E agora? Bom, se o Lula realmente estiver envolvido no mar de lama da política brasileira (e, claro, é possível que esteja), que a PF investigue. E se for verdade, que prenda. Política é coisa de gente grande, não time de futebol, e eu não ponho minha mão no fogo por ninguém.

Dito isso, gostaria de registrar que a histeria coletiva que tomou parte da população brasileira (PARTE, sempre bom reforçar isso) me deixa bastante preocupado. Por alguns motivos:

1 – As cabeças do Lula e da Dilma estão a prêmio faz tempo. O Antonio Rayol, delegado da PF que prendeu o marketeiro do PT no ano passado vai ser lançado como candidato a prefeito de Niterói pelo PSDB no ano que vem. Quantos “favores políticos” do tipo não estão sendo prometidos por aí? Não estou dizendo que o Lula é inocente ou culpado, só que existem muitos interesses rolando por trás dos panos,e não dá pra ser inocente e achar que a PF e o Judiciário estão sendo imparciais nessa história. A própria prisão do Delcídio, um “flagrante por crime inafiançável”, é por si só juridicamente questionável, e por mais que eu queira ver corruptos sendo presos tanto quanto qualquer um, fico bem assustado quando nosso ordenamento jurídico é deixado de lado em função da opinião pública, ainda mais quando UMA emissora de TV tem a opinião pública na mão.

Delcidio

2 – Depoimento coercivo contra alguém que nunca se negou a depor é puro espetáculo midiático, para criar a sensação de que hoje o Lula foi “preso” em vez de convidado a prestar depoimento. Se as pessoas acham que isso era mesmo necessário, e que a PF realmente agiu de forma imparcial, cadê a PF na casa do FHC para tirar depoimento pelo inquérito que abriu sobre o envio de dinheiro para a amante Miran Dutra no exterior, por meio da Brasif? Aliás, cadê a PF na casa do Aécio Neves depois que o Youssef expressamente falou em depoimento (esse sim, já homologado) que o presidente do PSDB recebia propina? Alguém vai investigar isso em algum momento?.

moro

3 – Alguém se lembra da capa da Veja em outubro de 2014, noticiando uma suposta delação bombástica do Youssef que colocaria o Lula e a Dilma na cadeia, e que não deu em nada? Talvez seja diferente dessa vez, talvez não, mas as pessoas deviam ter aprendido, com essa experiência, a ser um pouco mais cautelosas antes de acender as tochas e começar a caça às bruxas por causa de uma capa de revista.

4 – É interessante como “a alta do dólar é culpa da Dilma”, quando convém que o discurso seja esse, mas da noite pro dia o dólar cai vertiginosamente, só porque a direção dos ventos dessa manhã agradava ao Deus-Mercado. Claro, é assim que especulação funciona, mas alguém vai lembrar disso na próxima vez que for botar o cancelamento das férias pra Miami na conta do governo?

A questão aqui não é combater a corrupção, nunca foi. Se fosse mesmo, as pessoas teriam comemorado com a mesma intensidade de hoje a decisão que o STF tomou ontem ao colocar o Eduardo Cunha (muito mais influente na política ATUAL do que o Lula, e formalmente acusado de MUITOS crimes) no banco dos réus. As pessoas teriam comemorado também o inquérito que a PF abriu para investigar o FHC, teriam exigido a cabeça do Geraldo Alckmin quando ele tornou os documentos do Metrô de SP sigilosos por 25 anos, logo após delação da Siemens sugerindo a existência de um cartel bilionário.

Enquanto as pessoas tratarem política como time de futebol, “torcendo pro cara que eu não gosto ser culpado”, em vez de torcer para as instituições funcionarem corretamente e para a verdade ser esclarecida, não dá pra falar em combater corrupção. Indignação coletiva é só briga pra ver quem está no poder.

Apesar de tudo, vejo com otimismo o que está acontecendo no Brasil hoje. Nossas instituições são fortes. Elas funcionam. Temos um judiciário ativo, uma PF que opera com liberdade e está no geral fazendo um bom trabalho, um Ministério Público vigilante e que não tem medo de sujar as mãos. Mais gente corrupta foi denunciada no ano passado, por causa do recém regulamentado mecanismo de Delação Premiada, do que nos últimos 20 anos. Ser corrupto está mais perigoso agora, e muito mais difícil. As coisas estão melhores hoje do que eram a 10 anos atrás E certamente muito melhores do que a 20. Antes então, nem democracia tínhamos.
 .
Preferimos divulgar memes do que ler textos, preferimos bater panela na varanda do que tentar entender de verdade o que está acontecendo. Em nossa defesa, no entanto, recordo que em termos de democracia, ainda estamos aprendendo a engatinhar. Somos crianças políticas, e como crianças nos portamos.

Mas vai chegar um momento em que teremos que crescer, ou não vai adiantar tirar esse ou aquele cara do poder, seremos sempre o joguete de alguém. Isso é muito maior do que o Lula, ou o Cunha, ou a Dilma ou o Aécio. Isso diz respeito aos políticos de amanhã, e ao tipo de sociedade que queremos ser: Uma sociedade que preza o Estado Democrático de Direito, e que lutará para que ele funcione, ou então uma democracia para inglês ver, onde vigora aquela máxima: “Para meus amigos tudo, para meus inimigos: a Lei.”?

 

FONTES:

http://www.istoe.com.br/reportagens/447783_A+DELACAO+DE+DELCIDIO

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1743887-pf-investigara-fhc-por-envio-de-dinheiro-a-ex-amante.shtml

http://extra.globo.com/noticias/extra-extra/delegado-da-pf-que-prendeu-marqueteiro-de-lula-sera-candidato-do-psdb-prefeitura-de-niteroi-18788282.html

“O QUE VOCÊ FAZ ?”

Se imagine entrando em uma festa formal, onde você não conhece direito ninguém. Logo você se vê participando de uma rodinha, e durante aquele papo introdutório com uma pessoa que parece interessante, você joga aquela perguntinha básica:

– O que você faz?

Se seu interlocutor vive no planeta Terra há pelo menos uns cinco anos, ele entendeu o que você está realmente perguntando: “Qual a tarefa principal que você exerce que te possibilita pagar suas contas?”

Não há nada de errado em você querer genuinamente saber o que a pessoa faz, é um interesse justo. Mas a questão é: O quanto você realmente quer saber sobre a profissão dessa pessoa, e o quanto você fez a pergunta em modo automático, como parte de um “check list padrão” pelo qual medimos as pessoas (e nos deixamos medir) em nossa sociedade?

A verdade é que a pessoa pode não estar trabalhando e se sentir constrangida. Pode odiar o trabalho e não gostar de ser lembrada dele. Pode até achar o trabalho OK e te responder (mas preferia estar falando sobre qualquer outra coisa), ou talvez, apenas talvez, ela pertença àquela categoria privilegiada de pessoas que estão realizadas e vão ficar felizes de falar sobre o assunto (o que não significa que a resposta vai ser necessariamente divertida de ouvir).

Segundo uma pesquisa publicada em 2015 pela Isma Brasil (International Stress Management Association), cerca de 72% das pessoas do país se consideram insatisfeitas com o próprio trabalho. Estatisticamente falando as maiores chances são as de seu novo amigo ser uma delas, e nesse momento estar olhando para o canto, procurando outra rodinha para se infiltrar onde estejam conversando sobre algo mais legal.

Trabalho é uma parte considerável de nossas vidas, ninguém duvida disso. Mas não é tudo. Mesmo se você dedica 45 horas semanais ao seu trabalho, existem outras 123 em que você está fazendo qualquer outra coisa. E mesmo se você subtrair 7 horas por dia de sono, ainda restam 74 horas em que você está acordado. E vivendo.

E fazendo um curso de fotografia, cozinhando algo gostoso, praticando artes marciais, meditando ou brincando com seu cachorro. Planejando sua próxima viagem internacional, plantando em sua horta urbana, lendo seu autor favorito ou quem sabe escrevendo você mesmo seu próprio livro. Explorando suas paixões.

E mesmo se você for um dos poucos afortunados que realmente ama o que faz e acorda cantando toda segunda feira de manhã, tem imensas chances da outra pessoa não ser, e por outro lado ter uma porção de sonhos, idéias, paixões e opiniões que poderia estar compartilhando nessa conversa, e não está.

Work X Life

Apesar de parecer que está por aí desde sempre, o conceito de carreira é relativamente recente na história humana, e a força que ganhou na construção de nossa identidade pessoal é o que causa tanta angústia. Entre frustrações por não obter o tal “sucesso” ou não encontrar o tal emprego dos sonhos, as pessoas sofrem muito no processo de se deixar definir (e definir os outros) por suas profissões, quando podem simplesmente parar de fazer isso.

Da próxima vez que conhecer alguém em uma festa, em vez de perguntar o emprego da pessoa, experimente perguntar o que essa pessoa gosta de fazer para se divertir. O que ela faz em seu tempo livre? Quais são suas paixões?

Você vai pegar a pessoa de surpresa, é claro. Mas tem muito mais chances de desenvolver com ela uma conversa agradável, divertida e não-genérica. Pode descobrir um companheiro para a próxima brassagem de cerveja artesanal ou para a próxima viagem de mergulho. Talvez a pessoa te  fale sobre algum assunto sobre o qual você nunca ouviu falar, talvez até te desperte o interesse sobre algo que você não conhecia.

E talvez … apenas talvez..a pessoa fale sobre o próprio emprego.

A sociedade é pesada, e as expectativas que colocamos sobre nós mesmos, e sobre os outros, acabam deixando tudo ainda mais dificil. As vezes, o primeiro passo para mudar isso, para aliviar um pouco essa pressão, é simplesmente dar-se conta, e não ajudar a alimentar os clichês que acabam nos incomodando depois.

MAIS SOBRE O ASSUNTO:

http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2015/04/72-das-pessoas-estao-insatisfeitas-com-o-trabalho-aponta-pesquisa.html

A OPRESSÃO DO TRABALHO DOS SONHOS

Imagine que em algum momento de sua vida alguém te deu um mapa do tesouro. Você passou anos e mais anos seguindo esse mapa, e quando finalmente chegou no local do “X”, não encontrou tesouro nenhum.

Frustrado você se pergunta: Será que você não seguiu o mapa corretamente? Será que dormiu no ponto e alguém desenterrou o tesouro antes? Talvez. Mas seria recomendável também você se questionar se o mapa que te deram não era falso, ou se o tal tesouro existe mesmo, pra começo de conversa.

Na contramão das centenas de textos por aí incentivando as pessoas a fazer mais, sonhar mais, não se conformar com pouco, gostaria de fazer uma sugestão: Especificamente no quesito “profissão”, cuidado com esse negócio de “procurar o trabalho dos sonhos”.

Convidar uma pessoa a sonhar menos, nos dias de hoje, especialmente quando depois de tantas décadas de desilusão as pessoas finalmente voltaram a sonhar (aleluia) pode soar como um pecado mortal, mas eu peço sua paciência e sua atenção por mais alguns parágrafos: Prometo que vou explicar.

O velho (e meio tedioso) sonho yuppie da década de 80, do sucesso profissional, a gorda conta bancária, o carro importado e o apartamento ostensivo no bairro nobre, era uma mercadoria. Um pacote completo, que foi razoávelmente adotado como ideal por toda uma geração (a despeito daqueles espiritos livres que sempre destoam aqui e ali).

Esse “pacote do sucesso” das gerações passadas ainda significa “ser bem sucedido” para muita gente, mas temos visto, com o advento da informação (e das redes sociais), o nascimento de um “ideal alternativo”. Hoje as pessoas buscam liberdade plena, o trabalho com um sentido profundo e transformador, que propicie intensas experiências e a chance de mudar o mundo. Todo mundo está falando disso agora.

Acredito que, como eu, muita gente se sentiu fascinado pelo surgimento desse novo contexto, e por tantos sonhadores aflorarem aqui e ali, apresentando suas revoluções pessoais e nos convidando a fazer o mesmo. Vivemos em um mundo em convulsão evolutiva, um mundo de primaveras árabes e ocupações em Wall Street, cooperativas agrícolas, mídia independente, pessoas se demitindo de empregos enfadonhos e viajando pelo planeta. Um mundo onde um escritor pode publicar seu livro sem depender de uma editora, um musico pode jogar sua música na rede sem depender de uma gravadora. Não existe apenas uma maneira de se viver a vida, as coisas nunca mais serão como antes.

O mundo de hoje é muito mais interessante de se viver, muito mais rico, do que o universo yuppie de ontem, onde a grande perspectiva era se matar de trabalhar e ser melhor que os outros por 30 anos para finalmente conseguir conquistar uma boa vida na aposentadoria.

Mas devemos estar atentos a uma coisa, em meio a toda essa energia: Esse novo mundo, de sonhos e quebra de paradigmas, também é bem angustiante – e opressor – à sua maneira. E pode estar tentando te vender apenas uma “nova versão do pacote completo”.

Não se demitir do seu emprego chato no banco e perseguir algo que te faça acordar sorrindo todos os dias, quando tem gente fazendo isso lá fora (e de alguma forma conseguindo pagar as próprias contas), virou um atestado de resignação. Virou um sinal de alarme constantemente ligado, nos dizendo que nossas vidas são enfadonhas, que não estamos fazendo o suficiente, que somos acomodados ou o que seja.

Uma voz interior segue sussurrando em nossos ouvidos que devemos encontrar nosso “emprego dos sonhos” e que, no momento em que “encontrarmos essa coisa que amamos fazer, nunca mais precisaremos trabalhar de novo”.

Deixei essa voz me incomodar por algum tempo, até me dar conta: Essa voz, esse eco constante das redes sociais, dos blogs, das iniciativas lindas que existem por aí (e ainda bem que elas existem), é o mapa falso, para o tesouro falso, que nossa geração de sonhadores ganhou.

Veja bem: Se eu tiver que escolher entre uma voz idealista, que quer encontrar satisfação plena em seu trabalho e ainda pagar as contas com isso, ou a velha voz cínica e individualista de antes, escolho o novo sem nem hesitar. Precisamos urgente de um mundo com mais gente feliz. Precisamos de iniciativas novas, visões novas e pessoas mais focadas em “ser” do que em “ter”. Mas também precisamos às vezes parar, respirar, e pegar leve.

Desconfie de todo mundo que chega falando que “você tem que…” alguma coisa. Você não tem que fazer nada. A vida é ampla e misteriosa, e essa é sua beleza. É extremamente perigoso, no processo de tentar se libertar daquela visão antiga e opressiva do que era o sucesso profissional, a pessoa acabar comprando o sonho de terceiros. Um novo “pacote completo” igualmente inatingível.

Mesmo se você refletir bastante e estiver certo de que suas escolhas são suas, e apenas suas: Calma. Não transforme sua emancipação em uma ferramenta de auto-martírio.

O caminho para ser feliz não é – simplesmente não pode ser – substituir uma meta quase impossível por outra. O sentimento de frustração no fim do dia será o mesmo se você não conseguir aquele cargo na diretoria e aquele milhão antes dos 30, ou se você não conseguir pagar as contas viajando o mundo, sem patrão ou carteira assinada.

A foto no Facebook do cara que abriu uma start-up e está trabalhando de um resort na Tailândia, virou a nova “Ferrari na garagem do vizinho” para a nossa geração, mas é essencialmente a mesma coisa.

Working-Remotely

Na sessão de Auto-Ajuda das livrarias, a prateleira onde existem livros te ensinando “técnicas para ser um executivo de sucesso” é a mesma que abriga livros te dizendo que você pode conseguir o que quiser se depositar energia o suficiente para isso. E em uma outra prateleira na mesma sessão estão os livros te ajudando a lidar com o fracasso e a frustração de ser quem você é (quando não conseguir alcançar aquele sonho vendido logo ao lado). Existe alguma coisa muito errada com esse sistema.

Podemos assumir como fato que, da mesma maneira que a maioria das pessoas do mundo simplesmente não vai conseguir ser presidente de empresa ou empresário de sucesso, a maioria das pessoas do mundo nunca conseguirá pagar as contas fazendo o que mais ama, e com isso “nunca mais precisando trabalhar na vida”. Ou estamos assumindo que a imensa maioria das pessoas do mundo está condenada a uma vida de resignação e infelicidade, ou precisamos assumir algum outro ponto de referência sobre o que é sucesso e fracasso, sobre o que molda uma vida feliz e com significado.

Esse texto não é um ode ao conformismo, não está sugerindo que você desista de encontrar um emprego que te preencha, que tenha significado e te faça feliz. O que eu estou sugerindo é que você busque a felicidade, busque tornar o mundo um lugar melhor, busque fazer coisas que você gosta, a despeito do seu emprego.

Se rolar de fazer isso tudo e ainda pagar as contas desse jeito, melhor ainda, claro que é. Mas se não der, lembre-se de que você ainda assim pode criar, pode explorar, pode fazer do mundo um lugar melhor. Lembre-se de pegar leve.

Pegar leve consigo mesmo, e também com os outros ao seu redor.

Entre a pessoa se vender completamente e trabalhar para uma corporação do mau ou largar tudo para perseguir um sonho idealista custe o que custar, existem milhões de estágios intermediários. A profissão dos sonhos, ou a busca por ela, é apenas um dos muitos aspectos que podemos trazer para nossa vida, para esse plano maior que é nossa experiência humana.

Sonhos são inspiradores, são força-motriz, tem o poder de mudar o mundo. Mas no momento em que eles te prendem e te martirizam, eles deixam de ser um sonho. Se transformam em angústia. Daí é hora de você dar um tempo. Respirar e contemplar um pouco a paisagem.  Não importa a pista em que você escolheu correr, a vida é muito mais do que uma linha de chegada.

 

MAIS SOBRE O TEMA:

– Alain de Bolton – TED sobre “Visões de sucesso” : http://www.ted.com/talks/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success?language=pt-br#t-186827

– HAPPY – Documentário sobre felicidade dirigido por Roko Belic – Tem no Netflix, ou para alugar neste link: http://www.thehappymovie.com/

– Leonard Melnow: O Andar do Bêbado

Nós, a “esquerda caviar”

Adaptação livre de texto original de Yuri Bossonaro

Desde que a velha “classe conservadora brasileira” saiu do armário, por assim dizer, e descobriu a internet e as redes sociais, tem se tornado cada vez mais popular em certos fóruns de discussão o velho termo francês: “Esquerda Caviar”.

O termo, um dos mais notórios argumentos “ad hominem” (aquele que ataca o interlocutor em vez da idéia) da atualidade brasileira, é um instrumento discursivo do debatedor conservador contra a suposta “incoerência” da classe média de esquerda que, mesmo tendo posses, defende maior justiça social. Em outras palavras: é uma tentativa de deslegitimar esta esquerda, na suposição de haver uma imensa “hipocrisia” em alguém que não é pobre estar preocupado com quem é.

Essa lógica sugere que a única possibilidade de “coerência” que resta à classe média é “defender os próprios privilégios”. A alternativa seria o “suicídio” da própria condição:

Empobrecer.

Funciona da seguinte forma: ou se defende integralmente a classe média (e, na verdade, de onde viria a iguaria emprestada como adjetivo – “caviar” -, a elite) ou é obrigação moral da suporta “esquerda caviar”, “deixar de ser” classe média. Abandonar a segurança financeira.

O que os usuários desse argumento ignoram é que a “esquerda caviar” não defende o empobrecimento geral da população, apenas a redução do imenso abismo entre os que têm demais (o que não é exatamente o caso da classe média ´intelectual´, do professor da USP, do comediante colunista da Folha, quanto é o caso de um Abílio Diniz ou Luciano Huck da vida, por exemplo) e os que não têm nada.

Isso não precisaria ser alcançado por meio de uma “revolução comunista” com consequências catastróficas e fome generalizada, como alardeiam os neo-paranóicos que não conseguem enxergar um meio termo entre o livre-mercado fora de controle e a russia soviética de Stalin. Poderia ser perseguido dentro dos limites da democracia, com medidas pontuais como a tributação sobre grandes riquezas por exemplo (adotada com sucesso em potências econômicas sólidas como a Alemanha ou a França), a ampliação de programas sociais e a garantia de alguns direitos generalizados (que aliás, todo país desenvolvido protege).

Consta

Se seguirmos a lógica proposta por Rodrigo Constantino e outros “jornalistas” da conservadora mídia brasileira, a unica possibilidade do ‘esquerda caviar” seria doar tudo o que é seu para os pobres. Até esse momento não haveria “qualificação moral” para tecer qualquer argumento político.

A classe média de esquerda intimida a elite dominante justamente porque ela tem voz, porque tem espaço na mídia, porque tem tempo e conforto o suficiente para questionar a sociedade, em vez de estar apenas se matando para sobreviver dentro dela. É conveniente que a unica forma de manter a coerência, para essa categoria, seja o sacrifício da própria condição.

E enquanto os profissionais assalariados de classe média praticam harakiri econômico para conseguir manter a coerência, os CEOs de impérios de comunicação, presidentes de empresas e diretores de banco ficam livres para receber seus salários de R$ 1.8 milhões por mês sem serem importunados.

Aliás, R$ 1.8 milhões não foi um valor inventado, era o salário do Luciano Huck até 2014 pelo menos, segundo notícia publicada no Terra (link no final do texto). Um salário de R$ 1.8 milhões poderia pagar 450 salários de R$ 4.000 . Claro que não funciona exatamente assim, mas a relação fica óbvia: Quantos Lucianos Hucks não estão segurando o salário da maior parte da população?

huck

Não dá exatamente para jantar caviar ganhando um salário de R$ 4.000, mas dá pra viver com dignidade, e é isso que é negado à maioria das famílias do Brasil para que alguns possam viver vidas de nobreza vitoriana.

Percebe-se logo que o “caviar”, dito no termo, refere-se a luxos que, sim, boa parte da “esquerda caviar” não tem e nem quer ter. Não queremos caviar, fazer compras no Cidade Jardim ou vários carros na garagem.

Aliás, preferimos uma boa comida de boteco, bater perna na Vila Madalena, morar perto do metrô e não precisar ter carro. Não queremos um segurança particular, preferimos que isso não seja necessário, porque uma sociedade mais justa é uma sociedade com menos crime. Não amamos os muros dos condomínios e dos shoppings, preferimos a democracia da rua, que é muito mais rica e interessante.

Não somos a “esquerda caviar”. No máximo, somos a “esquerda cerveja artesanal” (como brincou o Gregório), a “esquerda-apartamento-próprio”, a “esquerda-universidade boa”. Evidentemente não somos os exemplares da aristocracia “comam-brioches”. Na verdade, ESSES são os que cunharam o termo.

Não, eu não vou abrir mão do que eu considero que todos deveríamos e poderíamos ter. Quero que mais gente consiga ter isso. Nenhum de nós precisa de MUITO. Mas certamente também não é preciso que, para defender um Brasil mais justo, não tenhamos nada.

gregorio

Se a “esquerda caviar” for aquela que, na verdade, não come caviar, mas que pretende questionar e votar contra uma sociedade de privilégios, abusos e excessos que se pagam com miséria, “aceito essa pecha”.

Se ainda assim, isso for ser “incoerente”, para eles, também aceito. Até porque já dizia Woody Allen que a “coerência é o fantasma das mentes pequenas”.

LEITURA COMPLEMENTAR:

Sobre a incoerência da tributação do Brasil, que privilegia as grandes riquezas (Hucks, Setubals, Civitas e Marinhos da vida) e pesa sobre a maioria da população:

http://www.cartacapital.com.br/economia/mais-injusta-que-excessiva

Algumas palavras sobre o tipico usuário do termo “esquerda caviar”. Sobre ódio e desinformação:

http://www.cartacapital.com.br/politica/varrer-limpar-aniquilar-a-apologia-do-exterminio-venceu-a-eleicao-1813.html

Os Cromossomos do Saara

Recentemente fui  a turismo para a Europa, e como todo brasileiro me deslumbrei com a beleza de suas cidades, com a riqueza de sua cultura, com a segurança de suas ruas. Encontrei por lá um querido amigo que está vivendo em Barcelona, e ele me mostrou outro lado da moeda e me fez levantar um questionamento que carreguei comigo pelo resto de minha viagem: Quem pagou o preço de toda essa civilização?

Meu amigo é um dos idealizadores do lindo projeto CROMOSSOMOS, desenvolvido em parceria com a ONG Palhaços sem Fronteiras. Eles estão organizando uma expedição entre os dias 27 de outubro e 13 de novembro para um remoto campo de refugiados saarauís, no norte da Àfrica, onde farão apresentações, espetáculos e oficinas de capacitação de palhaços para a população, além de registrar tudo em documentário. A idéia do projeto, além de levar esperança e alegria para uma população isolada e privada do mínimo (explicarei mais a seguir), é atrair atenção do mundo para essa região tão remota, além de capacitar refugiados para uma aptidão artística rentável quando eles puderem regressar para suas terras, algo que todos estão esperando ansiosamente.

CROMOSSOMOS

Intrigado por nunca ter ouvido falar do povo saarauí ou não ter a menor idéia de que “terras” são essas? Pois é, eu também não sabia nada sobre eles. Raramente um turista viajando pela Espanha, França ou outra nação mediterrânea na Europa para pra pensar no Norte da África, apesar de existir uma relação muito íntima entre essas regiões. Uma relação que somos capazes de compreender bem, porque também aconteceu conosco: Colonização. Erros cometidos no passado. Cicatrizes. Injustiças que perduram.

A diferença é que, a despeito das nossas injustiças, dos nossos problemas sociais, da nossa insegurança, pelo menos possuímos uma nação para chamar de nossa. O povo saaraui não: O Saara Ocidental é hoje a única região da África que não é independente, não possui seu status de país oficializado.

Resumindo bastante a história desse povo, os saarauís são um povo nômade que habitou a região do Saara Ocidental por séculos, e passou as ultimas  décadas sob os cuidados dos colonizadores espanhóis. Quando a Espanha decidiu, como fizeram as demais nações européias, “conceder a independência” da África, deixou  o povo saarauí à mercê da já independente nação de Marrocos, que marchou sobre o território desse povo e o clamou para si no que ficou historicamente conhecido como “Marcha Verde”. Esse território, o Saara Ocidental, além de rico em pesca (voltado para o Atlântico), é uma das maiores reservas naturais de fosfato do  planeta, além de potencial região de extração de petróleo.

Menina saaraui

A ocupação do território saarauí só foi possível porque a Espanha se omitiu em apresentar oposição a Marrocos, cedendo à pressão da França e dos EUA. Uma omissão consciente por motivos diplomáticos. Um intenso conflito envolvendo Marrocos, a Mauritânia e a Argélia se seguiu, e a discrepância de poderes logo  fez com que as lideranças saarauis – conhecidas como Frente Polisário- abandonassem qualquer esforço de luta armada e se resignassem às tentativas diplomáticas de solução do problema. Constantes abusos de direitos humanos por parte de Marrocos fizeram com que cada vez mais e mais saarauis cruzassem a fronteira com a Argélia, formando cinco imensos campos de refugiados onde vivem mais de 200.000 refugiados hoje. Pessoas instruídas, orgulhosas, unidas por um sonho em comum: Um dia voltar para casa.

O Marrocos construiu na região um gigantesco muro, com quase 3.000 km de extensão, e o cercou de minas terrestres, fazendo daquela uma das regiões mais perigosas do mundo. O muro, completamente ilegal, garante que os donos originais do Saara Ocidental fiquem isolados de sua terra, e garante ao Marrocos a continuidade da exploração do Fosfato. A posse da região garante ao Marrocos a posição de maior exportador de fosfato do mundo, sendo responsáveis por 30% da oferta mundial do produto (30 milhões de toneladas ao ano), utilizado principalmente como fertilizante. A Europa é responsável pela compra de grande parte dessa extração, mas o Brasil também é um grande comprador.

Mapa saara

Os refugiados saarauis são um povo gentil e educado, que valoriza a família e prega um estilo de vida simples. Surpreendentemente o grau de analfabetismo por lá é zero, pois todos estão esperando a hora de voltar pra casa e querem estar preparados quando esse dia chegar. Passam seus dias privados de saneamento básico, trabalho e acesso à água e comida, sobrevivendo da bondade dos poucos que chegam até eles.

Campo de cima

Se a omissão em nome da diplomacia foi a grande responsável pelo inicio dessa grande injustiça., a exploração do fosfato, e os interesses econômicos de toda a Europa e do mundo na continuidade de sua exploração por Marrocos, hoje garantem que essa imensa injustiça se mantenha. Nossos campos e plantações são fertilizados com a esperança de um povo, sem que ninguém tenha a menor idéia do que esta acontecendo.

Ao passearmos pelas lindas Ramblas de Barcelona, é fácil não pensar na África. É fácil não pensar na sua violenta e arbitrária divisão, na sua predatória – ainda nos dias de hoje – exploração, nos muitos povos marginalizados e sofrendo injustiças, entre os quais figuram nossos amigos saarauis. Não pensamos nisso, pois sequer sabemos a respeito. Está longe demais de nosso alcance. Não se fala nisso nas brochuras dos pacotes turísticos, ou nos livros didáticos que estudamos no colégio. Não há espaço nos jornais para todos os povos esquecidos do mundo, como saberíamos algo sobre um povo pequeno e perdido no deserto?

Meu principal ponto aqui é mostrar como uma breve conversa com um amigo vivendo fora de seu contexto, levando um estilo de vida diferente do que eu estou acostumado, já revelou todo um universo de pessoas necessitadas, de opressão, de abuso de direitos humanos, escondido por baixo do tapete em minha bela e confortável viagem pela Europa. Quantos outros casos como esse não existem?

Quanta injustiça não persiste à sombra de nosso conforto, escondida por trás do palco que foi montado para enxergarmos o mundo? Ao elogiarmos a beleza da civilização construída por um país desenvolvido que visitamos, seja ele EUA ou qualquer lugar na Europa, raramente pensamos no custo daquela beleza toda para dezenas de países oprimidos por eles.

Existe um palco armado, e existe todo um sistema que se beneficia de nosso desconhecimento a respeito dos problemas do mundo. Porque no final das contas, quando as pessoas entendem sua relação com o meio e refletem sobre a conseqüência de suas ações, algo muda.

As pessoas se importam.

Uma condição imprescindível para que nosso atual sistema, baseado em troca de bens e serviços e intenso acúmulo de capital (e inevitável criação de injustiça), funcione, é a visão limitada de cada integrante dessa cadeia de seu papel no todo:

  •  O explorado não pode se ver como vítima. Ele precisa almejar um lugar entre os privilegiados, e acreditar que com sacrifício e trabalho duro, um dia ele chega lá.
  • O explorador não pode se ver como opressor. Ele precisa acreditar que merece a condição que possui, que a conquistou, e que se há muita gente passando necessidade é uma condição inevitável.

 

Por outro lado, quando essa barreira é quebrada e entramos em contato com um povo necessitado, explorado, marcado pelo abuso e pela violência, é estabelecido um contrato vitalício entre as duas partes. Consciência é uma via de mão única.

A maior importância de grupos como os CROMOSSOMOS, de projetos como os da ONG Palhaços sem Fronteiras, é quebrar essa barreira que separa o nosso mundo – o mundo das relações de capital – e o mundo que existe por baixo, silenciosamente pagando nossa conta sem que sequer notemos.

Rua campo refugiados saaarauis

A questão Saharaui segue sendo uma das situações socialmente emergenciais mais desconhecidas do resto do mundo, mas não precisa ser assim. A situação pode ser revertida, e pela primeira vez na história – devido à internet e às redes sociais – temos condições de quebrar essas barreiras e lançar luz a essas pessoas esquecidas. Nunca foi tão impossível alegar inocência, ou desconhecimento, mas também nunca foi tão fácil fazer alguma coisa.

Vivemos em uma era onde podemos questionar as marcas que usamos, os alimentos que comemos, o meio de transporte que escolhemos. Podemos assumir a responsabilidade, na hora de votar, na hora de consumir, na hora de exigir que os governos mais poderosos assumam a responsabilidade pelos estragos feitos em sua história. Somos um povo mestiço. Colonizado. Marcado. Sabemos o que é isso.

Quis escrever esse texto primeiramente para divulgar o belo trabalho de meus amigos, e convidar meus leitores a conhecê-lo mais a fundo (a expedição vai acontecer mais ainda precisa de ajuda). Em segundo lugar, gostaria de convidar todos os leitores a refletir, em suas próximas viagens, ou mesmo em seu dia a dia, que mundos não existem às sombras do que chamamos de realidade, desconhecidos aos nossos olhos e ao nosso coração.

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Para conhecer mais sobre a expedição dos CROMOSSOMOS que vai acontecer no Saara ainda esse mês:

http://www.catarse.me/pt/cromossomos2014

https://www.facebook.com/cromossomos2014

Para saber mais sobre o povo saaraui e sua luta para voltar pra casa:

http://www.bizzentte.com/2012/10/hijos-de-las-nubes-2012-documental-canal-sahara-espanol/

http://mundorama.net/2010/01/21/a-dificil-e-esquecida-questao-do-saara-ocidental-por-pio-penna-filho/

http://xadrezverbal.com/2014/09/10/saara-ocidental-quando-a-hipocrisia-e-o-pior-inimigo/

http://www.ufrgs.br/sebreei/2012/wp-content/uploads/2013/01/Rodrigo-Duque-Estrada-Carla-Ricci.pdf

http://removethewall.org/

http://www.anba.com.br/noticia_corrente.kmf?cod=12279907&indice=70

 

 

 

Ideologias a parte: Uma reflexão necessária

Como eu previa, uma vez passada a benéfica (e surpreendente) multipolarização do debate político pré-eleições de outubro, desde o segundo turno voltamos ao bom e velho PT versus PSDB, e como não poderia deixar de ser, aos bons e velhos jargões dividindo o mundo entre santos e demônios.

No meio de tanta informação, acredito que dois pontos essenciais ao debate político no Brasil têm sido ignorados – ou deixados em segundo plano – por muitas pessoas, e achei pertinente escrever um texto específico sobre eles. Acredito que as informações relatadas nesse texto serão úteis independentemente da ideologia do leitor, e devem ser seriamente considerados:

  • Sobre os apoiadores de campanha

A verdadeira briga por uma mudança radical na política brasileira já aconteceu, e nós perdemos.

Não, não estou falando da Marina. Ela podia representar muita coisa, mas definitivamente não representava uma “nova política”.

No Brasil, o financiamento irrestrito de candidaturas por parte de imensas empresas privadas, faz com que, não interessa realmente quem seja eleito, os interesses de uma pequena minoria de empresários SEMPRE vão prevalecer sobre os do resto da população. Marina, Dilma e Aécio, os três principais candidatos das ultimas eleições, são nesse sentido muito parecidos, os três receberam financiamento massivo da parte das mesmas empresas (que querem assegurar seus interesses independentemente de quem suba ao poder).

Friboi, Itaú, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Camargo Correia, OAS, Unilever.

Os poucos candidatos que propunham mudanças radicais, especialmente Luciana Genro (que propunha o fim do financiamento privado das candidaturas), ficaram pra trás e o segundo turno das ultimas eleições foi basicamente a briga entre dois titãs financiados pelo interesse do capital privado, muitas vezes inclusive pelas mesmas empresas.

Esses candidatos possuem visões de Brasil bem distintas, esse blog jamais escondeu seu viés à esquerda, mas é vital a compreensão de que, não importa qual o desfecho das últimas eleições (ou qualquer eleição futura) sem que sejam feitas mudanças estruturais radicais para interromper essa estrutura de patrocínio que existe atualmente.

A única forma de reverter a corrupção institucionalizada é defender o “fim do financiamento privado” nas campanhas, apoiada por alguns políticos e sustentada como bandeira, sobretudo pelo PSOL e outros partidos menores que só aceitam doações de PESSOA FÍSICA.

Fazer política no Brasil, enquanto essa situação não mudar, continuará sendo ocupar o espaço público. Protestar. Ir além das urnas e suas limitadas (e comprometidas) alternativas. Isso é um fato inegável, que não tem recebido a ênfase adequada na abordagem da grande mídia por razões óbvias, já que ela também está altamente comprometida com os mesmos grupos financeiros.

Mais sobre esse assunto:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/08/1496943-tres-empresas-bancam-65-da-arrecadacao-de-presidenciaveis.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2014/10/1525451-eles-venceram-outra-vez.shtml

GraficoEleicoes2014Financiadores

2) Sobre a mídia:

Em um momento chave para a história da política em nosso país, com tantos embates ideológicos e gente replicando e reproduzindo opiniões a torto e direito, é necessário que façamos uma reflexão sobre a origem dessas opiniões. De onde vêm as informações que usamos como referência para nossas decisões políticas?

Até pouco tempo atrás, não existia rede social, e absolutamente 100% da nossa informação era precedente de um só lugar: A grande mídia convencional. É a informação proveniente dela que construiu as bases de nosso pensamento político nos últimos anos, ou décadas. É a informação proveniente dela que formou a opinião de nossos pais, de nossos avós, dos dirigentes das empresas onde trabalhamos: Uma opinião predominantemente conservadora.

O império midiático brasileiro está essencialmente nas mãos de quatro famílias: Família Civita (Grupo Abril), família Mesquita (Grupo Estado), família Oliveira (Grupo Folha) e família Marinho (Organizações Globo). Juntos eles concentram mais de 80% de todo o mercado midiático do país, e com ele toda a informação que circula e com a qual você forma sua opinião.

Victor-Civita

Esse oligopólio é extremamente nocivo para a verdadeira democracia de um país, e já foi alvo de repreensões da ONU em mais de uma ocasião:

http://reporterbrasil.org.br/2013/03/relator-da-onu-para-liberdade-de-expressao-critica-concentracao-de-midia-no-brasil/

Toda vez que se fala em “regularização da mídia” no Brasil os quatro grupos, por razões óbvias, fazem um grande alarde e histericamente bradam contra a censura de imprensa, fingindo defender a sua, a minha, a nossa liberdade de expressão. Na verdade o que estão defendendo é o monopólio midiático que ostentaram durante as ultimas décadas, o que lhes concedeu o poder para manipular os rumos da nação (ou pelo menos, influenciar consideravelmente).

Não é interessante como nessa ultima eleição se falou mais em “financiamento privado de campanhas” do que em toda a história da política brasileira ate agora? Não é interessante como as revoltas de junho floresceram justamente no auge da rede social Facebook, depois de décadas de insatisfação com a política? A cortina de ferro do monopólio da informação foi rompida com o advento das redes sociais, pelo menos uma pequena brecha nele, e subitamente o mundo começa a não parecer tão preto no branco assim…

Não é segredo que a mídia assumiu um papel político muito além da simples “informação”. Seus próprios dirigentes assumem – claro, não em notas oficiais – seu papel como oposição, como influenciadores dos eventos. Alguns mais que outros.

Civita admitiu a Mino Carta que são o único verdadeiro partido de oposição nesse país:

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2014/09/27/melancolico-fim-da-revista-veja-de-mino-a-barbosa/

Boni admitiu que a Globo manipulou os debates para garantir eleição de Collor contra Lula 22 anos atrás:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/11/apos-22-anos-boni-admite-que-globo.html

Isso não torna a mídia tradicional uma vilã, claro que não. Mas devemos enxergar essas empresas como o que elas realmente são: Empresas. E os veículos publicados por elas como o que eles realmente são: Produtos. Que devem ser avaliados e muitas vezes questionados. A internet está aí, nunca foi tão fácil buscar uma segunda, uma terceira opinião, quando o assunto for sério.

Nos últimos anos, ao longo de sua gestão no executivo, o PT se envolveu profundamente na corrupção que sempre existiu no nosso país, mas os grupos midiáticos brasileiros tem fomentado uma certa indignação seletiva que tornou parte da população cega aos pecados e absurdos cometidos pela oposição.

Escutei em mais de uma situação pessoas defendendo Eduardo Cunha, acusado de pedir propina de R$ 10 milhões e um dos principais investigados da Operação Lava Jato, só por ele apresentar oposição ao PT. Ora, que indignação à corrupção é essa, que condena e absolve com tamanha arbitrariedade?

Isso não significa que muitas das acusações ao PT que são publicadas não sejam verdadeiras. Mas a forma como elas são enfatizadas e reproduzidas à exaustão, enquanto acusações à oposição são relegadas à nota de rodapé (que atenção recebeu a Privataria Tucana, o Trensalão ou o Mensalão Mineiro do PSDB?) cria na população uma interpretação falaciosa da realidade, a ilusão de que existe um único inimigo a ser combatido. Isso direciona a indignação da população, como uma boiada sendo tocada, e garante que o atual sistema de privilégios e corrupção se mantenha praticamente inalterado. Muda apenas a pessoa sentada no “trono” da vez.

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A moral da história é: Tenha a posição política que você quiser (vivemos em uma democracia afinal de contas). Mas tenha em mente de que existem forças atuando por trás dos panos, com objetivos próprios e agendas particulares, e que existe muito mais em jogo aqui do que um simples: “Tirar de jogo o maldito PT e começar a mudar a política no Brasil”.

Votando em quem for votar, defendendo o que for defender, lembre-se sempre de estar vigilante, e ter certeza de que a idéia que está replicando por aí é realmente sua.